sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Megaupload, Pablo Escobar e o marketing furado

O fechamento do site de compartilhamento Megaupload e a prisão de seu proprietário Kim Schmitz, conhecido no mundo virtual como Dotcom, mostram como está ficando perigosamente cada vez mais similar a criminalização na internet com o falido combate ao narcotráfico. Se no passado tínhamos traficantes como Pablo Escobar ou Escadinha, para lembrar apenas de dois, na área virtual já tivemos o Mininova e agora o Megaupload. Rei morto, rei posto. E vai continuar sempre assim até que se discuta o óbvio: por que esses "serviços" são tão procurados? A resposta é óbvia: porque existe demanda.
     Não vou aqui fazer apologia para a liberação das drogas. Pode ser um bom tema para outra oportunidade. O que eu quero neste post é analisar o motivo destes sites de compartilhamento serem tão acessados. Tenho uma hipótese de que não se trata de conseguir apenas um conteúdo de graça, mas conseguir este conteúdo. Explico. A BBC tem várias excelentes séries de TV. Uma delas é sobre Sherlock Holmes, que no início deste ano teve sua segunda temporada (foram três episódios). Pois bem. Até hoje nenhum canal de TV no Brasil se dignou a mostrar a primeira temporada que foi ao ar há um ano.
     Outro exemplo. O filme Moneyball, com Brad Pitt, já estreou há meses nos Estados Unidos, mas estava com sua previsão de lançamento marcada para fevereiro aqui no Brasil. Previsão porque a distribuidora ainda não tinha se convencido de que a temática do filme agradaria ao público brasileiro, pois trata-se do universo do beisebol. Nem vou aqui mencionar com detalhes as séries de televisão que já terminaram há mais de um ano e que só agora chegam aos canais abertos. 
     No século passado, nós consumidores tínhamos que nos sujeitar e a nos resignar a esta lógica do marketing das grandes corporações. Mas com a chegada da internet este jogo, e muitos outros, tiveram suas regras mudadas drasticamente. Graças aos sites de compartilhamento tenho acesso a todos estes conteúdos de que sou privado por algum gênio do marketing que acredita poder decidir o que posso ou não assistir diante de suas conveniências comerciais.
     Estes imperadores romanos vivem seu ocaso por não conseguirem mudar seus próprios paradigmas. E o que fazem? Vão com unhas e dentes bater na porta de governos, polícia e judiciário para mover o poder estatal no combate do que eles qualificam de crime ao direito autoral ou pirataria. E, como demostram o fechamento do Megaupload e o projeto de lei nos EUA para cercear draconianamente o uso da internet, os dinossauros estão conseguindo expressivas vitórias. A maior de todas é a de empurrar o Estado para este jogo da criminalização, como o combate às drogas nos jogou no passado neste pântano atual aparentemente sem saída.
     E qual seria a solução óbvia para impedir a proliferação da pirataria? Disponibilizar o conteúdo oficialmente por meio dos sites das empresas que produzem este material, como BBC, Sony, Warner, FOX, HBO, etc, ou a criação de um portal que agregaria tudo isso em um só lugar. Obviamente não seria oferecido de graça, mas o serviço poderia obedecer a mesma lógica das televisões a cabo: com uma assinatura mensal você tem todo o conteúdo possível que quiser sem restrição. 
     Não parece ser algo impossível de ser feito. A questão é disposição para investir neste novo mundo e criar outros paradigmas. No entanto é muito mais confortável e previsível querer que os modelos de negócio continuem do mesmo jeito como eram no século 20. Com o bônus de ter a polícia de graça para combater os criminosos cibernéticos. Até quando vamos aceitar passivamente este jogo furado?
     
       
    

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Religião para ateus - uma resenha

É curioso como de tempos em tempos sempre aparece alguém que faz algo de maneira inusitada. É um talento que pode construir catedrais, descobrir uma vacina, desvendar leis da natureza ou até mesmo fazer jogadas geniais em um campo de futebol. Pode ser um exagero da minha parte, mas gosto de colocar o filósofo suíço Alain de Botton nesta categoria. Há tempos acompanho seus livros e documentários (no marcador filosofia deste blog você poderá encontrar muitos textos baseados em suas explicações). E o que faz Alain de Botton de tão especial? Ele é claro nos seus ensinamentos, didático, bem articulado e vê a filosofia não como algo inatingível para seres mortais como eu e você. Ao contrário, ele traz para o nosso cotidiano pensatas de antigos filósofos que nos ajudam a compreender as nossas angústias nesta agitada vida moderna.
     Neste seu caminho inusitado, Alain lançou recentemente Religião para ateus (editora Intrínseca). O livro é de leitura fácil, como é de praxe em seus trabalhos, mas sem cair no superficialismo. Ele tem a habilidade de abordar conceitos complexos ou ideias sofisticadas com uma naturalidade como se tivesse conversando com amigos em um almoço.
     E a proposta da obra é bem instigante. Alain analisa as religiões e procura encontrar aspectos que possam ser adaptados com sucesso em uma vida secular. A angústia dele é que a religião de uma forma ou de outra supre com muita competência necessidades interiores de cada ser humano. O problema é que se você é um ateu, como o autor,  qualquer menção à igreja é logo vista com desdém. E desta forma essas pessoas se distanciam de valores morais e filosóficos importantes. Como ele explica, "as religiões conseguiram combinar teorias sobre ética e metafísica com um envolvimento prático em educação, moda, política, viagem, hospedaria, cerimônias de iniciação, edição de livros, arte e arquitetura - uma gama de interesses que eclipsa a extensão de conquistas até mesmo dos maiores e mais influentes movimentos e indivíduos seculares da história".
     A partir deste mote ele vai costurando seu livro em capítulos como Comunidade, Gentileza, Educação, Ternura, Pessimismo, Perspectiva, Arte, Arquitetura e Instituições. Em cada seção ele surpreende o leitor com análises de como a religião foi competente para influenciar cada um destes aspectos abordados e as dificuldades que a vida secular mostra em dar respostas com a mesma eficiência.
     Um dos casos analisados é sobre a educação. Botton afirma que no início do século 19 havia o "sonho de que a cultura pudesse ser tão efetiva quanto a religião em sua capacidade de guiar, humanizar e consolar". Em vez de usarmos passagens bíblicas nos ensinamentos morais, chamaríamos as máximas de Marco Aurélio ou as óperas de Wagner já que as "lições éticas da religião se espalham pelo cânone cultural". Mas isso não deu certo. E por que? Botton tem uma teoria interessante. Para ele as "universidades conquistaram uma competência sem paralelos na transmissão de informação factual acerca de cultura, porém elas permanecem de todo desinteressadas em treinar estudantes para usá-la como repertório de sabedoria". Em outras palavras, como viver não faz parte do currículo escolar.
     Botton propõe uma solução para corrigir este problema. As universidades precisariam alterar seu currículo não mais para que os alunos acumulassem informação, mas usar o conteúdo cultural para iluminar a vida deles em vez de estimulá-los a atingir objetivos acadêmicos. Desta forma, "os romances Anna Karenina e Madame Bovary seriam alocados em um curso sobre tensões do casamento...Uma universidade interessada nas verdadeiras responsabilidades dos artefatos culturais dentro de uma era secular estabeleceria um Departamento de Relacionamento, um Instituto de Morrer e um Centro para o Autoconhecimento".
     Tudo isso pode dar a impressão de ser uma grande viagem do autor. No entanto, a partir deste exercício de imaginação vemos de maneira objetiva, muitas vezes cruel, como é cada vez mais premente repensar  como recebemos e distribuímos o conhecimento. E como estas falhas nos distanciam de valores éticos e morais e do necessário autoconhecimento. Itens fundamentais para termos uma vida melhor, como as religiões sempre souberam e foram tão eficazes ao longo dos milênios em nos ensinar. Enquanto este novo mundo de Botton não surge, termino a leitura imaginando se não valeria a pena olhar com menos preconceito para este aspecto das religiões e encontrar o conforto necessário que este mundo moderno e tecnologicamente avançado nos nega.

Saiba mais
Outros posts sobre Alain de Botton

Palestra de Alain de Botton no TED (com legendas em português)

Epicuro e a felicidade (legendado)

Sócrates e a autoconfiança (legendado)

Sêneca e a raiva (legendado)

Montaigne e a autoestima (legendado)

Schopenhauer e o Amor (legendado)
 

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Os famintos

De todo o  Sermão da Montanha esta frase talvez seja a mais enigmática: "Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos" (Mateus 5:6). Na transcrição mais coloquial da Bíblia da CNBB, "Felizes os que têm fome e sede da justiça, porque serão saciados.". O que Jesus quis dizer com isso? E lá fomos nós atrás de informações que pudessem elucidar este enigma.
      Uma possível chave é olhar pelo lado reverso da questão, ou seja, a injustiça. E neste quesito o nosso planetinha azul é bem pródigo. Podemos sofrer injustiças em muitos níveis. Em nosso dia a dia, por exemplo, encontramos terreno fértil para a falta de justiça nas relações comerciais, na convivência com colegas de trabalho, vizinhos e familiares. Muitas vezes ficamos perplexos e impotentes para reagir a uma situação negativa como essa.
     Recorrer à Justiça em qualquer parte do mundo não é garantia de ser atendido. Invariavelmente você precisa ter bons advogados para conseguir ser competitivo neste mundo do direito. E para isso você precisa de dinheiro para pagar os honorários. Quem não tem uma reserva financeira, fica ao relento e com uma causa perdida.
     Outra forma de injustiça é a acumulação de riqueza nas mãos de uns poucos privilegiados. Uma grotesca concentração de renda. Um dos vários indicadores nessa área mostra que a renda média dos 20 países mais ricos do mundo corresponde a 37 vezes a renda dos países mais pobres. Outra afronta são os valores pagos a presidentes de empresa que muitas vezes passam das 200 vezes o menor salário. Fora os bônus obtidos de forma suspeita como a crise de 2007 escancarou para o mundo. Empresas quebradas que artificialmente manipulavam suas contas para parecer que havia lucro em vez de prejuízo e assim garantir um polpudo pagamento extra no final do ano.
     E devemos ficar passivos vendo tanta injustiça? Apesar de não podermos fazer muita coisa, precisamos manter este espírito de inconformidade. Afinal, felizes os que têm fome e sede de justiça, como falou Jesus. No livro, Bem-aventuranças - caminho para uma vida feliz, o monge Anselm Grüm explica que todos nós precisamos lutar para sempre fazer o que é certo. "Tal batalha pode ser cansativa, mas também torna felizes aqueles que, do fundo do coração, se comprometem com a causa", afirma Grüm.
     Ele alerta, porém, que o desejo por justiça aqui na Terra permanecerá incompleto. No entanto, citando o antigo teólogo místico Gregório de Nissa, a procura por justiça vai tornar o ser humano interiormente satisfeito. E da busca incessante surgirá a experiência do que é bom, do que é certo, de como viver, e se esforçar por uma vida feliz.
     Para quem espera alguma punição para os causadores das injustiças, o Espiritismo traz um alento. No livro, Os quatro sermões de Jesus, o autor Paulo Alves Godoy afirma que "os que se tornaram instrumentos das injustiças, serão defrontados com duros revezes espirituais" quando desencarnarem. Pela lei de causa e efeito, deverão reparar o que fizeram em vidas futuras sob a forma de expiação.
     Seja como for o importante é ter uma vida correta e justa e lutar para que o nosso mundo seja um pouco menos injusto. Daí vem a bem-aventurança.


Leia também
Bem-aventuranças: o sermão
Os pobres de espírito
Os tristes felizes
Os amáveis

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Religião para ateus

Um dos filósofos atuais que mais gosto é o suíço Alain de Botton. Quem acompanha este blog sabe que em  muitos posts menciono as ideias dele. É só clicar no marcador filosofia para ver alguns destes textos. Um deles, Schopenhauer e o amor, é um dos mais acessados por aqui. Gosto dele porque ele é simples, direto e sem afetação em suas explicações. E o melhor de tudo: foca a filosofia no dia a dia das pessoas. Tenta trazer respostas para nossas angústias, medos, amores, raivas, inseguranças etc. É a filosofia usada para melhorar o nosso interior e para que possamos viver com mais tranquilidade. Os espíritas chamariam isso de reforma íntima e usariam os ensinamentos de Jesus como norte. Botton é ateu e usa os filósofos para ir nesta mesma direção.
     Ele esteve no Brasil por esses dias para o lançamento do livro Religião para Ateus, que ainda não tive a oportunidade de ler, mas em breve vou fazer isso e postar algumas considerações por aqui. Bom, o interessante é que ele concedeu uma entrevista para a revista Exame que gostaria de compartilhar com vocês. Um bate papo com boas perguntas e ótimas respostas. Coloquei a íntegra abaixo. Espero que gostem.


“Nós somos uma espécie ingrata”, diz filósofo Alain de Botton

Em entrevista a EXAME.com, o filósofo do cotidiano falou sobre o desejo de status e o paradoxo do sucesso material

São Paulo – Sem frases altamente complexas ou raciocínios muito abstratos, o filósofo suíço Alain de Botton expõe as ideias que tem construído ao longo de quase duas décadas de carreira. Ele popularizou a filosofia com seus livros, focado nos problemas do cotidiano e sempre recorrendo a uma bagagem de diversos pensadores e artistas.
Uma delas é “Como Proust pode mudar sua vida” (1997), onde o autor usa os ensinamentos de Marcel Proust para ajudar o leitor em campos como o amor, o sofrimento, a felicidade, a arte e a amizade. Já na obra “Desejo de Status” (2004), Alain de Botton fala sobre a ansiedade de ter status e riqueza, e da frustração que isso causa, quando o sucesso não é alcançado.Nesta semana, de Botton veio ao Brasil para participar do ciclo de palestras Fronteiras do Pensamento e para lançar sua obra mais recente, “Religião para Ateus” (2011). No livro, ele fala sobre os ensinamentos que as religiões podem dar mesmo àqueles que não possuem uma crença. Antes, o filósofo escreveu outras nove publicações que foram best-sellers.
Diferentemente da ambição, que é uma vontade de crescer para satisfação pessoal, o “desejo de status” se origina da preocupação com o que os outros vão pensar. As consequências podem ser várias, desde a riqueza até o suicídio. É exatamente sobre esse assunto que o filósofo falou a EXAME.com. Confira trechos da entrevista.
EXAME.com: De que depende a felicidade no trabalho?
Alain de Botton: 
Felicidade no trabalho é muito complicada. Eu acho que ela basicamente depende de algo dentro de você. Algo precioso e importante, uma habilidade, um talento, um interesse sendo conectados com algo no mundo que gera dinheiro. Na maior parte do tempo, as coisas pelas quais a gente realmente se importa não fazem dinheiro. E as coisas que fazem dinheiro nos matam por dentro. Nós não gostamos de fazê-las. Esse é o problema do capitalismo. A maior parte do dinheiro no mundo moderno é gerada em empresas que não são tão interessantes para nosso espírito, para nossas mentes
EXAME.com: As pessoas estão mais infelizes com suas carreiras e seu trabalho atualmente em relação às gerações de décadas atrás?
de Botton:
 Esse é definitivamente o caso em que quanto mais você espera da vida, mais a vida tem que dar, do contrário, você fica infeliz. É o paradoxo do sucesso material. À medida que a sociedade fica mais bem sucedida, as expectativas das pessoas aumentam e, por isso, elas ficam ingratas sobre coisas que seus pais ou seus avós ficariam muito agradecidos. Nós somos uma espécie ingrata. Nós sempre pensamos naquilo que nós não temos. Não se trata de não tentar conseguir mais, mas, na medida em que tentamos conseguir mais, nós deveríamos sempre lembrar que isso vai entregar apenas uma pequena porcentagem da felicidade que nós imaginamos. Nós devemos estar prontos para isso.
EXAME.com: O senhor diz que meritocracia não é 100% eficiente. Na sua opinião, há um modo melhor de avaliar as pessoas e suas competências, que possa reduzir o “desejo de status”?
de Botton: 
Nós deveríamos sempre tentar criar um mundo meritocrático, um mundo onde, se você tiver talento e energia, você deveria conseguir subir. O problema é que nós devemos sempre reconhecer que isso é um sonho do mundo perfeito. Porque todos nós somos mais talentosos, mais interessantes, mais habilidosos do que o mundo poderá saber, que nós poderemos saber um dia. O sonho é a gente poder pegar tudo que é bom em nós e fazer dinheiro com isso. Isso é uma coisa que apenas 0,001% da população pode um dia fazer. Nós precisamos reconhecer isso, falar sobre isso e nos entristecer com relação a isso, juntos, em uma sexta-feira à noite após o trabalho.
EXAME.com: As redes sociais, como Facebook e Twitter, que permitem que as pessoas se tornem webcelebridades, aumentam o “desejo de status”? O que o senhor pensa sobre esse assunto?
de Botton:
 As redes sociais oferecem às pessoas uma maneira de ter status fora do sistema financeiro. Porque muita gente acessa o Twitter, por exemplo, não por dinheiro, mas simplesmente porque elas gostam de ter outras pessoas ouvindo o que elas querem falar e respondendo a elas. Isso mostra uma coisa muito interessante sobre a natureza humana, que é que, mesmo que nós gostemos de ganhar dinheiro, no final do dia, ainda mais importante do que dinheiro, depois de um momento básico, é o amor. Nós queremos o amor do mundo.
EXAME.com: No Brasil, tem havido um aumento do número de ateus e agnósticos, segundo levantamentos recentes. A falta de fé pode tornar mais difícil lidar com o “desejo de status”?
de Botton:
 Eu sou um ateu, então eu não acho que a resposta seja nós nos voltarmos para a fé. Mas, sim, quando a religião declina, certas coisas realmente pioram do ponto de vista dessa ansiedade. Mesmo um rei, no Cristianismo, fica de joelhos diante de Jesus. Essa é uma ideia muito bonita e, uma vez que você se livra de Jesus, o que você tem? O que vai ser maior do que a humanidade? O perigo é: nada. O perigo é nós pensarmos “nós somos fantásticos. Nós temos Steve Jobs, que inventou o iPad”.
Nós nos adoramos e isso nos leva à loucura. Nós precisamos de momentos em que podemos fugir do narcisismo humano e olhar para outros lugares. É por isso que as pessoas hoje estão mais impressionadas com a natureza. Não é apenas uma questão ambiental, é também uma questão psicológica. Você olha para a natureza e pensa: isso é uma coisa que existe fora da humanidade. E ela é maravilhosa, porque ela não pensa em nós, assim como animais, árvores, estrelas, até mesmo crianças pequenas. Esses são exemplos de coisas que estão fora do sistema do dinheiro, fora do sistema do status, e elas são muito, muito relaxantes e necessárias para nossa alma.
EXAME.com: O senhor também diz que ninguém é independente e auto-suficiente. Onde é possível encontrar ajuda e conselhos para lidar com nossos problemas, dúvidas e ansiedade?
de Botton:
 Bem, o interessante é que o mundo moderno, onde nós temos tanto de tudo, que é tão bom em dar-nos carros, roupas e todo resto, quando diz respeito à nossa vida interior, a ajuda é quase como a Rússia nos tempos comunistas. É muito, muito má. O modelo mais sistemático que existe para a vida interior é provavelmente a psicoterapia, que no Brasil e no resto é ainda uma coisa menor. Acho que precisamos de ajuda, e minha esperança é que os empreendedores do futuro não pensem apenas no corpo e suas necessidades, mas também pensem na mente e em suas necessidades.
EXAME.com: Quais são as possíveis soluções para o “desejo de status”?
de Botton:
 O maior inimigo nesta situação é a solidão, paranoia, a sensação de que estamos completamente sozinhos. É muito vergonhoso sentir o “desejo de status”. Ele não é algo que você pode realmente admitir, não é fácil admitir a inveja de alguém. E, ainda assim, a inveja é enorme. Eu acredito que nós precisamos de alguns mecanismos para admitir isso, nós precisamos de amizades que são capazes de aceitar esse nosso lado, nós precisamos ser capazes de falar sobre isso.Todo problema é reduzido ao se falar sobre ele. E nós precisamos achar grupos de status que serão tolerantes e faça-nos sentir relativamente relaxados. No mundo moderno, nós somos jogados contra pessoas que realmente destroem nossa paz interior, suas ambições nos levam à loucura e, talvez isso não seja para nós. Talvez nós precisemos apenas perder alguns amigos. Meu conselho seria fazer alguns amigos e perder outros, para nos focarmos no que nós realmente queremos.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Os amáveis

Em nossa escalada pela montanha da elevação espiritual, na busca pela reforma interior, vamos hoje conhecer um novo degrau.  Quando Jesus fez o sermão da Montanha, uma de suas frases emblemáticas foi algo como felizes os amáveis, pois eles herdarão a Terra. No evangelho de Mateus (5:4), a frase literal seria “Bem-aventurados aqueles que são mansos, porque possuirão a Terra”. Um pouco mais para frente temos o seguinte versículo que complementa a frase acima (5:9): “Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados de filhos de Deus”.
     Este degrau é um dos mais complicados para se alcançar, pois trata do combate aos sentimentos negativos mais comuns que temos, como a raiva, o ódio, o orgulho e a impaciência. Complicado porque neste mundo hostil em que vivemos não é nada fácil ser manso e pacífico. Sugere até uma irrealidade, como se tivéssemos que viver como Polyanas em um mundo cor de rosa.
     Porém, se pararmos para pensar um pouco percebemos que estes sentimentos negativos, por mais comuns que sejam, nos levam sempre ao desequilíbrio emocional. Por tabela, nos sentimos mal após a catarse. Neste momento, a razão que foi escanteada pela emoção, retoma o controle e nos mostra que aquela atitude não foi a mais adequada.
     Um padre da época primitiva da Igreja, quando o humanismo ainda era a tônica das mensagens eclesiais, percebeu que a chave para se ter o controle das emoções era a de treinar a busca incessante pela mansidão. Ou seja, era uma virtude que precisava ser adquirida. Nas palavras de Gregório de Nissa, “felizes aqueles que não cedem facilmente às moções da paixão da sua alma, mas que, por meio da moderação, preservam a calma interior; aqueles nos quais a razão, como uma rédea, freia os impulsos e não permite que a alma dispare descontroladamente em atos violentos”.
     Quem trilha este caminho com o coração e não apenas na aparência, pode conseguir mudanças interessantes no comportamento das pessoas com que interage, segundo diz o monge Anselm Grün. “Mansidão e amabilidade podem ter uma influência boa sobre a resistência dos colegas de trabalho....Ela (a mansidão) é como a água que amolece a pedra dura”.
     Anselm acredita que para conseguirmos chegar neste estágio precisamos primeiro ter compaixão interna. Ele ensina que pessoas que nunca estão satisfeitas consigo mesmas e, por tabela, com outros seres, jamais alcançarão a harmonia. O antídoto seria sermos menos rígidos com nós mesmos. Só assim teremos condições de estarmos em harmonia interior e com as demais pessoas. “O manso tem a coragem necessária para admitir tudo o que acontece em seu íntimo...Quando fica firme em sua mansidão, também no trato das pessoas, modificará a terra”.
     Para os espíritas kardecistas, o trecho  “herdarão a Terra” desta bem-aventurança teria o significado de que no futuro, quando nosso planeta deixar de ser um lugar de provas e expiações para se tornar um mundo de regeneração, os mansos e pacíficos, aqueles que cultivaram o amor e a caridade com o próximo, vão permanecer por aqui. Já as pessoas (espíritos) cujas vibrações estejam fora desta sintonia vão ser levadas para outro planeta e iniciarão nova jornada rumo à paciência e à mansidão.


Leia também
Bem-aventuranças: o sermão
Os pobres de espírito
Os tristes felizes
Os famintos

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Os tristes felizes

No sermão da Montanha, Jesus segue o seu rosário de bem-aventuranças. Já mencionamos os pobres de espírito no post anterior. Agora, a frase encontrada no evangelho de Mateus (5:4) é “Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados”.  Uma versão mais moderna destas palavras seria algo como “Felizes os tristes, pois serão consolados”.
     De bate pronto, parece que estamos lidando com um Deus sádico que quer ver todos nós sofrendo. Isso não faz muito sentido se você acredita em uma divindade que nos quer bem, como Jesus cansou de pregar. Bom, se a leitura direta não é a mais adequada, qual seria então a interpretação apropriada?
     Se você for espírita, conhece a lei da ação e da reação, uma variação do carma. Simplificando, se em uma encarnação você foi uma pessoa que abusou de práticas pouco éticas e enveredou pelo mau caminho, na próxima você terá que fazer algum tipo de acerto de contas. Poderá, por exemplo, sofrer de alguma doença, viver sempre em dificuldades financeiras etc.
     Você vai padecer de tudo isso para ser testado a seguir em frente com resignação e sem tentar atalhos criminosos. Passando por essas provas com coragem e correção, você consegue melhorar, digamos, seu saldo cármico. Ou seja, você tem mais chances de sair do “Serasa espiritual”.
     Óbvio que seria mais fácil aceitar as pedras no caminho se soubéssemos que passamos por dificuldades nesta vida porque estamos pagando por males feitos no passado. Mas como desconhecemos isso, corremos o risco de levarmos esta prova para o lado negativo e seguir uma jornada não apropriada. É fácil ficar revoltado, perguntar por que comigo?, entrar em depressão  e até mesmo ir na direção do suicídio ou do crime.  Afinal, temos o tal do livre-arbítrio que nos permite escolher a estrada que queremos percorrer: a da dor ou a do amor.
     Por isso que a frase de Jesus diz que serão felizes os sofredores, pois serão consolados.  Estes vão passar por maus bocados na Terra, mas, se agirem corretamente, quando desencarnarem conseguirão se elevar espiritualmente.
     Na interpretação católica, a frase de Jesus ganha outra conotação, mas não muito diferente da dos espíritas na parte da resignação às dificuldades. O monge Anselm Grün, no livro Bem-aventuranças Caminho para uma vida feliz, explica  que “consolo é firmeza. Quem assume a tristeza em relação a sua vida não vivida, a suas carências e perdas, ganha nova determinação. Tem chão firme sob os pés. Consegue ficar forte em relação a si mesmo. Conquista uma posição sólida...e experimenta o apoio de Deus, que fica ao seu lado e o sustenta para que, vencendo  suas fraquezas, possa entrar em contato com o seu verdadeiro ser...”
     Portanto, diante dessas interpretações, nada de muitas lamúrias frente às dificuldades já que você pode estar pagando por um saldo negativo de vidas passadas e/ou se fortalecendo para alcançar a paz interior.

Leia também
Bem-aventuranças: o sermão
Os pobres de espírito
Os amáveis
Os famintos

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Os pobres de espírito

Já mencionei de leve em post anterior a interpretação para este trecho do Sermão da Montanha, também conhecido como o sermão das bem-aventuranças, já que Jesus sempre começava suas frases no discurso com "Bem-aventurados...". No caso específico que vamos tratar hoje, a passagem seria "Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus". Consta em Mateus, capítulo 5, versículo 3, ou, na simbologia bíblica, 5:3. Em algumas transcrições, troca-se pobres de por pobres em. Em Lucas, 6:20, o espírito desaparece da frase: "Bem-aventurados vós que sois pobres, porque vosso é o Reino de Deus!".
     Seja como for, a ideia central da mensagem aqui não é a de desqualificar o espírito. Rebaixá-lo como algo inferior. Ao contrário. A palavra "pobres" tem a conotação de pessoa humilde. Como explica Paulo Alves de Godoy no livro Os Quatro Sermões de Jesus, os orgulhosos preocupam-se com o mundo material e se acham superiores. Já os mais simples entendem esta questão como secundária e que o importante é a reforma íntima para alcançar a elevação no mundo espiritual.
     Alguns filósofos vão mais fundo na questão. O monge Anselm Grün cita dois deles em seu livro Bem-aventuranças. Caminho para uma vida feliz. São considerados pensadores místicos, por procurarem na época em que viverem, na Idade Média, uma abordagem mais humanística das palavras de Jesus. Para Mestre Eckhart, o pobre em espírito seria quem não quer nada, não sabe nada e não tem nada.Afinal, nada nos pertence, nem uma pessoa, nem nossa casa, nem nossa vida. Podemos desfrutar disso por um tempo, mas tudo foi emprestado. É uma maneira elegante de não dar a mínima para o acúmulo de bens. Afinal, você é livre e não precisa ficar preso na neurose da acumulação de coisas.
     Outro filósofo místico, Gregorio de Nissa, explicava que quem sem livrava da riqueza ficava mais leve para poder se elevar para o alto. A pobreza interior nos eleva a Deus, enquanto as posses nos empurram para baixo. Grün arremata todas essas considerações ao explicar que a "primeira bem-aventurança é um caminho para a liberdade interior e, assim, para a verdadeira felicidade." O mote aqui seria o desprendimento.
     E ele finaliza o capítulo contando a fábula alemã João Sortudo. O personagem ganha uma barra de ouro, mas por ser muito pesada, ele troca por um cavalo. Este por sua vez é muito bravo e João não consegue controlá-lo. Aí ele faz outra troca e tem agora uma vaca. Depois vem um porco, um ganso e uma pedra de amolar. Até que um dia esta pedra cai na água e ele não tem mais nada. Justamente nesta hora ele começa a dançar e cantar porque sua felicidade não depende de posses, prazeres  e sucessos. Está grato pela vida e feliz por ser capaz de desfrutar dela. A pobreza de espírito seria para Grün simplesmente viver, sem pretensão, aproveitar cada instante e estar grato por aquilo que existe. Só isso basta.
   
Leia também:
Compreendendo Jesus
Por parábolas
Bem-aventuranças: o sermão
Os tristes felizes
Os amáveis
Os famintos

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Bem-aventuranças, o sermão

Um tema recorrente neste blog é a bem-aventurança. É um conceito que li primeiro em Joseph Campbell no Poder do Mito, mas foi e continua a ser utilizado por diversos autores. A ideia básica proposta é de você buscar sua felicidade. Ir atrás daquilo que vai ser melhor para você. Tanto que a frase clássica de Campbell e que ilustra a primeira página deste sítio virtual diz: "Persiga a sua bem-aventurança e não tenha medo, que as portas se abrirão, lá onde você não sabia que havia portas". Ou seja, vá atrás do que você sonha, quer, deseja, pois você vai alcançar. Óbvio que nada nesta vida é fácil, mas com persistência e sem se deixar abater com eventuais fracassos, a vitória é alcançada.
     Mas estou dizendo tudo isso porque, não por acaso, um dos sermões de Jesus trata especificamente da bem-aventurança. É o famoso Sermão da Montanha. Acho que foi Gandhi quem disse uma frase que retrata bem a importância filosófica deste pronunciamento: se tudo o que Jesus escreveu fosse destruído, mas este sermão fosse conservado, já teríamos preservado todos os seus ensinamentos. Como em tudo que diz respeito às palavras de Cristo, há muito simbolismo em suas palavras e inúmeras são as interpretações. Até o fato dele ter proferido o sermão no alto de uma montanha teria um significado espiritual. Algo como estar mais próximo de Deus. A elevação representaria simbolicamente uma ligação entre o céu e a terra.
     No caso deste sermão de Jesus, as bem-aventuranças que ele menciona nada mais seriam do que degraus de acesso ao topo desta montanha. Em outras palavras, seguindo aqueles ensinamentos do discurso qualquer um poderia chegar mais perto de Deus. Gregório de Nissa, um místico grego que viveu no século IV, já fazia naquela época interpretações nesta linha. Para ele, a montanha é o lugar onde seguimos Jesus para subir de nossas ideias baixas e limitadas para a montanha espiritual da mais nobre contemplação.
     Não sei quanto a vocês, mas para mim tudo isso tem tido um impacto muito grande. É como se um véu fosse levantado. E curiosamente vou esbarrando sem querer em conteúdo que vai me abrindo outras portas. Dia desses estava no shopping e para fazer uma hora entrei na livraria. Olhava as estantes despreocupadamente quando vi um livrinho (no tamanho, não na qualidade) com um título interessante: "Bem-aventuranças. Caminho para uma vida feliz". Peguei a obra e fui ver seu interior. Para minha surpresa, era uma explicação trecho a trecho do sermão da Montanha escrito por Anselm Grün, um monge beneditino alemão de quem eu  nunca tinha ouvido falar. O fato é que o livro é bem escrito, fluente, acessível e com muitas informações interessantes. Fui ver se ele tinha outras obras e fiquei espantado com a quantidade de títulos publicados. Comprei este da bem-aventurança e outros que explicam os evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João.
     Enfim, estou mergulhado no tema e fascinado com as descobertas. A interpretação simbólica da montanha que mencionei há pouco, por exemplo,  foi tirada deste livro de Anselm Grün. Nos próximos posts vou compartilhar algumas de suas revelações sobre o sermão da Montanha, começando com "bem-aventurados os pobres de espírito".


Leia também
Os pobres de espírito
Os tristes felizes
Os amáveis
Os famintos

domingo, 23 de outubro de 2011

Por parábolas

Um amigo de velhos tempos leu os dois posts anteriores em que eu especulava sobre a forma de Jesus falar e como suas palavras poderiam ter sido alteradas ao longo do tempo, já que ele não deixou nada escrito e quase todos os evangelhos do Novo Testamento foram escritos no mínimo 50 anos após a sua morte. Talvez isso justifique a forma quase cifrada de suas frases e fazem com que muito papel e saliva sejam gastos para interpretar seus ensinamentos.
     Este meu amigo discorda um pouco desta análise. Ele crê que realmente Jesus falava desta maneira porque não podia revelar tudo de uma vez. Ou seja, as pessoas daquela época não estariam preparadas para compreender a verdade em sua totalidade. Esta consciência se daria pouco a pouco ao longo de centenas de anos. Cada vez que a população subisse mais um degrau no patamar evolutivo, novas interpretações destas palavras seriam apresentadas.
     Para corroborar esta tese ele me apresentou um capítulo do Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, e uma das obras fundamentais desta doutrina. O livro é voltado a explicar algumas palavras de Jesus segundo a mensagem dos espíritos. No capítulo 24, "Não coloque a candeia debaixo do alqueire", lemos que  tudo tem o seu tempo de ser revelado, assim como acontece com o ser humano em seu aprendizado. Uma criança na primeira série não saberá ainda equações desenvolvidas apenas no ensino médio. A mesma coisa ocorre com os ensinamentos de Jesus.
     No livro, surge a seguinte explicação: "É de causar admiração diga Jesus que a luz não deve ser colocada debaixo do alqueire, quando ele próprio constantemente oculta o sentido de suas palavras sob o véu da alegoria, que nem todos podem compreender. Ele se explica, dizendo a seus apóstolos: "Falo-lhes por parábolas, porque não estão em condições de compreender certas coisas. Eles vêem, olham, ouvem, mas não entendem. Fora, pois, inútil tudo dizer-lhes, por enquanto. Digo-o, porém, a vós, porque dado vos foi compreender estes mistérios." Procedia, portanto, com o povo, como se faz com crianças cujas idéias ainda se não desenvolveram. Desse modo, indica o verdadeiro sentido da sentença: "Não se deve pôr a candeia debaixo do alqueire, mas sobre o candeeiro, a fim de que todos os que entrem a possam ver." Tal sentença não significa que se deva revelar inconsideradamente todas as coisas. Todo ensinamento deve ser proporcionado à inteligência daquele a quem se queira instruir, porquanto há pessoas a quem uma luz por demais viva deslumbraria, sem as esclarecer".
     Portanto, não é de surpreender que os próprios apóstolos não tenham compreendido bem os ensinamentos de Jesus. Diante desta lógica, Cristo falava há dois mil anos, mas suas palavras miravam o futuro, quando seriam melhor decodificadas. De qualquer forma, segundo o Evangelho Segundo o Espiritismo, Jesus não teria sido de todo enigmático. Muita coisa era de fácil compreensão para as pessoas da época. Diz o livro, "Pergunta-se: que proveito podia o povo tirar dessa multidão de parábolas, cujo sentido se lhe conservava impenetrável? E de notar-se que Jesus somente se exprimiu por parábolas sobre as partes de certo modo abstratas da sua doutrina. Mas, tendo feito da caridade para com o próximo e da humildade condições básicas da salvação, tudo o que disse a esse respeito é inteiramente claro, explícito e sem ambiguidade alguma. Assim devia ser, porque era a regra de conduta, regra que todos tinham de compreender para poderem observá-la. Era o essencial para a multidão ignorante, à qual ele se limitava a dizer: "Eis o que é preciso se faça para ganhar o reino dos céus." Sobre as outras partes, apenas aos discípulos desenvolvia o seu pensamento...Entretanto, mesmo com os apóstolos, conservou-se impreciso acerca de muitos pontos, cuja completa inteligência ficava reservada a ulteriores tempos. Foram esses pontos que deram ensejo a tão diversas interpretações, até que a Ciência, de um lado, e o Espiritismo, de outro, revelassem as novas leis da Natureza, que lhes tornaram perceptível o verdadeiro sentido..... Se, pois, os Espíritos ainda não dizem tudo ostensivamente, não é porque haja na Doutrina mistérios em que só alguns privilegiados possam penetrar, nem porque eles coloquem a lâmpada debaixo do alqueire; é porque cada coisa tem de vir no momento oportuno. Eles dão a cada ideia tempo para amadurecer e propagar-se, antes que apresentem outra, e aos acontecimentos o de preparar a aceitação dessa outra."
    Em outras palavras, no futuro poderemos ser surpreendidos com novas interpretações e revelações que estavam ocultas nos ensinamentos de Jesus. Bom, não sei quanto vocês, mas estou aqui na torcida para que este tempo chegue logo.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Compreendendo Jesus 2

É só falar de religião que o assunto repercute. No post anterior fiz algumas observações sobre a necessidade de se interpretar as palavras de Jesus, porque os seus termos não eram suficientemente claros. Recebi alguns e-mails polidos questionando essa minha afirmação. No geral, o resumo das alegações é que o Novo Testamento, assim como a Bíblia, é uma obra divina. Ou seja, o que está escrito lá é algo emanado por Deus. Portanto, não nos caberia questionar a clareza ou não das palavras que constam neste livro sagrado.
     Compreendo e respeito essas afirmações. No entanto, temos que ter em mente que às vezes a interferência humana pode dificultar um pouco a comunicação. Causar ruídos indesejáveis na compreensão. Por exemplo, não sabemos se Jesus falava mesmo daquela maneira ou se suas palavras foram ajeitadas conforme o estilo do escriba que relatava seus feitos.
     Devemos levar em consideração que se jornalistas de hoje cometem erros de interpretação ou mesmo de dados factuais quando escrevem uma matéria, imaginem há dois mil anos quando alguns dos autores dos evangelhos nem foram contemporâneos de Jesus ou demoraram mais de décadas para registrar as andanças do mestre por este planeta.
     Lucas, por exemplo, não foi um dos discípulos e consta que sofreu influências de Paulo, de quem teria sido contemporâneo. Seu evangelho pode ter sido escrito perto do final do século 1, ou seja quase 100 anos depois do surgimento de Cristo. Os verbos no condicional mostram apenas que não há certeza de nada nesta história porque não existem registros históricos confiáveis.
      Alguns estudiosos acreditam que Lucas se baseou também no evangelho de Marcos, um discípulo de Pedro, portanto outro que esteve bem distante da época de Jesus. Sobra Mateus, este sim discípulo e que teria escrito seu relato uns 50 anos depois da morte de Cristo. Mas até aqui há dúvidas se Mateus foi o autor mesmo. João, outro discípulo, compôs sua obra quase um século depois.
     Por isso não é de se estranhar que existam algumas diferenças de relato entre os evangelhos. No exemplo que dei no post anterior,  Mateus diz "bem-aventurados os pobres de espírito". Lucas não menciona espíritos e diz apenas "bem-aventurados os pobres". Para complicar ainda mais, em determinado momento da história a igreja resolveu uniformizar os evangelhos. Este trabalho coube a Jerônimo, que depois viria a ser santo e padroeiro dos bibliotecários e tradutores. Ele verteu os evangelhos do grego para o latim e definiu o material que deveria constar ou não. O concílio de Trento, realizado no século 16, aprovou oficialmente este conteúdo como o Novo Testamento.
     Portanto, tem muita mão de gato nesta história e não dá para ter certeza de que as palavras de Jesus foram, em sua maioria, transcritas corretamente, inclusive no estilo de falar. Aí entra a fé de cada um. De qualquer forma, podemos afirmar com alguma segurança, já que este é um dos únicos consensos entre os estudiosos do assunto, que poderíamos resumir todos os ensinamento de Jesus em uma só palavra: amor. É o que basta e já é um grande desafio se pautar por esta ideia. Ou alguém acha fácil amar e perdoar seus inimigos? Ou quem nunca sentiu raiva, inveja e mágoa?  Amar o próximo como a si mesmo é o nosso norte. O desafio é perseverar nesta direção.

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