Esta história de que os biocombustíveis são a salvação do planeta está mal contada. Poucas vozes conseguem alertar sobre os perigos da alta do preço dos alimentos por causa da invasão das plantações de cana e milho (assunto já abordado em post anterior. Leia aqui). Até Fidel Castro alertou para o perigo. Mas como é o Fidel, a mídia faz de conta que a opinião dele não merece crédito. Agora a FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação) divulgou um estudo em que conclui que é inevitável um aumento no preço da comida por causa da produção de biocombustível. E isso deve ocorrer já este ano.
Os custos devem subir pelo menos 5% em relação ao ano passado. Isso deve equivaler a um gasto a mais de U$ 400 bilhões. E quem paga a maior parte da conta são justamente os países pobres ou em desenvolvimento que precisam importar cereais. Um trecho revelador na reportagem da Folha: " A cesta de alimentos importados para os países menos desenvolvidos deve custar, em 2007, aproximadamente 90% mais do que em 2000", diz Adam Prakash, economista da FAO. "É um contraste absoluto com o crescimento de 22% dos custos de importação dos países desenvolvidos nesse mesmo período"
E tudo isso porque os cereais, como o milho, estão sendo cada vez mais utilizados nos biocombustíveis. O aumento na procura faz o preço subir no mercado internacional. Segundo a FAO, em dado revelado na Folha, "a produção de cereais deve atingir 2,125 bilhões de toneladas neste ano, com expansão de 6% ante 2006, mas esse aumento será "mal-e-mal suficiente" para atingir a elevação na demanda. E, mais uma vez, o organismo afirma que a indústria do biocombustível -"de rápido crescimento"- será responsável pela maior procura por cereais."
Portanto, como temos repetido nesta trincheira, só uma diminuição no consumo no planeta poderá realmente fazer de nosso mundo um lugar sustentável. Mais do que ler artigos de especialistas em meio ambiente, acho que temos que ler Sêneca e o seu Maus efeitos da riqueza. Precisamos muito da filosofia para nos ajudar a abrir os olhos e perceber como nosso modelo de vida, com um consumismo irrefreável e, muitas vezes, fútil, é inviável. Medidas paliativas, como o biocombustível, só permitem que nossa consciência fique menos pesada. Porém, a realidade é bem menos dourada e os problemas só vão mudar de nome.
Leia outros posts sobre o assunto:
Biocombustíveis x fome
Lixo nuclear em casa
Em Busca de mais energia
Um trecho de A vingança de Gaia
A tal de sustentabilidade
Uma visão holística e ecológica
Salvar o planeta
Pesquise no Buscapé preços de livros de James Lovelock
Ciência, lógica, antropologia, mitos, sonhos, universos e outras dimensões
sábado, 9 de junho de 2007
A ONU e os biocombustíveis
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sexta-feira, 8 de junho de 2007
Gisele e o aborto
Outro destaque desta semana foi a entrevista da modelo Gisele Bündchen sobre o aborto e o uso da camisinha. Na conversa à Folha ela foi muito corajosa em expor sua opinião, principalmente, em um país onde a maioria da população é ultra-conservadora e, muitas vezes, hipócrita. Mandou muito bem na frase sobre as restrições da igreja católica ao aborto e à camisinha "Como é possível não querer que se use camisinha e que também não se faça aborto? É impossível, desculpa". Abaixo, um trecho da entrevista:
FOLHA - O Brasil está discutindo muito o aborto ultimamente. Qual é a sua posição a respeito?
GISELE - Sou a favor de a mulher fazer o que deseja de seu corpo. Fui a uma exposição em Nova York que mostrava o interior do corpo humano e também as fases da gravidez. Até quatro meses de gravidez, não existe quase nada. É como um grãozinho. Portanto, acho que a mulher deve ter direito de decidir o que é melhor. Se ela acha que não tem dinheiro ou condição emocional para criar uma criança, como pode dar à luz? É claro que a prevenção é a melhor coisa, mas existem situações que escapam ao controle.
FOLHA - A Igreja Católica é a principal opositora do aborto no Brasil, bem como do uso de camisinha...
GISELE - Proibir camisinha é ridículo, basta pensar nas várias doenças que são transmitidas sem ela. Quando a igreja fez suas leis, milhões de anos atrás, a mulher era virgem, o cara era virgem... Hoje em dia, ninguém mais casa virgem. Me mostra uma pessoa que seja virgem! Acho que é obrigatório usar camisinha. Como é possível não querer que se use camisinha e que também não se faça aborto? É impossível, desculpa.
Para quem acabou de chegar ao Branas, a opinião deste blog sobre o aborto é de que a mulher tenha a liberdade de decidir o que fazer. Além disso, a sociedade não pode, hipocritamente, se esconder do fato de que milhões de mulheres fazem o aborto clandestino neste país. Portanto, o aborto é uma questão de saúde pública e deve ser tratado como tal. E isso, claro, tem que ser acompanhado por um amplo programa de planejamento familiar.
Leia outros posts sobre o assunto
Um artigo...
Descriminalizar o aborto
FOLHA - O Brasil está discutindo muito o aborto ultimamente. Qual é a sua posição a respeito?
GISELE - Sou a favor de a mulher fazer o que deseja de seu corpo. Fui a uma exposição em Nova York que mostrava o interior do corpo humano e também as fases da gravidez. Até quatro meses de gravidez, não existe quase nada. É como um grãozinho. Portanto, acho que a mulher deve ter direito de decidir o que é melhor. Se ela acha que não tem dinheiro ou condição emocional para criar uma criança, como pode dar à luz? É claro que a prevenção é a melhor coisa, mas existem situações que escapam ao controle.
FOLHA - A Igreja Católica é a principal opositora do aborto no Brasil, bem como do uso de camisinha...
GISELE - Proibir camisinha é ridículo, basta pensar nas várias doenças que são transmitidas sem ela. Quando a igreja fez suas leis, milhões de anos atrás, a mulher era virgem, o cara era virgem... Hoje em dia, ninguém mais casa virgem. Me mostra uma pessoa que seja virgem! Acho que é obrigatório usar camisinha. Como é possível não querer que se use camisinha e que também não se faça aborto? É impossível, desculpa.
Para quem acabou de chegar ao Branas, a opinião deste blog sobre o aborto é de que a mulher tenha a liberdade de decidir o que fazer. Além disso, a sociedade não pode, hipocritamente, se esconder do fato de que milhões de mulheres fazem o aborto clandestino neste país. Portanto, o aborto é uma questão de saúde pública e deve ser tratado como tal. E isso, claro, tem que ser acompanhado por um amplo programa de planejamento familiar.
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Um artigo...
Descriminalizar o aborto
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Por falar em deformação de opinião...
Não publiquei, por falta de tempo, um trecho da coluna do jornalista Janio de Freitas de terça-feira, na Folha, sobre como é a renovação de canais de TV e rádio nos EUA e na Europa. Mais de uma centena de emissoras são fechadas e não há nenhuma comoção por causa disso. Mas quem liga para essa informação quando a mídia brasileira quer fazer parecer um atentado contra a liberdade de expressão o fechamento da emissora de TV venezuelana. Abaixo o trecho do artigo:
Sem barulho
O jornalismo brasileiro faz ao mundo uma revelação fenomenal: se ainda sobrevive em aparência, há muito a democracia está extinta em países como Inglaterra, Canadá, México, Peru, Espanha e, mais ainda, EUA, para citar só alguns. Já que, segundo informa e ensina o jornalismo brasileiro, tevês e rádios livres para o que queiram são a medida da democracia e da legalidade, é forçoso concluir que aqueles países preferiram outros regimes. Uma pesquisa do jornalista chileno Ernesto Carmona verificou que em todos tem havido não renovação e cassações de canais. Só nos Estados Unidos ele encontrou 102 não renovações, em 141 extinções de tevês e rádios.Ernesto Carmona é presidente do Colegio de Periodistas de Chile, associação dos jornalistas chilenos.
Sem barulho
O jornalismo brasileiro faz ao mundo uma revelação fenomenal: se ainda sobrevive em aparência, há muito a democracia está extinta em países como Inglaterra, Canadá, México, Peru, Espanha e, mais ainda, EUA, para citar só alguns. Já que, segundo informa e ensina o jornalismo brasileiro, tevês e rádios livres para o que queiram são a medida da democracia e da legalidade, é forçoso concluir que aqueles países preferiram outros regimes. Uma pesquisa do jornalista chileno Ernesto Carmona verificou que em todos tem havido não renovação e cassações de canais. Só nos Estados Unidos ele encontrou 102 não renovações, em 141 extinções de tevês e rádios.Ernesto Carmona é presidente do Colegio de Periodistas de Chile, associação dos jornalistas chilenos.
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Deformação da opinião pública
Depois de escrever o post abaixo vi em menos de 24 horas alguns exemplos da desinformação que os meios de comunicação costumam fazer e que só corroboram a tese do raciocínio socrático de que temos que questionar sempre as informações que recebemos.
Caso 1 - Manchete de abertura do Jornal Nacional desta quinta-feira mostrava o caos nos aeroportos com pessoas fazendo manifestação no saguão e invadindo a pista. E nenhuma palavra sobre o motivo dos atrasos. Pelo tom parecia que estávamos novamente no meio de uma crise aérea. Só depois, assistindo à matéria, e lá pelo meio da reportagem, é que ficamos sabendo que o nevoeiro fechou os aeroportos de Guarulhos (SP) e de Buenos Aires, o que provocou atrasos nas saídas dos vôos. Uma situação metereológica a que qualquer aeroporto do mundo está sujeito. Mas quem liga para isso quando o tom é de campanha? É tome imagens de passageiros revoltados, discursos inflamados e a percepção de um governo incompetente que não consegue resolver a questão.
Cena 2 - Jornal O Globo de quinta-feira mostra fotos de pessoas envolvidas em "escândalos" no atual governo rodeando uma imagem do presidente Lula de costas. Mesmo que o presidente não tenha nada com os casos (muitos deles, como o do tal Vavá, não passaram de espuma...) e nem tenha sido envolvido diretamente, a mensagem é clara: Lula está cercado de "corruptos". Logo...E por que as organizações Globo estariam em campanha contra Lula? O jornalista Paulo Henrique Amorim apresenta uma sugestão de resposta em seu blog e mostra a página de O Globo com a (des)informação. Leia aqui.
Cena 3 - Manchete da Folha de São Paulo desta sexta-feira: Lula defende direito de Chávez fechar TV. Na linha fina (a linha que fica abaixo da manchete) : Presidente diz que não houve "violência" e que venezuelano pode se prejudicar ao criticar senado brasileiro. Reparem na aspas em violência. Por que enfatizar esta palavra como sendo do Lula? Para denotar que para ele não é uma violência fechar um meio de comunicação. Mas o fato, que está no texto, é que a violência a que ele se refere é que foi tudo feito dentro das regras democráticas e que é um direito do estado conceder ou não a renovação.
Enfim, como eu vivo dizendo neste blog, cuidado com as informações que recebemos. Usem o método socrático de questionamento. Só assim diminuímos o risco de sermos ludibriados como massa de manobra.
Caso 1 - Manchete de abertura do Jornal Nacional desta quinta-feira mostrava o caos nos aeroportos com pessoas fazendo manifestação no saguão e invadindo a pista. E nenhuma palavra sobre o motivo dos atrasos. Pelo tom parecia que estávamos novamente no meio de uma crise aérea. Só depois, assistindo à matéria, e lá pelo meio da reportagem, é que ficamos sabendo que o nevoeiro fechou os aeroportos de Guarulhos (SP) e de Buenos Aires, o que provocou atrasos nas saídas dos vôos. Uma situação metereológica a que qualquer aeroporto do mundo está sujeito. Mas quem liga para isso quando o tom é de campanha? É tome imagens de passageiros revoltados, discursos inflamados e a percepção de um governo incompetente que não consegue resolver a questão.
Cena 2 - Jornal O Globo de quinta-feira mostra fotos de pessoas envolvidas em "escândalos" no atual governo rodeando uma imagem do presidente Lula de costas. Mesmo que o presidente não tenha nada com os casos (muitos deles, como o do tal Vavá, não passaram de espuma...) e nem tenha sido envolvido diretamente, a mensagem é clara: Lula está cercado de "corruptos". Logo...E por que as organizações Globo estariam em campanha contra Lula? O jornalista Paulo Henrique Amorim apresenta uma sugestão de resposta em seu blog e mostra a página de O Globo com a (des)informação. Leia aqui.
Cena 3 - Manchete da Folha de São Paulo desta sexta-feira: Lula defende direito de Chávez fechar TV. Na linha fina (a linha que fica abaixo da manchete) : Presidente diz que não houve "violência" e que venezuelano pode se prejudicar ao criticar senado brasileiro. Reparem na aspas em violência. Por que enfatizar esta palavra como sendo do Lula? Para denotar que para ele não é uma violência fechar um meio de comunicação. Mas o fato, que está no texto, é que a violência a que ele se refere é que foi tudo feito dentro das regras democráticas e que é um direito do estado conceder ou não a renovação.
Enfim, como eu vivo dizendo neste blog, cuidado com as informações que recebemos. Usem o método socrático de questionamento. Só assim diminuímos o risco de sermos ludibriados como massa de manobra.
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quinta-feira, 7 de junho de 2007
O pensamento socrático
Vivemos em tempos midiáticos em que a percepção vale mais do que a razão. Há uma constante (de)formação da opinião pública a partir de depoimentos na imprensa de pessoas acima de qualquer suspeita. Personalidades que muitas vezes usam argumentos com a profundidade de um pires, mas que ao ser dita junto com outros, torna-se, na visão do cidadão desavisado, algo sensato e que deve ser seguido.
Por exemplo (prometo que não será o mote principal deste post), para a mídia e nossa elite econômica e política, Hugo Chávez é um ditador. Não importa que ele tenha sido eleito pelo voto direto e que tomou todas as decisões dentro de um ambiente reconhecidamente democrático. Isso não importa. O fato é que ele é um déspota e tudo o que ele representa ou faz tem que ser achincalhado. Isso faz com que a população comece a ter idéias preconcebidas e acabe aceitando a percepção negativa. Uma ou outra voz se levanta contra este raciocínio, mas são gotas no tsunami midiático.
Vocês que acompanham este blog sabem que estou afundado em leituras filosóficas. Pois bem. Comprei o livro de Allain Button, As consolações da Filosofia, que depois serviu de base para o documentário Filosofia para o dia-a-dia, já abordado neste blog. O primeiro capítulo trata do raciocínio socrático e como o pensamento comum de uma sociedade muitas vezes não passa por um exame banal de lógica.
A cada página que ia lendo percebia que muitas das coisas que vemos hoje, como o exemplo citado acima, cabem como uma luva no pensamento de Sócrates e o que ele tanto procurou revelar à sociedade ateniense. Claro que este tipo de questionamento lógico incomoda muita gente e destrói as percepções que parte da elite quer passar para o resto das pessoas. Justamente por causa disso, o filósofo grego foi acusado, julgado e condenado a morte...
Em homenagem a Sócrates, que nos empresta a frase Só sei que nada sei, reproduzo alguns trechos do livro de Botton para que vcs também tirem suas conclusões e reflitam sobre quais idéias, opiniões, conceitos tentam nos empurrar goela abaixo diariamente e como nos proteger desta lavagem cerebral.
"...mas não é apenas a hostilidade alheia que pode nos impedir de questionar o status quo. Nosso desejo de levantar dúvidas pode ser salpicado por uma sensação íntima de que as convenções sociais devem ter bases sólidas, mesmo se não sabemos discernir exatamente que bases seriam estas pelo fato de terem sido adotadas por tantas pessoas há tanto tempo. Parece implausível que a nossa sociedade esteja profundamente equivocada em suas crenças e, ao mesmo tempo, que seríamos os únicos a perceber este fato. Reprimimos nossas dúvidas e nos incorporamos ao rebanho porque não conseguimos nos imaginar pioneiros na tarefa de desvendar as verdades desconhecidas e dolorosas...
...Se evitamos questionar o status quo, é principalmente porque - à parte o clima e o tamanho das nossas cidades - associamos o que é popular com o que é certo. O filósofo descalço (Sócrates) levantava um número incontável de questões para determinar se o que era popular fazia ou não sentido...
...Outras pessoas podem estar erradas, mesmo quando ocupam posições importantes, mesmo quando estão advogando crenças adquiridas durante séculos por uma vasta maioria. E a razão é simples: estas pessoas não submeteram suas crenças ao crivo da lógica...Para ressaltar a peculiaridade de sua passividade (ao senso comum) comparou o ato de viver sem raciocinar de maneira sistemática à pratica de uma atividade como a olaria ou a confecção de sapatos sem que se adotem ou mesmo se conheçam as técnicas necessárias para tal. Ninguém jamais iria imaginar que um vaso ou um sapato bem-feitos poderiam resultar apenas da intuição; por que, então, supor que a tarefa mais complexa de se gerir a própria vida poderia ser executada sem qualquer reflexão contínua e sistemática sobre suas premissas e objetivos?
Talvez porque não acreditamos que o ato de gerir nossas vidas seja na realidade complicado. Determinadas atividades difíceis parecem muito difíceis vistas à distância, enquanto outras igualmente difíceis parecem muito fáceis. Ter concepções corretas sobre como viver recai na segunda categoria, fazer um vaso ou um sapato, na primeira...
...O método de Sócrates de examinar o senso comum é observável tanto nos primeiros diálogos de Platão quanto nos chamados diálogos da maturidade e, porque ele segue passos coerentes, pode sem injustiça ser apresentado na linguagem de um livro de receitas ou de um manual, e aplicado a qualquer conceito que alguém foi solicitado a aceitar ou se sente inclinado a contestar. A correção de uma afirmativa não pode, segundo sugere o método, ser determinado pelo fato de ser ou não aceita por uma maioria ou pelo fato de ser seguida há muito tempo por pessoas importantes. Uma afirmativa correta é aquela que não dá margem a ser racionalmente contestada. Uma afirmativa é verdadeira se não se pode ser invalidada. Se puder, não importa o número ou a posição social das pessoas que nela acreditam, ela deve ser falsa e nós estamos certos em duvidar dela."
Não acabou ainda. Voltarei ao nosso filósofo Sócrates em posts futuros.
Leia também os posts
Sêneca e a tranqüilidade da alma
Maus efeitos da riqueza
Pesquise no Buscapé preços de livros de Allain de Botton
Por exemplo (prometo que não será o mote principal deste post), para a mídia e nossa elite econômica e política, Hugo Chávez é um ditador. Não importa que ele tenha sido eleito pelo voto direto e que tomou todas as decisões dentro de um ambiente reconhecidamente democrático. Isso não importa. O fato é que ele é um déspota e tudo o que ele representa ou faz tem que ser achincalhado. Isso faz com que a população comece a ter idéias preconcebidas e acabe aceitando a percepção negativa. Uma ou outra voz se levanta contra este raciocínio, mas são gotas no tsunami midiático.
Vocês que acompanham este blog sabem que estou afundado em leituras filosóficas. Pois bem. Comprei o livro de Allain Button, As consolações da Filosofia, que depois serviu de base para o documentário Filosofia para o dia-a-dia, já abordado neste blog. O primeiro capítulo trata do raciocínio socrático e como o pensamento comum de uma sociedade muitas vezes não passa por um exame banal de lógica.
A cada página que ia lendo percebia que muitas das coisas que vemos hoje, como o exemplo citado acima, cabem como uma luva no pensamento de Sócrates e o que ele tanto procurou revelar à sociedade ateniense. Claro que este tipo de questionamento lógico incomoda muita gente e destrói as percepções que parte da elite quer passar para o resto das pessoas. Justamente por causa disso, o filósofo grego foi acusado, julgado e condenado a morte...
Em homenagem a Sócrates, que nos empresta a frase Só sei que nada sei, reproduzo alguns trechos do livro de Botton para que vcs também tirem suas conclusões e reflitam sobre quais idéias, opiniões, conceitos tentam nos empurrar goela abaixo diariamente e como nos proteger desta lavagem cerebral.
"...mas não é apenas a hostilidade alheia que pode nos impedir de questionar o status quo. Nosso desejo de levantar dúvidas pode ser salpicado por uma sensação íntima de que as convenções sociais devem ter bases sólidas, mesmo se não sabemos discernir exatamente que bases seriam estas pelo fato de terem sido adotadas por tantas pessoas há tanto tempo. Parece implausível que a nossa sociedade esteja profundamente equivocada em suas crenças e, ao mesmo tempo, que seríamos os únicos a perceber este fato. Reprimimos nossas dúvidas e nos incorporamos ao rebanho porque não conseguimos nos imaginar pioneiros na tarefa de desvendar as verdades desconhecidas e dolorosas...
...Se evitamos questionar o status quo, é principalmente porque - à parte o clima e o tamanho das nossas cidades - associamos o que é popular com o que é certo. O filósofo descalço (Sócrates) levantava um número incontável de questões para determinar se o que era popular fazia ou não sentido...
...Outras pessoas podem estar erradas, mesmo quando ocupam posições importantes, mesmo quando estão advogando crenças adquiridas durante séculos por uma vasta maioria. E a razão é simples: estas pessoas não submeteram suas crenças ao crivo da lógica...Para ressaltar a peculiaridade de sua passividade (ao senso comum) comparou o ato de viver sem raciocinar de maneira sistemática à pratica de uma atividade como a olaria ou a confecção de sapatos sem que se adotem ou mesmo se conheçam as técnicas necessárias para tal. Ninguém jamais iria imaginar que um vaso ou um sapato bem-feitos poderiam resultar apenas da intuição; por que, então, supor que a tarefa mais complexa de se gerir a própria vida poderia ser executada sem qualquer reflexão contínua e sistemática sobre suas premissas e objetivos?
Talvez porque não acreditamos que o ato de gerir nossas vidas seja na realidade complicado. Determinadas atividades difíceis parecem muito difíceis vistas à distância, enquanto outras igualmente difíceis parecem muito fáceis. Ter concepções corretas sobre como viver recai na segunda categoria, fazer um vaso ou um sapato, na primeira...
...O método de Sócrates de examinar o senso comum é observável tanto nos primeiros diálogos de Platão quanto nos chamados diálogos da maturidade e, porque ele segue passos coerentes, pode sem injustiça ser apresentado na linguagem de um livro de receitas ou de um manual, e aplicado a qualquer conceito que alguém foi solicitado a aceitar ou se sente inclinado a contestar. A correção de uma afirmativa não pode, segundo sugere o método, ser determinado pelo fato de ser ou não aceita por uma maioria ou pelo fato de ser seguida há muito tempo por pessoas importantes. Uma afirmativa correta é aquela que não dá margem a ser racionalmente contestada. Uma afirmativa é verdadeira se não se pode ser invalidada. Se puder, não importa o número ou a posição social das pessoas que nela acreditam, ela deve ser falsa e nós estamos certos em duvidar dela."
Não acabou ainda. Voltarei ao nosso filósofo Sócrates em posts futuros.
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terça-feira, 5 de junho de 2007
Lei da Atração 3
Conforme prometido, cá estou com minha modesta análise do livro A Lei da Atração - o segredo colocado em prática, de Michael J. Losier, e publicado pela Nova Fronteira. Livro no estilo manual, com linguagem direta e abordagem bem acessível. Os conceitos apresentados são os mesmos citados em outros livros e no filme. Por exemplo, para conseguir que a Lei da Atração funcione vc precisa seguir os três passos: peça, acredite e receba. Também menciona o poder da vibração, que já vimos em posts anteriores e até recomendo uma releitura do Tudo Vibra. Até aí, concordo, nada demais.
A graça do livro, no entanto, está em duas sacadas do autor e que minimizam (mas não evitam totalmente) algumas das "pegadinhas" já abordadaas neste espaço (veja links abaixo). Uma delas (e a principal) é que para a lei dar certo vc precisa acreditar muuiiito. Não pode dar margem para dúvidas porque atrai a tal vibração negativa. Vc não pode acreditar só 99,99%. Tem que ser 100% ou nada! Bom, e como conseguir isso? Aí vem a idéia matuta do gringo: dizer na fase do acredite que vc está em processo de obter um desejo. Algo assim como "estou em processo de conseguir um sítio na Serra da Mantiqueira". Para o autor, com esta construção da frase não há possibilidade de dúvida. Precisa só ver se a lei da atração é tão tolinha para cair nessa...
A segunda idéia interessante, na verdade técnicas para reprogramar sua vibração, deve ser aplicada no momento do receba, aliás o ponto crítico em todo o processo da Lei da Atração e campeã em "pegadinhas". Terreno altamente pantanoso. Na verdade o receba nada mais é do que vc mesmo permitir que a Lei da Atração lhe dê o que foi pedido. E vc só permite se estiver vibrando totalmente de maneira positiva. Com 1% de vibração negativa já é suficiente para impedir a concretização do desejo. Loucura, não?
Não é por acaso que o autor gasta boa parte do livro para apresentar algumas técnicas que ajudam a espantar qualquer dúvida de quem está praticando a Lei da Atração. É uma variação da primeira sacada, mas muito mais radical. Losier oferece no livro várias opções do que ele denomina de "ferramentas" e que servem para fulminar todo ceticismo e a vibração negativa. Entre as idéias apresentadas estão:
1)Afirmações que permitem: vc quer fazer algo mas acha que não é capaz? Bom, outras pessoas como vc já conseguiram? Então vc também é capaz! Escreva isso!!
2) Celebre a evidência da prova: conseguiu uma pequena prova da Lei da Atração? Comemore.
3) Registre a prova da Lei da Atração: coloque no papel cada manifestação que vc suponha ser resultado da Lei da Atração.
4) Aprecie e seja grato: seja o que for - encontro com amigos, passear em um dia ensolarado. Isso aumenta a sua vibração positiva e diminui o espaço para as dúvidas.
E por aí vão se sucedendo as ferramentas. Sempre com foco no fim das dúvidas, a grande maldição para que a Lei da Atração funcione. Enfim, por 23 paus (pesquise porque tem livrarias cobrando mais pelo livro) não é um investimento que um leitor ávido por saber mais sobre O Segredo vá pensar duas vezes em gastar. E nem precisa ler o livro antes para dirimir qualquer questionamento na hora de colocar a mão no bolso. De qualquer forma, cada vez mais me convenço que a tal Lei da Atração funciona muito bem é para estes autores...O receba deles é pontual!
Leia outros posts sobre este assunto:
Lei da Atração - primeira parte
Lei da Atração 2
Você acredita na Lei da Atração?
Alimente os Grandes Sonhos
Lei da Atração na prática
Ainda O Segredo - sobre a reportagem na Veja
Tudo vibra
O Caibalion
Pesquise no Buscapé preços dos livros A Lei Atração - O Segredo colocado em prática, O Segredo e Peça e Será atendido
A graça do livro, no entanto, está em duas sacadas do autor e que minimizam (mas não evitam totalmente) algumas das "pegadinhas" já abordadaas neste espaço (veja links abaixo). Uma delas (e a principal) é que para a lei dar certo vc precisa acreditar muuiiito. Não pode dar margem para dúvidas porque atrai a tal vibração negativa. Vc não pode acreditar só 99,99%. Tem que ser 100% ou nada! Bom, e como conseguir isso? Aí vem a idéia matuta do gringo: dizer na fase do acredite que vc está em processo de obter um desejo. Algo assim como "estou em processo de conseguir um sítio na Serra da Mantiqueira". Para o autor, com esta construção da frase não há possibilidade de dúvida. Precisa só ver se a lei da atração é tão tolinha para cair nessa...
A segunda idéia interessante, na verdade técnicas para reprogramar sua vibração, deve ser aplicada no momento do receba, aliás o ponto crítico em todo o processo da Lei da Atração e campeã em "pegadinhas". Terreno altamente pantanoso. Na verdade o receba nada mais é do que vc mesmo permitir que a Lei da Atração lhe dê o que foi pedido. E vc só permite se estiver vibrando totalmente de maneira positiva. Com 1% de vibração negativa já é suficiente para impedir a concretização do desejo. Loucura, não?
Não é por acaso que o autor gasta boa parte do livro para apresentar algumas técnicas que ajudam a espantar qualquer dúvida de quem está praticando a Lei da Atração. É uma variação da primeira sacada, mas muito mais radical. Losier oferece no livro várias opções do que ele denomina de "ferramentas" e que servem para fulminar todo ceticismo e a vibração negativa. Entre as idéias apresentadas estão:
1)Afirmações que permitem: vc quer fazer algo mas acha que não é capaz? Bom, outras pessoas como vc já conseguiram? Então vc também é capaz! Escreva isso!!
2) Celebre a evidência da prova: conseguiu uma pequena prova da Lei da Atração? Comemore.
3) Registre a prova da Lei da Atração: coloque no papel cada manifestação que vc suponha ser resultado da Lei da Atração.
4) Aprecie e seja grato: seja o que for - encontro com amigos, passear em um dia ensolarado. Isso aumenta a sua vibração positiva e diminui o espaço para as dúvidas.
E por aí vão se sucedendo as ferramentas. Sempre com foco no fim das dúvidas, a grande maldição para que a Lei da Atração funcione. Enfim, por 23 paus (pesquise porque tem livrarias cobrando mais pelo livro) não é um investimento que um leitor ávido por saber mais sobre O Segredo vá pensar duas vezes em gastar. E nem precisa ler o livro antes para dirimir qualquer questionamento na hora de colocar a mão no bolso. De qualquer forma, cada vez mais me convenço que a tal Lei da Atração funciona muito bem é para estes autores...O receba deles é pontual!
Leia outros posts sobre este assunto:
Lei da Atração - primeira parte
Lei da Atração 2
Você acredita na Lei da Atração?
Alimente os Grandes Sonhos
Lei da Atração na prática
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segunda-feira, 4 de junho de 2007
Maus efeitos da riqueza
Sêneca continua me surpreendendo. No livro "Da tranqüilidade da alma" ele aborda os efeitos nocivos da riqueza e da ostentação frívola (alguma semelhança com nossos dias consumistas de hoje?). Alguns trechos do capítulo "Maus efeitos da riqueza":
" Passemos ao domínio das riquezas, principal fonte das misérias dos homens, pois, comparando-se todos os nossos outros perigos, prazeres, doenças, temores, desgostos, sofrimentos e preocupações de toda espécie, com os males que nascem do dinheiro, será deste lado que muito claramente penderá a balança....
...O dinheiro se apega tão intimamente à alma, que não se pode arrancá-lo sem dor. É, aliás, eu o repito, mais suportável e mais simples nada adquirir do que perder alguma coisa. Daí vem que se vê um ar mais alegre nas pessoas que a fortuna jamais visitou do que naquelas que ela traiu...Limitemos ao menos a extensão de nossos bens, a fim de estarmos menos expostos às injúrias da fortuna...Para o dinheiro, a verdadeira medida consiste em não cair na pobreza, mas aproximar-se dela o mais possível...
Logo, esta limitação nos será puramente agradável, se tomarmos previamente o gosto pela economia, sem o qual as maiores fortunas são ainda insuficientes e mesmo as mais modestas se prestarão ao desperdício...Habituemo-nos a ter o luxo à distância e a fazer uso da utilidade dos objetos e não da sua sedução exterior (grifo meu). Comamos para matar a fome, bebamos para apagar a sede e reduzamos ao necessário a satisfação de nossos desejos. Aprendamos a andar com nossas pernas, a regular nosso vestuário e nossa alimentação, não sobre a moda do dia, mas sobre o exemplo dos antigos.
Aprendamos a cultivar em nós a sobriedade e a moderar nosso amor ao fausto; a reprimir a vaidade, a dominar nossas cóleras, a considerar a pobreza com um olhar calmo, apesar de todos aqueles que acharão aviltante satisfazer tão modestamente a seus desejo naturais. A não ter nas mãos, por assim dizer, as ambições desenfreadas de uma alma sempre inclinada para o dia seguinte e a esperar a riqueza menos da sorte do que de nós mesmos.
...Tomemos, pois, o hábito de nos abstermos de espectadores quando ceamos...de não termos roupas a não ser para o uso que as criou e de nos alojarmos modestamente. Não é só nas corridas e nos torneios do circo, é também na arena da vida que é preciso saber curvar-se".
" Passemos ao domínio das riquezas, principal fonte das misérias dos homens, pois, comparando-se todos os nossos outros perigos, prazeres, doenças, temores, desgostos, sofrimentos e preocupações de toda espécie, com os males que nascem do dinheiro, será deste lado que muito claramente penderá a balança....
...O dinheiro se apega tão intimamente à alma, que não se pode arrancá-lo sem dor. É, aliás, eu o repito, mais suportável e mais simples nada adquirir do que perder alguma coisa. Daí vem que se vê um ar mais alegre nas pessoas que a fortuna jamais visitou do que naquelas que ela traiu...Limitemos ao menos a extensão de nossos bens, a fim de estarmos menos expostos às injúrias da fortuna...Para o dinheiro, a verdadeira medida consiste em não cair na pobreza, mas aproximar-se dela o mais possível...
Logo, esta limitação nos será puramente agradável, se tomarmos previamente o gosto pela economia, sem o qual as maiores fortunas são ainda insuficientes e mesmo as mais modestas se prestarão ao desperdício...Habituemo-nos a ter o luxo à distância e a fazer uso da utilidade dos objetos e não da sua sedução exterior (grifo meu). Comamos para matar a fome, bebamos para apagar a sede e reduzamos ao necessário a satisfação de nossos desejos. Aprendamos a andar com nossas pernas, a regular nosso vestuário e nossa alimentação, não sobre a moda do dia, mas sobre o exemplo dos antigos.
Aprendamos a cultivar em nós a sobriedade e a moderar nosso amor ao fausto; a reprimir a vaidade, a dominar nossas cóleras, a considerar a pobreza com um olhar calmo, apesar de todos aqueles que acharão aviltante satisfazer tão modestamente a seus desejo naturais. A não ter nas mãos, por assim dizer, as ambições desenfreadas de uma alma sempre inclinada para o dia seguinte e a esperar a riqueza menos da sorte do que de nós mesmos.
...Tomemos, pois, o hábito de nos abstermos de espectadores quando ceamos...de não termos roupas a não ser para o uso que as criou e de nos alojarmos modestamente. Não é só nas corridas e nos torneios do circo, é também na arena da vida que é preciso saber curvar-se".
Comentário final deste escriba: neste período em que vivemos, em que o consumo responsável e a tal da sustentabilidade se colocam como prementes, não deixa de ser irônico que estas palavras de Sêneca, escritas há milhares de anos, caibam como uma luva nos dias de hoje.
Leia também os posts
Sêneca e a tranqüilidade da alma
Filosofia para o dia-a-dia
Pesquise no Buscapé preços dos livros de Sêneca e de filosofia
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domingo, 3 de junho de 2007
Ainda Chávez
Artigo do Jornalista Janio de Freitas na Folha deste domingo mata a pau a (falsa) questão que envolve a polêmica do fechamento da emissora venezuelana (golpista) RCTV. Diz ele:
"...Sem precisar do óbvio, do acaso e de elaborações é a postura dos meios de comunicação brasileiros em relação a tudo que diga respeito à sua área: prevalece o corporativismo, sem equivalente exceto o dos jornalistas. A dúvida é se o corporativismo dos militares ainda chega a tanto ou vem logo abaixo.Canais de rádio e TV são propriedades das respectivas nações. Sua exploração por particulares é feita pelo regime de concessão. Não sendo resultado de compra ou doação recebida, a concessão está sujeita, mundo afora, às renovações. É o que a Constituição brasileira determina nos cinco artigos do seu quinto capítulo (rádios a cada dez anos, tevês a cada 15).
A necessidade de renovação contém, implicitamente, a possibilidade da não renovação. Mas os princípios constitucionais brasileiros não só a mencionam com explicitude, como vão mais longe: estabelecem a possibilidade de cancelamento, de cassação do canal sem depender de negar renovação.O ato administrativo praticado na Venezuela está de acordo, portanto, com o fixado pela própria Constituição brasileira.
As razões de Hugo Chávez contra uma TV documentadamente comprometida com um golpe de estado compõem outra ordem de discussão, política e ideológica, mas não a de agressão ou violação da democracia. O funcionamento de tevês não atesta, por si, a existência de democracia, assim como a liberdade de expressão não lhes dá o direito de fazerem do canal, concedido em nome do público, o uso que quiserem..."
Portanto, sempre analisem com cuidado o que a imprensa brasileira, principalmente as TVs e alguns órgãos conservadores, como Veja e Exame, costumam veicular sobre a Venezuela. Há muita desinformação causada de propósito para "deformar" a opinião pública e criar uma imagem negativa de Chávez e de suas atitudes, muito embora estejam dentro da lei e com respeito às normas democráticas.
Quem quiser ir mais fundo nesta questão deve ler a reportagem principal da revista Carta Capital desta semana. Texto impecável do jornalista Antonio Luiz M.C. Costa, sob o título Nem Estado nem Mercado, detalha com precisão e imparcialidade todos os aspectos envolvidos na questão. Agora fica aqui só uma questão final: por que o Senado brasileiro tinha que se meter em política internacional? Não tem o Itamaraty para isso?
Leia sobre este assunto o post A Campanha da Imprensa
"...Sem precisar do óbvio, do acaso e de elaborações é a postura dos meios de comunicação brasileiros em relação a tudo que diga respeito à sua área: prevalece o corporativismo, sem equivalente exceto o dos jornalistas. A dúvida é se o corporativismo dos militares ainda chega a tanto ou vem logo abaixo.Canais de rádio e TV são propriedades das respectivas nações. Sua exploração por particulares é feita pelo regime de concessão. Não sendo resultado de compra ou doação recebida, a concessão está sujeita, mundo afora, às renovações. É o que a Constituição brasileira determina nos cinco artigos do seu quinto capítulo (rádios a cada dez anos, tevês a cada 15).
A necessidade de renovação contém, implicitamente, a possibilidade da não renovação. Mas os princípios constitucionais brasileiros não só a mencionam com explicitude, como vão mais longe: estabelecem a possibilidade de cancelamento, de cassação do canal sem depender de negar renovação.O ato administrativo praticado na Venezuela está de acordo, portanto, com o fixado pela própria Constituição brasileira.
As razões de Hugo Chávez contra uma TV documentadamente comprometida com um golpe de estado compõem outra ordem de discussão, política e ideológica, mas não a de agressão ou violação da democracia. O funcionamento de tevês não atesta, por si, a existência de democracia, assim como a liberdade de expressão não lhes dá o direito de fazerem do canal, concedido em nome do público, o uso que quiserem..."
Portanto, sempre analisem com cuidado o que a imprensa brasileira, principalmente as TVs e alguns órgãos conservadores, como Veja e Exame, costumam veicular sobre a Venezuela. Há muita desinformação causada de propósito para "deformar" a opinião pública e criar uma imagem negativa de Chávez e de suas atitudes, muito embora estejam dentro da lei e com respeito às normas democráticas.
Quem quiser ir mais fundo nesta questão deve ler a reportagem principal da revista Carta Capital desta semana. Texto impecável do jornalista Antonio Luiz M.C. Costa, sob o título Nem Estado nem Mercado, detalha com precisão e imparcialidade todos os aspectos envolvidos na questão. Agora fica aqui só uma questão final: por que o Senado brasileiro tinha que se meter em política internacional? Não tem o Itamaraty para isso?
Leia sobre este assunto o post A Campanha da Imprensa
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sábado, 2 de junho de 2007
Gabeira, Congresso e mudanças
É curioso como as pessoas mudam com o tempo. Não que isso seja ruim necessariamente, afinal pode denotar uma evolução. Falo isso porque esta semana fui assistir a uma palestra do deputado Fernando Gabeira a um grupo pequeno aqui em São Paulo. Gabeira sempre foi um personagem transgressor. Na época da ditadura fez parte do grupo que seqüestrou o embaixador americano no Brasil. Depois, na volta do exílio, brindava os fotógrafos com sua sunga de tricô na badalada orla carioca. Defendeu a liberação da maconha, o casamento entre homossexuais e luta pela preservação do meio ambiente. Sempre foi considerado um outsider e até um personagem folclórico por parte da imprensa.
Agora, já no alto dos seus 66 anos e, vejam só, um queridinho da mídia, ele está um pouco mais conservador. Não concorda com a invasão na USP (acha que as negociações têm que ser feitas dentro dos ritos democráticos. E isso dito por quem sequestrou um embaixador americano!), defende uma ação mais enérgica por parte do governo para evitar o que ocorreu na Usina de Tucuruí, acha um contrasenso a greve no Ibama ("param para defender o Ibama e o meio ambiente mas suspendem a fiscalização?") e até se posiciona contra a liberação das drogas no Brasil!.
Algumas destas opiniões podem ser lidas com mais profundidade no site da revista IstoÉ que traz uma entrevista com o deputado. De qualquer forma, a análise política dele me parece mais interessante. Há um grupo numeroso no Congresso que, mesmo cercado e fiscalizado pela sociedade, mídia e justiça, tenta se proteger a todo custo, manter o status quo e as práticas de poder usuais (como a liberação de emendas). São pessoas e métodos de fazer política ultrapassados, que estão com os dias contados e defasados na época e no tempo. O deputado acredita que é o início de uma revolução. Eu tenho minhas dúvidas. Tudo no Brasil tem que ser muito lento e gradual e, quando muda, é para nada mudar. Quem sabe não estou sendo muito cético e preciso reciclar minhas opiniões assim como fez o deputado?
Agora, já no alto dos seus 66 anos e, vejam só, um queridinho da mídia, ele está um pouco mais conservador. Não concorda com a invasão na USP (acha que as negociações têm que ser feitas dentro dos ritos democráticos. E isso dito por quem sequestrou um embaixador americano!), defende uma ação mais enérgica por parte do governo para evitar o que ocorreu na Usina de Tucuruí, acha um contrasenso a greve no Ibama ("param para defender o Ibama e o meio ambiente mas suspendem a fiscalização?") e até se posiciona contra a liberação das drogas no Brasil!.
Algumas destas opiniões podem ser lidas com mais profundidade no site da revista IstoÉ que traz uma entrevista com o deputado. De qualquer forma, a análise política dele me parece mais interessante. Há um grupo numeroso no Congresso que, mesmo cercado e fiscalizado pela sociedade, mídia e justiça, tenta se proteger a todo custo, manter o status quo e as práticas de poder usuais (como a liberação de emendas). São pessoas e métodos de fazer política ultrapassados, que estão com os dias contados e defasados na época e no tempo. O deputado acredita que é o início de uma revolução. Eu tenho minhas dúvidas. Tudo no Brasil tem que ser muito lento e gradual e, quando muda, é para nada mudar. Quem sabe não estou sendo muito cético e preciso reciclar minhas opiniões assim como fez o deputado?
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Sêneca e a tranqüilidade da alma
Depois de ver o DVD sobre filosofia da revista Vida Simples (ver post) acabei me interessando por Sêneca, um dos personagens do documentário. Resgatei entre meus livros a coleção Os Pensadores, da Abril Cultural, e lá estava a obra do filósofo nascido na Espanha e um dos mentores de Nero (depois, claro, convidado ao suicídio pelo déspota). O capítulo dedicado a Sêneca é Da Tranqüilidade da Alma, considerado um dos melhores do autor. Ele procura mostrar como evitar a angústia, a irritação e outros percalços que costumam nos tirar do sério. Mesmo tendo sido escrito há centenas de anos, o livro é muito atual e ainda nos convida a reflexão.
Por exemplo, no tópico Fugir a Agitação estéril, Sêneca nos diz:
" ...A primeira coisa a evitar é desperdiçar nosso esforço ou em objetos inúteis ou de maneira inútil: quero dizer. imaginar ambições irrealizáveis ou reparar um pouco tarde, uma vez satisfeitos nossos desejos, que nos esforçamos sem proveito. Em outras palavras, evitemos de um lado os esforços estéreis e sem resultado, e de outro lado os resultados desproporcionados ao esforço. Pois é quase certo que nosso humor se entristeça, seja depois de um insucesso, seja depois de um sucesso do qual nos temos de envergonhar...
...Este é também o pensamento de Demócrito (filósofo grego), quando ele começa nestes termos:
Quem quiser viver com alma tranqüila não deve ter muitas ocupações: nem de ordem particular nem de ordem pública. Trata-se aqui naturalmente de ocupações inúteis, pois, desde que elas são necessárias, devemos, tanto particulares como públicas, ter não somente muitas, mas inúmeras; ao contrário, quando nenhum dever imperioso nos ordena, devemos saber reprimir nossa atividade. Pois quem multiplica suas ações se expõe a cada instante à sorte. Ora, o mais certo é provocá-la o menos possível, mas pensar nela sem cessar, sem jamais confiar na sua constância...
Eis que isto nos leva a dizer que nada acontece ao sábio contra sua expectativa: não o subtraímos das desgraças humanas, mas sim dos vícios humanos; e todas as coisas lhe sucedem não conforme seus desejos, mas conforme suas previsões. Ora, o que ele prevê, antes de tudo, é que os obstáculos podem sempre opor-se aos seus projetos. Não é, pois, evidente que o pesar causado por uma decepção é bem menos sensível quando não se prometeu antecipadamente o sucesso com segurança?"
Voltarei a Sêneca em outros posts.
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Por exemplo, no tópico Fugir a Agitação estéril, Sêneca nos diz:
" ...A primeira coisa a evitar é desperdiçar nosso esforço ou em objetos inúteis ou de maneira inútil: quero dizer. imaginar ambições irrealizáveis ou reparar um pouco tarde, uma vez satisfeitos nossos desejos, que nos esforçamos sem proveito. Em outras palavras, evitemos de um lado os esforços estéreis e sem resultado, e de outro lado os resultados desproporcionados ao esforço. Pois é quase certo que nosso humor se entristeça, seja depois de um insucesso, seja depois de um sucesso do qual nos temos de envergonhar...
...Este é também o pensamento de Demócrito (filósofo grego), quando ele começa nestes termos:
Quem quiser viver com alma tranqüila não deve ter muitas ocupações: nem de ordem particular nem de ordem pública. Trata-se aqui naturalmente de ocupações inúteis, pois, desde que elas são necessárias, devemos, tanto particulares como públicas, ter não somente muitas, mas inúmeras; ao contrário, quando nenhum dever imperioso nos ordena, devemos saber reprimir nossa atividade. Pois quem multiplica suas ações se expõe a cada instante à sorte. Ora, o mais certo é provocá-la o menos possível, mas pensar nela sem cessar, sem jamais confiar na sua constância...
Eis que isto nos leva a dizer que nada acontece ao sábio contra sua expectativa: não o subtraímos das desgraças humanas, mas sim dos vícios humanos; e todas as coisas lhe sucedem não conforme seus desejos, mas conforme suas previsões. Ora, o que ele prevê, antes de tudo, é que os obstáculos podem sempre opor-se aos seus projetos. Não é, pois, evidente que o pesar causado por uma decepção é bem menos sensível quando não se prometeu antecipadamente o sucesso com segurança?"
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