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quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Livro revela lado humano e menos mítico de Kardec


Biografia mostra os dilemas e angústias do codificador do espiritismo
 durante o trabalho de revelar a nova doutrina ao mundo

A história de Allan Kardec, francês que há 156 anos colocou no papel as instruções dos espíritos e organizou a doutrina espírita, merecia ser resgatada e contada com uma roupagem mais moderna. O jornalista Marcel Souto Maior estava com esta ideia na cabeça desde que escreveu As Vidas de Chico Xavier, que posteriormente serviu como base para o filme a respeito do mítico médium mineiro.

A tarefa era não só apresentar este francês nascido em Lyon, em 3 de outubro de 1804, mas desvendar o homem por trás do mito. Contar, prioritariamente, o intenso período de 13 anos em que Kardec, um cético assim como Marcel, compreendeu a importância da comunicação dos espíritos, iniciou o trabalho de codificação que resultou em cinco livros e arregaçou as mangas para consolidar e defender a recém-nascida doutrina.

Graças a isso, o perfil que emerge de Kardec, a Biografia é o de um homem com angústias e dilemas, centralizador e envolvido em desgastantes embates.

- Queria entender a transformação do professor cético a missionário de campanha. O que deu a ele tanta certeza sobre a existência e influência dos espíritos? A biografia é a história desta conversão. Uma saga pontuada por altos e baixos, com razão e emoção, surpresas e decepções, fraudes e revelações”, explicou o jornalista à imprensa no lançamento da obra.

A biografia aponta ainda que, assim como o famoso médium brasileiro, o precursor do espiritismo teve seu tempo totalmente tomado pelas demandas vindas do outro lado do véu. Os benfeitores espirituais não brincam em serviço e exigem dedicação total de seus parceiros encarnados.

Mas pelo menos os amigos no invisível são sinceros e avisam antes o tamanho da missão de cada um dos escolhidos.

- Caberá a você organizar e divulgar uma nova doutrina, capaz de revolucionar o pensamento científico, filosófico e religioso. Não esqueças que podes triunfar, como pode falir. Neste último caso, outro te substituirá...Previno-te que a tua missão é rude e não vai bastar publicar alguns livros e ir para casa. É necessário que te mostres no conflito, esclareceu o Espírito da Verdade, o mentor que iria acompanhar e auxiliar Kardec na longa caminhada em direção à nova doutrina.

Da mesma forma como Chico, Kardec topou o desafio. Em 1856, aos 54 anos, o professor  Hippolyte Léon Denizard Rivail iniciava a jornada de transformação que o levaria a se tornar Allan Kardec.
Pelas páginas escritas por Marcel, as mesas girantes, os diversos e controvertidos espetáculos mediúnicos na época, as irmãs Fox e os casos de materialização ganham vida. O leitor é transportado para aquele efervescente meio do século 19. Percebe ainda como a manifestação dos espíritos era assunto popular na sociedade francesa.

No entanto, o que para muitos era apenas diversão, para Kardec aquelas ações estranhas e, de certo modo, incompreensíveis, sugeriram algo a mais:

- Todo efeito tem uma causa. Todo efeito inteligente tem uma causa inteligente. O poder da causa corresponde à grandeza do efeito, analisava Rivail após observar com espanto as comunicações dos espíritos por meio das mesas girantes e das pancadas que respondiam às perguntas dos encarnados.

A biografia acompanha as conversas iniciais de Kardec com os espíritos.  Apresenta quem foram as primeiras médiuns que ajudaram o professor no contato com a espiritualidade, já que o codificador não possuía esta habilidade mediúnica.

No livro, a história é contatada de forma linear e objetiva, sem ser laudatória. Marcel mostra com muitas informações recolhidas de suas pesquisas e quatro viagens a Paris as angústias e temores de Kardec pelo tamanho e complexidade da tarefa que tinha pela frente.

Um dos medos do francês era ser enganado pelos espíritos. Daí a obsessão de fazer a diversos médiuns e espíritos as mesmas perguntas e garimpar a concordância das respostas. Afinal, para ele, era melhor rejeitar 10 verdades a publicar uma mentira.

- Observar, comparar e julgar, essa a regra que constantemente segui, dizia o racional Rivail.

Além de apresentar o Espírito da Verdade, mas sem revelar sua identidade, o autor da biografia faz uma interessante contextualização das outras entidades que colaboraram com Kardec, como São Luis e Erasto, de importantes médiuns, como a jovem Ermance Dufaux, e de personalidades da época que também mantinham seus contatos com o além, como o escritor Victor Hugo.

A biografia traz ainda o lado centralizador e obsessivo de Kardec. Temeroso em colocar a recém-nascida doutrina em perigo, ele decidia sozinho não só o que iria publicar nos livros, mas também como a sociedade espírita fundada por ele deveria agir. Dentro do mesmo princípio, ele mesmo era quem respondia as polêmicas surgidas, editava praticamente sozinho a Revista Espírita e ainda encontrava tempo para despachar a volumosa correspondência.

Justamente por ser um controlador nato, Kardec temia pelo futuro da doutrina quando desencarnasse. Marcel aponta as preocupações do codificador em saber quem seria o seu sucessor. Os espíritos, contudo, não revelaram o nome. Apenas diziam que esta pessoa já existia.

Marcel resolveu também criar este suspense no leitor e não menciona em nenhum momento a obra de Léon Denis, outro francês e que foi a grande referência à doutrina espírita após o falecimento de Kardec, ocorrido em 31 de março de 1869. Com sua oratória envolvente e livros que explicavam de forma didática o espiritismo, Denis consolidou os princípios da doutrina e a duras penas unificou o movimento.

Curiosamente, um mês depois que Denis desencarnou, em 12 de abril de 1927, Chico Xavier, aos 17 anos, fazia o primeiro contato com o espiritismo. Em junho, ele fundava o centro espírita Luiz Gonzaga, em Pedro Leopoldo, e, em 8 de julho, o médium mineiro participava de sua primeira psicografia. Enquanto a doutrina ganhava alento no Brasil, perdia força e ímpeto na França.

Apesar de não expor estes fatos no texto, Marcel traz outros casos curiosos, como a revolta das primeiras médiuns que levou ao rompimento com Kardec por não terem os nomes publicados no Livro dos Espíritos. Ilustra ainda o surgimento de cada um dos exemplares do Pentateuco espírita e detalha as diversas polêmicas em que Kardec e o espiritismo estiveram envolvidos na época. Uma história envolvente e que em breve deverá também ser atração nos cinemas.

Ficha técnica

Livro: Kardec, a Biografia
Autor: Marcel Souto Maior
Editora: Record
Número de páginas: 322

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

A difícil arte de fazer estrelas trabalharem em equipe


Não deve ser fácil ter um monte de estrelas na equipe e não ver o time funcionar na partida. Mike Brown, que até o início de novembro era o técnico do Los Angeles Lakers, que o diga. Uma dos principais franquias do basquete americano teve um dos inícios de temporada mais desastrosos da história. Venceu apenas uma partida em 13 disputadas entre a pré-temporada e o início do campeonato. Como resultado, e lembrando um pouco a realidade no futebol brasileiro, o técnico caiu.

E caiu porque, segundo os críticos, não teria conseguido montar uma equipe competitiva, apesar de contar com veteranos como Kobe Bryant e Steve Nash ou estrelas como o espanhol Paul Gasol e o recém-contratado Dwight Howard. No papel, um timaço. Em quadra, saco de pancada.

Misturar no caldeirão de uma equipe um monte de estrelas não necessariamente transforma o time em um supercampeão. Que o diga o Real Madrid quando iniciou a temerária jornada dos Galacticos. No início dos anos 2000, contratou Zinedine Zidane, Ronaldo, Figo, Roberto Carlos e Beckham. E os resultados foram pífios. E não adiantou trocar de técnico.

No Brasil, tivemos uma experiência parecida. Em 1995 o Flamengo apostou no que se chamou na época de o melhor ataque do mundo.  Contratou Romário (que havia sido campeão pelo Brasil na Copa de 94), Sávio (a grande revelação na época) e Edmundo (no auge da carreira). Na prática, funcionou? Não. Outro fiasco. E a equipe só veria um título em 96, o Estadual do Rio de Janeiro, e já sem contar com Edmundo.

Óbvio que em cada caso mencionado existem várias explicações possíveis para os maus resultados.  Mas acredito que existe um denominador comum em todas elas. O Ego. Saber lidar com esta característica na personalidade de cada um de nós é uma arte. E são poucos os líderes que conseguem tirar o máximo proveito de suas estrelas.

Com o Ego fora de controle costumam vir todas aquelas emoções que os espiritualistas e filósofos tentam há séculos domesticar no ser humano: a inveja, a vaidade, a raiva, o ciúme, a mágoa, o despeito, o orgulho, a ansiedade... Enfim, um Eu fora da jaula e sem limites. Imagine essas características em diferentes gradações entre os atletas de uma equipe.  Para domar este quadro, você não precisa de um técnico e sim de psicólogo.

Talvez esta seja a resposta para um case de sucesso. Um não, dois. Phil Jackson é um dos mais premiados treinadores de basquete dos Estados Unidos.  Foi campeão seis vezes pelo Chicago Bulls, na época de Michael Jordan, Scott Pippen e Dennis Rodman, e outras cinco com o Los Angeles Lakers, de Shaquille O´Neal e Kobe Bryant .

Budista, adepto da meditação e com cursos de psicologia na bagagem, Jackson conseguiu tirar o máximo das equipes que dirigiu. E convenhamos que não deve ter sido  fácil fazer o então bad boy Dennis Rodman jogar em equipe com o Chicago Bulls. Na prática, ele fazia os jogadores meditarem antes dos treinos e, no dia a dia, repetia para eles, como um mantra, frases como “O poder do nós é mais poderoso que o do Eu”. A ideia era esvaziar a mente das estrelas, acalmá-las e fazê-las jogar como equipe.

Com o sucesso, Jackson esmiuçou esta sua técnica em vários livros. Um deles chegou a ser editado no Brasil com o nome de Cestas Sagradas.  Em um trecho ele explica que o que ‘contamina a mente é o nosso desejo de conseguir que a vida se comporte segundo a nossa concepção particular de como as coisas têm que ser, em contraposição ao que realmente são..Os pensamentos por si só não são um problema. É o nosso desesperado apego a eles e nossa resistência à realidade que nos causa a angústia ’.

Outro ponto de destaque é a sua atitude compassiva com os jogadores. Ele não fazia o tipo treinador austero e déspota. Ao contrário, procurava se identificar e entender o que se passava com cada atleta. “Isso fazia com que o jogador se sentisse menos ansioso, mais feliz, já que alguém estava entendendo o que ele estava passando. A partir daí havia um efeito multiplicador na equipe, pois inspirava outros jogadores a responder amavelmente e a ser mais conscientes das necessidades de uns e outros”.

Não por acaso ele ganhou o carinhoso apelido de Zen Master entre os atletas. Considerado um dos 10 maiores técnicos da história, Phil Jackson se aposentou em 2011 no próprio Lakers. Curiosamente, enquanto escrevo este artigo, leio no New York Times que a franquia da Califórnia quer de volta o velho mestre zen para dirigir a equipe e colocar ordem no garrafão. Quem sabe não seja mais uma oportunidade para o budista tirar o máximo das estrelas?

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Religião para ateus - uma resenha

É curioso como de tempos em tempos sempre aparece alguém que faz algo de maneira inusitada. É um talento que pode construir catedrais, descobrir uma vacina, desvendar leis da natureza ou até mesmo fazer jogadas geniais em um campo de futebol. Pode ser um exagero da minha parte, mas gosto de colocar o filósofo suíço Alain de Botton nesta categoria. Há tempos acompanho seus livros e documentários (no marcador filosofia deste blog você poderá encontrar muitos textos baseados em suas explicações). E o que faz Alain de Botton de tão especial? Ele é claro nos seus ensinamentos, didático, bem articulado e vê a filosofia não como algo inatingível para seres mortais como eu e você. Ao contrário, ele traz para o nosso cotidiano pensatas de antigos filósofos que nos ajudam a compreender as nossas angústias nesta agitada vida moderna.
     Neste seu caminho inusitado, Alain lançou recentemente Religião para ateus (editora Intrínseca). O livro é de leitura fácil, como é de praxe em seus trabalhos, mas sem cair no superficialismo. Ele tem a habilidade de abordar conceitos complexos ou ideias sofisticadas com uma naturalidade como se tivesse conversando com amigos em um almoço.
     E a proposta da obra é bem instigante. Alain analisa as religiões e procura encontrar aspectos que possam ser adaptados com sucesso em uma vida secular. A angústia dele é que a religião de uma forma ou de outra supre com muita competência necessidades interiores de cada ser humano. O problema é que se você é um ateu, como o autor,  qualquer menção à igreja é logo vista com desdém. E desta forma essas pessoas se distanciam de valores morais e filosóficos importantes. Como ele explica, "as religiões conseguiram combinar teorias sobre ética e metafísica com um envolvimento prático em educação, moda, política, viagem, hospedaria, cerimônias de iniciação, edição de livros, arte e arquitetura - uma gama de interesses que eclipsa a extensão de conquistas até mesmo dos maiores e mais influentes movimentos e indivíduos seculares da história".
     A partir deste mote ele vai costurando seu livro em capítulos como Comunidade, Gentileza, Educação, Ternura, Pessimismo, Perspectiva, Arte, Arquitetura e Instituições. Em cada seção ele surpreende o leitor com análises de como a religião foi competente para influenciar cada um destes aspectos abordados e as dificuldades que a vida secular mostra em dar respostas com a mesma eficiência.
     Um dos casos analisados é sobre a educação. Botton afirma que no início do século 19 havia o "sonho de que a cultura pudesse ser tão efetiva quanto a religião em sua capacidade de guiar, humanizar e consolar". Em vez de usarmos passagens bíblicas nos ensinamentos morais, chamaríamos as máximas de Marco Aurélio ou as óperas de Wagner já que as "lições éticas da religião se espalham pelo cânone cultural". Mas isso não deu certo. E por que? Botton tem uma teoria interessante. Para ele as "universidades conquistaram uma competência sem paralelos na transmissão de informação factual acerca de cultura, porém elas permanecem de todo desinteressadas em treinar estudantes para usá-la como repertório de sabedoria". Em outras palavras, como viver não faz parte do currículo escolar.
     Botton propõe uma solução para corrigir este problema. As universidades precisariam alterar seu currículo não mais para que os alunos acumulassem informação, mas usar o conteúdo cultural para iluminar a vida deles em vez de estimulá-los a atingir objetivos acadêmicos. Desta forma, "os romances Anna Karenina e Madame Bovary seriam alocados em um curso sobre tensões do casamento...Uma universidade interessada nas verdadeiras responsabilidades dos artefatos culturais dentro de uma era secular estabeleceria um Departamento de Relacionamento, um Instituto de Morrer e um Centro para o Autoconhecimento".
     Tudo isso pode dar a impressão de ser uma grande viagem do autor. No entanto, a partir deste exercício de imaginação vemos de maneira objetiva, muitas vezes cruel, como é cada vez mais premente repensar  como recebemos e distribuímos o conhecimento. E como estas falhas nos distanciam de valores éticos e morais e do necessário autoconhecimento. Itens fundamentais para termos uma vida melhor, como as religiões sempre souberam e foram tão eficazes ao longo dos milênios em nos ensinar. Enquanto este novo mundo de Botton não surge, termino a leitura imaginando se não valeria a pena olhar com menos preconceito para este aspecto das religiões e encontrar o conforto necessário que este mundo moderno e tecnologicamente avançado nos nega.

Saiba mais
Outros posts sobre Alain de Botton

Palestra de Alain de Botton no TED (com legendas em português)

Epicuro e a felicidade (legendado)

Sócrates e a autoconfiança (legendado)

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Montaigne e a autoestima (legendado)

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quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Religião para ateus

Um dos filósofos atuais que mais gosto é o suíço Alain de Botton. Quem acompanha este blog sabe que em  muitos posts menciono as ideias dele. É só clicar no marcador filosofia para ver alguns destes textos. Um deles, Schopenhauer e o amor, é um dos mais acessados por aqui. Gosto dele porque ele é simples, direto e sem afetação em suas explicações. E o melhor de tudo: foca a filosofia no dia a dia das pessoas. Tenta trazer respostas para nossas angústias, medos, amores, raivas, inseguranças etc. É a filosofia usada para melhorar o nosso interior e para que possamos viver com mais tranquilidade. Os espíritas chamariam isso de reforma íntima e usariam os ensinamentos de Jesus como norte. Botton é ateu e usa os filósofos para ir nesta mesma direção.
     Ele esteve no Brasil por esses dias para o lançamento do livro Religião para Ateus, que ainda não tive a oportunidade de ler, mas em breve vou fazer isso e postar algumas considerações por aqui. Bom, o interessante é que ele concedeu uma entrevista para a revista Exame que gostaria de compartilhar com vocês. Um bate papo com boas perguntas e ótimas respostas. Coloquei a íntegra abaixo. Espero que gostem.


“Nós somos uma espécie ingrata”, diz filósofo Alain de Botton

Em entrevista a EXAME.com, o filósofo do cotidiano falou sobre o desejo de status e o paradoxo do sucesso material

São Paulo – Sem frases altamente complexas ou raciocínios muito abstratos, o filósofo suíço Alain de Botton expõe as ideias que tem construído ao longo de quase duas décadas de carreira. Ele popularizou a filosofia com seus livros, focado nos problemas do cotidiano e sempre recorrendo a uma bagagem de diversos pensadores e artistas.
Uma delas é “Como Proust pode mudar sua vida” (1997), onde o autor usa os ensinamentos de Marcel Proust para ajudar o leitor em campos como o amor, o sofrimento, a felicidade, a arte e a amizade. Já na obra “Desejo de Status” (2004), Alain de Botton fala sobre a ansiedade de ter status e riqueza, e da frustração que isso causa, quando o sucesso não é alcançado.Nesta semana, de Botton veio ao Brasil para participar do ciclo de palestras Fronteiras do Pensamento e para lançar sua obra mais recente, “Religião para Ateus” (2011). No livro, ele fala sobre os ensinamentos que as religiões podem dar mesmo àqueles que não possuem uma crença. Antes, o filósofo escreveu outras nove publicações que foram best-sellers.
Diferentemente da ambição, que é uma vontade de crescer para satisfação pessoal, o “desejo de status” se origina da preocupação com o que os outros vão pensar. As consequências podem ser várias, desde a riqueza até o suicídio. É exatamente sobre esse assunto que o filósofo falou a EXAME.com. Confira trechos da entrevista.
EXAME.com: De que depende a felicidade no trabalho?
Alain de Botton: 
Felicidade no trabalho é muito complicada. Eu acho que ela basicamente depende de algo dentro de você. Algo precioso e importante, uma habilidade, um talento, um interesse sendo conectados com algo no mundo que gera dinheiro. Na maior parte do tempo, as coisas pelas quais a gente realmente se importa não fazem dinheiro. E as coisas que fazem dinheiro nos matam por dentro. Nós não gostamos de fazê-las. Esse é o problema do capitalismo. A maior parte do dinheiro no mundo moderno é gerada em empresas que não são tão interessantes para nosso espírito, para nossas mentes
EXAME.com: As pessoas estão mais infelizes com suas carreiras e seu trabalho atualmente em relação às gerações de décadas atrás?
de Botton:
 Esse é definitivamente o caso em que quanto mais você espera da vida, mais a vida tem que dar, do contrário, você fica infeliz. É o paradoxo do sucesso material. À medida que a sociedade fica mais bem sucedida, as expectativas das pessoas aumentam e, por isso, elas ficam ingratas sobre coisas que seus pais ou seus avós ficariam muito agradecidos. Nós somos uma espécie ingrata. Nós sempre pensamos naquilo que nós não temos. Não se trata de não tentar conseguir mais, mas, na medida em que tentamos conseguir mais, nós deveríamos sempre lembrar que isso vai entregar apenas uma pequena porcentagem da felicidade que nós imaginamos. Nós devemos estar prontos para isso.
EXAME.com: O senhor diz que meritocracia não é 100% eficiente. Na sua opinião, há um modo melhor de avaliar as pessoas e suas competências, que possa reduzir o “desejo de status”?
de Botton: 
Nós deveríamos sempre tentar criar um mundo meritocrático, um mundo onde, se você tiver talento e energia, você deveria conseguir subir. O problema é que nós devemos sempre reconhecer que isso é um sonho do mundo perfeito. Porque todos nós somos mais talentosos, mais interessantes, mais habilidosos do que o mundo poderá saber, que nós poderemos saber um dia. O sonho é a gente poder pegar tudo que é bom em nós e fazer dinheiro com isso. Isso é uma coisa que apenas 0,001% da população pode um dia fazer. Nós precisamos reconhecer isso, falar sobre isso e nos entristecer com relação a isso, juntos, em uma sexta-feira à noite após o trabalho.
EXAME.com: As redes sociais, como Facebook e Twitter, que permitem que as pessoas se tornem webcelebridades, aumentam o “desejo de status”? O que o senhor pensa sobre esse assunto?
de Botton:
 As redes sociais oferecem às pessoas uma maneira de ter status fora do sistema financeiro. Porque muita gente acessa o Twitter, por exemplo, não por dinheiro, mas simplesmente porque elas gostam de ter outras pessoas ouvindo o que elas querem falar e respondendo a elas. Isso mostra uma coisa muito interessante sobre a natureza humana, que é que, mesmo que nós gostemos de ganhar dinheiro, no final do dia, ainda mais importante do que dinheiro, depois de um momento básico, é o amor. Nós queremos o amor do mundo.
EXAME.com: No Brasil, tem havido um aumento do número de ateus e agnósticos, segundo levantamentos recentes. A falta de fé pode tornar mais difícil lidar com o “desejo de status”?
de Botton:
 Eu sou um ateu, então eu não acho que a resposta seja nós nos voltarmos para a fé. Mas, sim, quando a religião declina, certas coisas realmente pioram do ponto de vista dessa ansiedade. Mesmo um rei, no Cristianismo, fica de joelhos diante de Jesus. Essa é uma ideia muito bonita e, uma vez que você se livra de Jesus, o que você tem? O que vai ser maior do que a humanidade? O perigo é: nada. O perigo é nós pensarmos “nós somos fantásticos. Nós temos Steve Jobs, que inventou o iPad”.
Nós nos adoramos e isso nos leva à loucura. Nós precisamos de momentos em que podemos fugir do narcisismo humano e olhar para outros lugares. É por isso que as pessoas hoje estão mais impressionadas com a natureza. Não é apenas uma questão ambiental, é também uma questão psicológica. Você olha para a natureza e pensa: isso é uma coisa que existe fora da humanidade. E ela é maravilhosa, porque ela não pensa em nós, assim como animais, árvores, estrelas, até mesmo crianças pequenas. Esses são exemplos de coisas que estão fora do sistema do dinheiro, fora do sistema do status, e elas são muito, muito relaxantes e necessárias para nossa alma.
EXAME.com: O senhor também diz que ninguém é independente e auto-suficiente. Onde é possível encontrar ajuda e conselhos para lidar com nossos problemas, dúvidas e ansiedade?
de Botton:
 Bem, o interessante é que o mundo moderno, onde nós temos tanto de tudo, que é tão bom em dar-nos carros, roupas e todo resto, quando diz respeito à nossa vida interior, a ajuda é quase como a Rússia nos tempos comunistas. É muito, muito má. O modelo mais sistemático que existe para a vida interior é provavelmente a psicoterapia, que no Brasil e no resto é ainda uma coisa menor. Acho que precisamos de ajuda, e minha esperança é que os empreendedores do futuro não pensem apenas no corpo e suas necessidades, mas também pensem na mente e em suas necessidades.
EXAME.com: Quais são as possíveis soluções para o “desejo de status”?
de Botton:
 O maior inimigo nesta situação é a solidão, paranoia, a sensação de que estamos completamente sozinhos. É muito vergonhoso sentir o “desejo de status”. Ele não é algo que você pode realmente admitir, não é fácil admitir a inveja de alguém. E, ainda assim, a inveja é enorme. Eu acredito que nós precisamos de alguns mecanismos para admitir isso, nós precisamos de amizades que são capazes de aceitar esse nosso lado, nós precisamos ser capazes de falar sobre isso.Todo problema é reduzido ao se falar sobre ele. E nós precisamos achar grupos de status que serão tolerantes e faça-nos sentir relativamente relaxados. No mundo moderno, nós somos jogados contra pessoas que realmente destroem nossa paz interior, suas ambições nos levam à loucura e, talvez isso não seja para nós. Talvez nós precisemos apenas perder alguns amigos. Meu conselho seria fazer alguns amigos e perder outros, para nos focarmos no que nós realmente queremos.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

A realidade e Jung

Sempre fui um cético. Não um ateu. No máximo, um agnóstico. Porém, ao longo de várias leituras, cursos, estudos e contatos diversos com a espiritualidade fui percebendo que existem certas coisas que não sabemos exatamente como funcionam, mas o fato é que de uma forma ou de outra funcionam. Vou pegar um exemplo para facilitar a compreensão. Pense no cientista Louis Pasteur. Antes dele, como a humanidade compreendia a propagação das doenças? Você podia perguntar para qualquer pessoa mais instruída na Europa no início do século 19 e a resposta viria na palavra miasmas. Tudo se resumia a isso: miasmas. O que eram os miasmas? Como se propagavam? Como se defender deles? Nada. Nenhuma resposta. No máximo, nossos antepassados suspeitavam que algo "no ar" causavam as doenças .

Um dia chegou Pasteur com suas descobertas. E aos poucos luzes foram sendo jogadas em bactérias, vírus e até a vacina foi inventada. O que quero demostrar aqui é que muitas vezes o que não compreendemos é por falta de informação. Em algumas situações temos alguns dados disponíveis, mas, em outros, nada. Porém, na ausência de fatos palpáveis, não podemos descartar abruptamente uma ideia ou a inexistência de um determinado fenômeno. 

Quem melhor descreveu esta angústia do ver para crer foi Carl Gustav Jung psiquiatra suíço e fundador da psicologia analítica. No livro clássico O Homem e os seus sonhos, ele diz logo nas primeiras páginas: "O homem como podemos perceber ao refletirmos um instante, nunca percebe plenamente uma coisa ou a entende por completo. Ele pode ver, ouvir, tocar e provar. Mas a que distância podia ver, quão acuradamente consegue ouvir, o quanto lhe significa aquilo em que toca e o que prova, tudo isso depende do número e da capacidade dos seus sentidos. Os sentidos do homem limitam a percepção que este tem do mundo à sua volta. Utilizando instrumentos científicos pode, em parte, compensar a deficiência dos sentidos. Consegue, por exemplo, alongar o alcance da sua visão através do binóculo ou apurar a audição por meio de amplificadores elétricos. Mas a mais elaborada aparelhagem nada pode fazer além de trazer ao seu âmbito visual  objetos ou muito distantes ou muito pequenos e tornar mais audíveis sons fracos. Não importa que instrumentos ele empregue; em um determinado momento há de chegar a um limite de evidências e de convicções que o conhecimento consciente não consegue transpor".

Para piorar as coisas e mostrar como a análise da realidade é algo quase desumano, Jung acrescentava no mesmo texto: "Além disso, há aspectos inconscientes na nossa percepção da realidade. O primeiro deles é o fato de que, mesmo quando os nossos sentidos reagem a fenômenos reais, a sensações  visuais e auditivas, tudo isso, de certo modo, é transposto da esfera da realidade para a da mente. Dentro da mente esses fenômenos tornam-se acontecimentos psíquicos  cuja natureza externa nos é desconhecida. Assim toda experiência contém um número indefinido de fatores desconhecidos, sem considerar o fato de que toda a realidade concreta sempre tem alguns aspectos que ignoramos desde que não conhecemos a natureza extrema da matéria em si".

Por isso, é importante sermos cuidadosos com nossas convicções e não colocar toda a responsabilidade pela quebra de dogmas nas costas da ciência. Podemos estar usando uma viseira inconsciente que nos impede de ter uma visão mais ampla e de estar mais aberto ao que não compreendemos.

domingo, 15 de julho de 2007

Nietzsche e o valor da dificuldade

Na busca de levar a filosofia para perto do cidadão comum, Alain de Botton em As Consolações da Filosofia sempre tenta apanhar um conceito mostrado por um pensador famoso. No caso de Friedrich Nietzsche era a idéia de que só o esforço, as dificuldades, os contratempos, o medo, o sofrimento, poderiam valorizar uma conquista. Ou ainda: "o ser humano só conseguia atingir uma vida plena depois de passar por períodos de grande infortúnio"


Nas palavras de Botton, "os mais satisfatórios projetos humanos pareciam inseparáveis de um grau de tormento; estranhamente, as origens de nossas maiores alegrias pareciam residir junto àquelas de nossos maiores sofrimentos". Nietzsche fazia uma analogia interessante: "...se uma árvore que deve alcançar uma altura invejável pode prescindir do mau tempo e das tempestades e se o infortúnio e a resistência externa, alguns tipos de ódio, a inveja, a obstinação, a desconfiança, a insensibilidade, a avareza e a violência fazem, ou não, parte das condições favoráveis sem as quais qualquer grande progresso, mesmo o da virtude, quase nunca é possível".

Botton explica que "no intervalo entre o fracasso inicial e o sucesso subseqüente, no espaço de tempo que separa a pessoa que um dia queremos ser e a que somos no momento, devem vir a dor, a ansiedade, a inveja e a humilhação. Nós sofremos porque não conseguimos espontaneamente conhecer a fundo os ingredientes da satisfação. Nietzsche esforçava-se para retificar a crença de que a satisfação ou é facilmente obtida ou jamais nos bate à porta, uma crença de efeitos nocivos por nos induzir a desistir prematuramente dos desafios que poderiam ter sido vencidos se ao menos nos tivéssemos preparado para as batalhas que praticamente tudo que é valioso tem o direito de exigir"

Justamente por evitar esta realidade e permitir o comodismo é que Nietzsche abominava o álcool e o cristianismo. "Os dois grandes narcóticos europeus, o álcool e o cristianismo", afirmava o filósofo. "Tanto um quanto o outro têm o poder de nos convencer de que são verdadeiras as deficiências que, em nosso íntimo, previamente julgávamos possuir e que o mundo não requer atenção; ambos enfraquecem nossa decisão de cultivar nossos problemas; ambos nos negam a chance de satisfação", explica Botton.

"Para Nietzsche os adeptos da religião do comodismo, os cristãos, em sua escala de valores, haviam dado prioridade ao que era fácil, não ao que era desejável, e desta forma drenaram o potencial da vida", finaliza Botton.

terça-feira, 3 de julho de 2007

Schopenhauer e o amor

Voltemos aos nossos posts filosóficos. Agora é a vez de Arthur Schopenhauer. No livro que não canso de mencionar "As Consolações da Filosofia", de Alain de Botton, há um capítulo dedicado a este pensador nascido na Polônia, mas que passou grande parte de sua vida na Alemanha. Schopenhauer tinha uma idéia curiosa sobre o amor. Para ele a paixão acomete os seres humanos com um único propósito inconsciente: perpetuar a espécie. "O momento em que o amor - ou, para ser mais exato, o desejo - entre duas pessoas começa a florescer deve, na realidade, ser encarado como o primeiro passo para a formação de um novo indivíduo", diz ele.

Prossegue Schopenhauer: "Há algo de bastante peculiar na seriedade profunda e inconsciente com que um jovem casal observa um ao outro no primeiro encontro. A troca de olhares sutis e perscrutadores, a cuidadosa inspeção mútua da aparência, o exame rigoroso de todos os traços que compõem cada individualidade nada mais é do que a meditação do espírito, a indagar sobre a viabilidade de ser gerado um novo ser humano"

Portanto, quando estamos atrás do nosso par ideal buscamos na verdade evidências de que teremos uma prole saudável. Não é genial? Mas o melhor está por vir. Segundo Schopenhauer, há um efeito colateral nesta história toda. Somos totalmente ludibriados ao escolher o parceiro a partir das premissas de geração de filhos saudáveis. Achamos que encontramos o par perfeito, mas na verdade nosso interesse é outro. E mais tarde podemos perceber o erro que cometemos. Nas palavras de Alain de Botton:

"...a pessoa que escolhemos como sendo a mais indicada para ter um filho conosco quase nunca é a mais indicada para nós (embora sejamos incapazes de perceber isto no momento que a escolhemos porque a vontade de viver nos ofuscou o raciocínio). " Conseguir que a conveniência e a paixão caminhem de braços dados é o mesmo que receber o mais raro bafejo da sorte", observou Schopenhauer. "

"O parceiro amoroso que livra nosso filho de nascer com um queixo protuberante ou uma índole efeminada não costuma ser a mesma pessoa que nos fará feliz por toda a vida. A busca da felicidade pessoal e da geração de filhos saudáveis são projetos radicalmente opostos que o amor maliciosamente nos confunde e nos leva a pensar que se tratam de um só por um bom número de anos. Não deveríamos nos surpreender com o casamento entre duas pessoas que jamais teriam sido amigas uma da outra. "

Ainda Schopenhauer: " O amor...lança-se sobre as pessoas que fora da relação sexual, seriam detestáveis, desprezíveis e mesmo repugnantes como amantes. A vontade de perpetuação da espécie é tão mais poderosa que a do indivíduo que faz o apaixonado fechar os olhos para todas as qualidades que lhe são repugnantes, tudo tolera, tudo distorce, e acaba por unir-se para sempre ao objeto de sua paixão. Ele se mostra, desta forma, completamente enfeitiçado por uma ilusão, que se desfaz tão logo o desejo de perpetuação da espécie seja satisfeito, mas deixa como herança um cônjuge detestável para o resto da vida..."

Botton finaliza com a seguinte alegoria: Então, um dia, uma mulher com ares de rapaz e um homem com ares de moças irão se aproximar do altar por motivos que nenhum dos dois, ou qualquer outra pessoa, possa ter imaginado...Apenas mais tarde, quando as necessidades da vontade forem satisfeitas e um garoto robusto estiver brincando com sua bola em um quintal de subúrbio, o ardil será descoberto. O casal se separa ou passará a dividir a mesa do jantar em meio a um silêncio hostil" . Como diz Schopenhauer, "a geração futura é providenciada à custa da geração atual".

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terça-feira, 19 de junho de 2007

Máscaras e a simplicidade

Voltemos ao filósofo Sêneca, um dos hits deste blog (veja os posts mais lidos). Agora, dentro da obra Tranqüilidade da Alma vamos abordar um capítulo bem curtinho chamado Praticar a Simplicidade. Para o autor este é um dos grandes males que inquietam a alma das pessoas. O desafio diário de ter uma máscara ou encarnar um personagem perante as outras pessoas torna a vida mais complicada e longe da frugalidade. A questão do filósofo: precisamos mesmo esconder quem realmente somos? Abaixo o pensamento de Sêneca:

" Um outro gênero de inquietude nasce do cuidado que o homem emprega em fingir e em jamais se deixar ver como é. É o caso de muitas pessoas, cuja vida só é hipocrisia e comédia. Que tormento, esta permanente vigilância sobre si mesmo, este terror de ser surpreendido num papel diferente do que aquele que se escolheu! E esta preocupação não nos deixa mais, desde o instante em que nos persuadimos de que somos julgados a cada olhar que nos lançam. Com efeito, aparecem mil incidentes, que nos revelam contra nossa vontade; e quando logramos nos observar sem desfalecimento, que satisfação! Mas que segurança pode oferecer uma existência inteira passada sob uma máscara?

Que encanto, ao contrário, na espontânea simplicidade de um caráter, que desconhece os ornamentos artificiais e que despreza disfarçar-se! É verdade que corremos o risco de perder a consideração, abrindo-nos ingenuamente demais a todos: pois não faltam pessoas para menosprezar o que se lhes torna acessível. Mas a virtude não pode ser de modo algum desprezada, quando oferecida a todos os olhares; e não é melhor ser menosprezado por sua franqueza do que importa-se o suplício de uma dissimulação perpétua? Todavia, não excedamos à medida: pois há muita diferença entre a sinceridade e a falta de modéstia"

Curiosamente, a revista Vida Simples de junho trouxe este mesmo assunto como reportagem de capa (ler aqui)

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domingo, 10 de junho de 2007

Epicuro e a busca da felicidade

Continuo devorando o livro As Consolações da Filosofia, de Alain de Botton. Estou no capítulo dedicado ao filósofo Epicuro (341 a.C). Ele viveu boa parte da vida em Atenas e fundou uma comunidade, digamos, alternativa. Era um grupo de amigos que compartilhava uma casa modesta no subúrbio, fazia plantação de subsistência e passava horas discutindo filosofia.

No entanto, Epicuro leva a fama de ser o autor da idéia de que temos que aproveitar as boas coisas da vida. Conceito que evoluiu de maneira equivocada para comer e beber do melhor; morar em casas confortáveis e luxuosas; vestir-se com requinte... Mas não era nada disso que ele pregava!

O filósofo acreditava que só uma vida em torno de amigos, com liberdade e reflexão traria a felicidade. No primeiro caso, nas palavras de Botton, "...O desejo de possuir riqueza talvez não deva ser sempre entendido como ânsia por uma vida luxuosa. Um motivo mais importante talvez fosse o desejo de ser admirado e bem tratado. Podemos almejar a fortuna como o único objetivo de assegurar o respeito e a atenção de pessoas que, em outras circunstâncias, nos desprezariam. Epicuro, ao discernir nossa carência subjacente, reconheceu que um punhado de bons amigos sinceros poderia prover o amor e o respeito que mesmo a riqueza não pode".

Já a liberdade, para Epicuro, é não ter que se submeter a trabalhar com pessoas de quem não se gosta ou conviver com chefes e suas ordens. Por isso, o filósofo e seus amigos optaram por uma vida mais simples, porém que se afastava deste modelo de dependência a terceiros. Fundaram a comunidade alternativa "Jardim" e conseguiram uma vida equilibrada. Para Botton, " a simplicidade não afetava o senso de status quo dos amigos porque, ao se distanciarem dos valores de Atenas, deixaram de julgar a si próprios segundo bases materiais. Não havia necessidade de constrangimento diante de paredes nuas e nenhum benefício em exibir a posse de ouro. Entre um grupo de amigos que vivia afastado do centro político e econômico da cidade não havia - no sentido financeiro - nada a provar"

Finalmente, Epicuro considerava a reflexão como a terceiro pilar para a busca da felicidade. Na reflexão você consegue combater a ansiedade. O filósofo acreditava que "quando anotamos um problema ou verbalizamos em uma conversa, permitimos que seus aspectos essenciais venham à tona. Uma vez identificado seu caráter, eliminamos, se não o problema em si, pelo menos as características secundárias que o agravam: confusão, indecisão, perplexidade".

Portanto, para Epicuro, ter dinheiro não quer dizer, necessariamente, ter felicidade. Sem amigos, liberdade e uma vida baseada na reflexão, "jamais seremos verdadeiramente felizes. E. se temos tudo, com exceção do dinheiro, jamais seremos infelizes... " . Alain de Botton faz uma reflexão genial na seqüência: "Por que, então, somos tão fortemente atraídos por coisas caras, se elas não podem nos trazer alegrias extraordinárias? ...porque objetos caros podem parecer soluções plausíveis para necessidades que não compreendemos. Os objetos imitam, em uma dimensão material, aquilo de que necessitamos no plano psicológico. Precisamos reorganizar nossas mentes, mas somos seduzidos por prateleiras repletas de novidades. Compramos um cardigã de caxemira como um substituto para conselho de amigos".

Claro que não é fácil escapar do consumismo. Epicuro alertava para o perigo das opiniões vãs. Seriamos influenciados pelo meio que nos cerca (amigos, publicidade, cidade etc), o que causa uma enfatização ao luxo e à riqueza. " A prevalência de uma opinião vã não é uma coincidência. Faz parte dos interesses do mundo dos negócios que esta hierarquia natural de nossas necessidades (amizade, liberdade e reflexão) seja desvirtuada, para a promoção de uma visão material do bem e uma desvalorização do que não pode ser comprado. E a maneira de nos seduzir é estabelecer uma associação astuciosa entre os artigos supérfluos e nossas outras necessidades esquecidas (por exemplo, propaganda de um jipe = a liberdade)".

Prossegue Botton, "...A publicidade não seria tão vitoriosa se não fôssemos criaturas tão sugestionáveis. Cobiçamos coisas que nos são apresentadas vistosamente...Lucrécio (filósofo grego) lamentava a maneira pela qual aquilo que desejamos é escolhido mais por influência da opinião alheia do que pelo que nos revelam nossos sentidos. Proliferam imagens atraentes de produtos e locais suntuosos, e pouco se fala de ambientes e pessoas comuns. Recebemos pouco incentivo para tomar em consideração recompensas modestas: brincar com uma criança, conversar com amigos, uma tarde ao sol, uma casa limpa, um pouco de queijo sobre uma fatia de pão fresco. "

Enfim, viva uma vida mais simples. O que nos custa apreciar uma tarde ensolarada de outono? Andar com o cachorro, tirar um tempo para conversar com amigos, tomar sorvete de mãos dadas com a pessoa amada...Com este pensamento vamos em busca de algo mais profundo e menos epidérmico e ainda ajudamos a tornar a vida em nosso planeta mais sustentável. Afinal, com tanta coisa boa e de graça oferecida pela natureza, por que incentivar o consumismo que, no final das contas, está destruindo Gaia?

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quinta-feira, 7 de junho de 2007

O pensamento socrático

Vivemos em tempos midiáticos em que a percepção vale mais do que a razão. Há uma constante (de)formação da opinião pública a partir de depoimentos na imprensa de pessoas acima de qualquer suspeita. Personalidades que muitas vezes usam argumentos com a profundidade de um pires, mas que ao ser dita junto com outros, torna-se, na visão do cidadão desavisado, algo sensato e que deve ser seguido.

Por exemplo (prometo que não será o mote principal deste post), para a mídia e nossa elite econômica e política, Hugo Chávez é um ditador. Não importa que ele tenha sido eleito pelo voto direto e que tomou todas as decisões dentro de um ambiente reconhecidamente democrático. Isso não importa. O fato é que ele é um déspota e tudo o que ele representa ou faz tem que ser achincalhado. Isso faz com que a população comece a ter idéias preconcebidas e acabe aceitando a percepção negativa. Uma ou outra voz se levanta contra este raciocínio, mas são gotas no tsunami midiático.

Vocês que acompanham este blog sabem que estou afundado em leituras filosóficas. Pois bem. Comprei o livro de Allain Button, As consolações da Filosofia, que depois serviu de base para o documentário Filosofia para o dia-a-dia, já abordado neste blog. O primeiro capítulo trata do raciocínio socrático e como o pensamento comum de uma sociedade muitas vezes não passa por um exame banal de lógica.

A cada página que ia lendo percebia que muitas das coisas que vemos hoje, como o exemplo citado acima, cabem como uma luva no pensamento de Sócrates e o que ele tanto procurou revelar à sociedade ateniense. Claro que este tipo de questionamento lógico incomoda muita gente e destrói as percepções que parte da elite quer passar para o resto das pessoas. Justamente por causa disso, o filósofo grego foi acusado, julgado e condenado a morte...

Em homenagem a Sócrates, que nos empresta a frase Só sei que nada sei, reproduzo alguns trechos do livro de Botton para que vcs também tirem suas conclusões e reflitam sobre quais idéias, opiniões, conceitos tentam nos empurrar goela abaixo diariamente e como nos proteger desta lavagem cerebral.

"...mas não é apenas a hostilidade alheia que pode nos impedir de questionar o status quo. Nosso desejo de levantar dúvidas pode ser salpicado por uma sensação íntima de que as convenções sociais devem ter bases sólidas, mesmo se não sabemos discernir exatamente que bases seriam estas pelo fato de terem sido adotadas por tantas pessoas há tanto tempo. Parece implausível que a nossa sociedade esteja profundamente equivocada em suas crenças e, ao mesmo tempo, que seríamos os únicos a perceber este fato. Reprimimos nossas dúvidas e nos incorporamos ao rebanho porque não conseguimos nos imaginar pioneiros na tarefa de desvendar as verdades desconhecidas e dolorosas...

...Se evitamos questionar o status quo, é principalmente porque - à parte o clima e o tamanho das nossas cidades - associamos o que é popular com o que é certo. O filósofo descalço (Sócrates) levantava um número incontável de questões para determinar se o que era popular fazia ou não sentido...

...Outras pessoas podem estar erradas, mesmo quando ocupam posições importantes, mesmo quando estão advogando crenças adquiridas durante séculos por uma vasta maioria. E a razão é simples: estas pessoas não submeteram suas crenças ao crivo da lógica...Para ressaltar a peculiaridade de sua passividade (ao senso comum) comparou o ato de viver sem raciocinar de maneira sistemática à pratica de uma atividade como a olaria ou a confecção de sapatos sem que se adotem ou mesmo se conheçam as técnicas necessárias para tal. Ninguém jamais iria imaginar que um vaso ou um sapato bem-feitos poderiam resultar apenas da intuição; por que, então, supor que a tarefa mais complexa de se gerir a própria vida poderia ser executada sem qualquer reflexão contínua e sistemática sobre suas premissas e objetivos?

Talvez porque não acreditamos que o ato de gerir nossas vidas seja na realidade complicado. Determinadas atividades difíceis parecem muito difíceis vistas à distância, enquanto outras igualmente difíceis parecem muito fáceis. Ter concepções corretas sobre como viver recai na segunda categoria, fazer um vaso ou um sapato, na primeira...

...O método de Sócrates de examinar o senso comum é observável tanto nos primeiros diálogos de Platão quanto nos chamados diálogos da maturidade e, porque ele segue passos coerentes, pode sem injustiça ser apresentado na linguagem de um livro de receitas ou de um manual, e aplicado a qualquer conceito que alguém foi solicitado a aceitar ou se sente inclinado a contestar. A correção de uma afirmativa não pode, segundo sugere o método, ser determinado pelo fato de ser ou não aceita por uma maioria ou pelo fato de ser seguida há muito tempo por pessoas importantes. Uma afirmativa correta é aquela que não dá margem a ser racionalmente contestada. Uma afirmativa é verdadeira se não se pode ser invalidada. Se puder, não importa o número ou a posição social das pessoas que nela acreditam, ela deve ser falsa e nós estamos certos em duvidar dela."

Não acabou ainda. Voltarei ao nosso filósofo Sócrates em posts futuros.

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segunda-feira, 4 de junho de 2007

Maus efeitos da riqueza

Sêneca continua me surpreendendo. No livro "Da tranqüilidade da alma" ele aborda os efeitos nocivos da riqueza e da ostentação frívola (alguma semelhança com nossos dias consumistas de hoje?). Alguns trechos do capítulo "Maus efeitos da riqueza":

" Passemos ao domínio das riquezas, principal fonte das misérias dos homens, pois, comparando-se todos os nossos outros perigos, prazeres, doenças, temores, desgostos, sofrimentos e preocupações de toda espécie, com os males que nascem do dinheiro, será deste lado que muito claramente penderá a balança....

...O dinheiro se apega tão intimamente à alma, que não se pode arrancá-lo sem dor. É, aliás, eu o repito, mais suportável e mais simples nada adquirir do que perder alguma coisa. Daí vem que se vê um ar mais alegre nas pessoas que a fortuna jamais visitou do que naquelas que ela traiu...Limitemos ao menos a extensão de nossos bens, a fim de estarmos menos expostos às injúrias da fortuna...Para o dinheiro, a verdadeira medida consiste em não cair na pobreza, mas aproximar-se dela o mais possível...

Logo, esta limitação nos será puramente agradável, se tomarmos previamente o gosto pela economia, sem o qual as maiores fortunas são ainda insuficientes e mesmo as mais modestas se prestarão ao desperdício...Habituemo-nos a ter o luxo à distância e a fazer uso da utilidade dos objetos e não da sua sedução exterior (grifo meu). Comamos para matar a fome, bebamos para apagar a sede e reduzamos ao necessário a satisfação de nossos desejos. Aprendamos a andar com nossas pernas, a regular nosso vestuário e nossa alimentação, não sobre a moda do dia, mas sobre o exemplo dos antigos.

Aprendamos a cultivar em nós a sobriedade e a moderar nosso amor ao fausto; a reprimir a vaidade, a dominar nossas cóleras, a considerar a pobreza com um olhar calmo, apesar de todos aqueles que acharão aviltante satisfazer tão modestamente a seus desejo naturais. A não ter nas mãos, por assim dizer, as ambições desenfreadas de uma alma sempre inclinada para o dia seguinte e a esperar a riqueza menos da sorte do que de nós mesmos.

...Tomemos, pois, o hábito de nos abstermos de espectadores quando ceamos...de não termos roupas a não ser para o uso que as criou e de nos alojarmos modestamente. Não é só nas corridas e nos torneios do circo, é também na arena da vida que é preciso saber curvar-se".

Comentário final deste escriba: neste período em que vivemos, em que o consumo responsável e a tal da sustentabilidade se colocam como prementes, não deixa de ser irônico que estas palavras de Sêneca, escritas há milhares de anos, caibam como uma luva nos dias de hoje.

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sábado, 2 de junho de 2007

Sêneca e a tranqüilidade da alma

Depois de ver o DVD sobre filosofia da revista Vida Simples (ver post) acabei me interessando por Sêneca, um dos personagens do documentário. Resgatei entre meus livros a coleção Os Pensadores, da Abril Cultural, e lá estava a obra do filósofo nascido na Espanha e um dos mentores de Nero (depois, claro, convidado ao suicídio pelo déspota). O capítulo dedicado a Sêneca é Da Tranqüilidade da Alma, considerado um dos melhores do autor. Ele procura mostrar como evitar a angústia, a irritação e outros percalços que costumam nos tirar do sério. Mesmo tendo sido escrito há centenas de anos, o livro é muito atual e ainda nos convida a reflexão.

Por exemplo, no tópico Fugir a Agitação estéril, Sêneca nos diz:
" ...A primeira coisa a evitar é desperdiçar nosso esforço ou em objetos inúteis ou de maneira inútil: quero dizer. imaginar ambições irrealizáveis ou reparar um pouco tarde, uma vez satisfeitos nossos desejos, que nos esforçamos sem proveito. Em outras palavras, evitemos de um lado os esforços estéreis e sem resultado, e de outro lado os resultados desproporcionados ao esforço. Pois é quase certo que nosso humor se entristeça, seja depois de um insucesso, seja depois de um sucesso do qual nos temos de envergonhar...

...Este é também o pensamento de Demócrito (filósofo grego), quando ele começa nestes termos:
Quem quiser viver com alma tranqüila não deve ter muitas ocupações: nem de ordem particular nem de ordem pública. Trata-se aqui naturalmente de ocupações inúteis, pois, desde que elas são necessárias, devemos, tanto particulares como públicas, ter não somente muitas, mas inúmeras; ao contrário, quando nenhum dever imperioso nos ordena, devemos saber reprimir nossa atividade. Pois quem multiplica suas ações se expõe a cada instante à sorte. Ora, o mais certo é provocá-la o menos possível, mas pensar nela sem cessar, sem jamais confiar na sua constância...

Eis que isto nos leva a dizer que nada acontece ao sábio contra sua expectativa: não o subtraímos das desgraças humanas, mas sim dos vícios humanos; e todas as coisas lhe sucedem não conforme seus desejos, mas conforme suas previsões. Ora, o que ele prevê, antes de tudo, é que os obstáculos podem sempre opor-se aos seus projetos. Não é, pois, evidente que o pesar causado por uma decepção é bem menos sensível quando não se prometeu antecipadamente o sucesso com segurança?"

Voltarei a Sêneca em outros posts.

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domingo, 27 de maio de 2007

Filosofia para o dia-a-dia

Costumo visitar a banca de jornais uma vez por semana. Normalmente aos sábados. Religiosamente compro a Carta Capital e mais alguma revista que me emocione. São raras, aliás. Duas revistas espanholas de história e a mensal Vida Simples costumam ser as poucas exceções. Às vezes levo uma Rolling Stones, a Caros Amigos, a Época Negócios ou mesmo a Época (esta mais raramente). Cansei de gastar dinheiro com revistas com pautas fracas, abordagens superficiais e muitas vezes com viés político, como a Veja e a Exame. Por isso, decidi só comprar o que me dá prazer na leitura. E a Vida Simples é uma delas. Não que adore todas as edições. Acho que há um descompasso nas pautas, o que faz alguns números serem muito bons e outros medianos. Mas mesmo assim, na média, não ofende e sempre tem algo de interessante.

Mas toda esta volta é para citar um DVD que a revista acaba de lançar. Na minha visita à banca, esbarrei no produto da Vida Simples chamado "Filosofia para o dia-a-dia". Já está à venda o primeiro número (são dois) que aborda em três capítulos "Sêneca e a raiva", "Schopenhauer e o amor" e "Montaigne e a auto-estima". Tudo baseado na obra do escritor suíço Alain de Botton, que tenta em sua trabalho levar a filosofia para o cotidiano das pessoas. Claro que por ser filmes de 24 minutos não é possível uma abordagem muito profunda, mas o pouco que oferece já é muito estimulante e vale pagar os 30 reais pedidos.

Não vi todo o DVD ainda. Consegui assistir a dois dos três capítulos. Alain apresenta o documentário e procura mostrar quem é o filósofo abordado, contextualizar a obra dentro do período em que viveu e como podemos aplicar aquele pensamento em nosso dia-a-dia. No caso de Sêneca, por exemplo, a raiva vem da nossa necessidade de querer que o mundo funcione à nossa maneira. Por isso, temos que estar sempre preparados para quando as coisas fujam do controle. Prever o que pode dar errado faz com que nossa irritação seja bem menor e não nos frustremos. No trânsito, por exemplo, saber que existem motoristas barbeiros e que a qualquer momento vc pode ser fechado por um deles elimina a raiva quando isso realmente acontece.

Ver o documentário dá vontade de ir mais fundo no tema, comprar livros, pesquisar na internet etc. O problema é que muitas vezes esta busca acaba sendo frustrante porque quem fala ou escreve sobre o tema pode não ter o mesmo didatismo de Alain de Botton e aí alguns conceitos são quase impenetráveis. Mas só o fato de o DVD instigar a querer saber mais sobre temas filosóficos já é um grande mérito.

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sexta-feira, 11 de maio de 2007

Mais bem-aventurança

No post especial desta sexta, volto ao tema da bem-aventurança. É um conceito poderoso para mim que estou nesta busca pessoal. Começo um novo momento em minha vida e estou na expectativa que as portas se abram, que o poder de atração não me abandone e que tudo dê certo. Acredito que minhas vibrações estejam positivas. Torçam por mim!
Bom, hoje vou mencionar aqui um outro trecho de Joseph Campbell explicando a bem-aventurança no livro O Poder do Mito. No final, coloquei links para outros posts que abordam esta obra e têm mais partes interessantes transcritas. Clicando no marcador bem-aventurança você pode ler todos de uma vez. Boa leitura.

"CAMPBELL:...Voltei da Europa, como estudante, em 1929, exatamente três semanas antes da quebra da Bolsa de Nova Iorque, de modo que fiquei desempregado por cinco anos. Simplesmente não havia emprego. Para mim foi um período esplêndido.

MOYERS: Esplêndido? O auge da Depressão? O que havia de maravilhoso nisso?

CAMPBELL: Eu não me sentia pobre, apenas sabia que não tinha dinheiro. As pessoas eram muito boas umas com as outras, naquele tempo. Por exemplo, descobri Frobenius, que de repente me entusiasmou, e eu quis ler tudo o que ele tinha escrito. Então simplesmente fiz a encomenda a uma livraria que tinha conhecido, em Nova Iorque, e eles me enviaram os livros, dizendo que não precisava pagar, até conseguir emprego - o que aconteceu quatro anos depois.
Havia um velhinho maravilhoso, em Woodstock, que tinha uma propriedade com uns poucos quartinhos que ele alugava por vinte dólares ao ano, pouco mais, pouco menos, a qualquer jovem que, na opinião dele, tivesse algum futuro nas artes. Não havia água corrente, apenas aqui e ali um poço e uma bomba. Ele dizia que não mandava instalar água corrente porque não gostava do tipo de gente que isso atraía. Foi lá que realizei a maior parte das minhas leituras básicas. Foi esplêndido. Eu estava no encalço da minha bem-aventurança.
Bem, eu cheguei a esta idéia de bem-aventurança porque em sânscrito, a grande linguagem espiritual do mundo, há três termos que representam a margem, o trampolim para o oceano da transcendência: Sat, Chit e Ananda, A palavra Sat significa "ser"; Chit significa "consciência"; Ananda significa "bem-aventurança" ou "enlevo". Pensei: "Não sei se minha consciência é propriamente consciência ou não; não sei se o que entendo pelo meu ser é o meu próprio ser ou não; mas sei onde está o meu enlevo. Então vou apegar-me ao meu enlevo, e isso me trata tanto a minha consciência como o meu "ser". Creio que funcionou.

MOYERS: Será que chegamos a saber a verdade? Será que chegamos a encontrá-la?

CAMPBELL: Cada um possui a sua própria profundidade, a sua própria experiência, e alguma convicção quanto a estar em contato com sua própria sat-chit-amanda, seu próprio ser, através da consciência e da bem-aventurança. Os religiosos dizem que não chegamos a experimentar verdadeiramente a bem-aventurança antes de morrermos e irmos para o céu. Mas eu acredito em atingir o máximo possível dessa experiência enquanto estamos vivos.

MOYERS: A bem-aventurança é agora.

CAMPBELL: No céu, você terá um enlevo tão maravilhoso contemplando Deus que nem terá condições de se dedicar à sua própria experiência. O céu não é o lugar para ter essa experiência - o lugar para ela é aqui.

MOYERS: Você já teve a sensação, como eu tenho às vezes, ao perseguir a sua bem-aventurança, de estar sendo ajudado por mãos invisíveis?

CAMPBELL: O tempo todo. É milagroso. Tenho até mesmo uma superstição, que se desenvolveu em mim como resultado dessas mãos invisíveis agindo o tempo todo, a superstição, por exemplo, de que, pondo-se no encalço da sua bem-aventurança, você se coloca numa espécie de trilha que esteve aí o tempo todo, à sua espera, e a vida que você tem que viver é essa mesma que você está vivendo. Quando consegue ver isso, você começa a encontrar pessoas que estão no campo da sua bem-aventurança, e elas abrem as portas para você. Eu costumo dizer: Persiga a sua bem-aventurança e não tenha medo, que as portas se abrirão, lá onde você não sabia que havia portas.

MOYERS: Você já sentiu simpatia pelo homem que não dispõe desse tipo de apoio invisível?

CAMPBELL: Quem não tem esse tipo de apoio? Bem, esse é o tipo que evoca compaixão, o pobre coitado. Vê-lo tropeçando, desajeitado, quando todas as águas da vida estão exatamente ali, ao alcance da mão, realmente desperta piedade.

MOYERS: As águas da vida eterna estão exatamente ali? Onde?

CAMPBELL: Onde quer que você esteja, se estiver no encalço da sua bem-aventurança, você estará desfrutando aquele frescor, aquela vida intensa dentro de você, o tempo todo.

Livro: O Poder do Mito - editora Palas Athena - páginas 126, 127 e 128

Veja abaixo outros links para posts sobre Joseph Campbell, O Poder do Mito e a bem-aventurança:
Especial de sexta
Em busca da bem-aventurança

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terça-feira, 24 de abril de 2007

Em busca da bem-aventurança

Um dos motes deste blog é a máxima de Joseph Campbell que pode ser lida aqui no canto superior direito. Confesso que ainda estou em busca das minhas portas e atrás de algo que me emocione. É muito frustrante não ter nada que empolgue e que dê prazer de ser feito. Talvez seja este blog, talvez seja dar aulas de reforço em escolas públicas... Ainda não sei. Estou precisando de um gps de dharma (a minha natureza autêntica). Enquanto estou afundado em dúvidas e indagações fica aqui uma sugestão: vale uma olhada na reportagem de capa da revista Vida Simples deste mês. O tema é justamente as rupturas de um ciclo para ir atrás de um sonho, de algo melhor, que vá de encontro à sua natureza, à sua busca pessoal. Mesmo que isso signifique perdas materiais (não ganhar um bom salário, não ter um emprego estável etc). Uma reportagem muito motivadora. Abaixo trechos do texto e link para ler na íntegra:

"Negar a própria “bem-aventurança”, como dizia o mitólogo norte-americano Joseph Campbell, ou tornar-se surdo diante dos apelos da alma pode trazer conseqüências até para o organismo. “Os conflitos internos vão aumentando, a pessoa é tomada pelo desânimo, depressão e cansaço, a energia pára de fluir – e isso explode num sintoma físico”, diz a psicóloga Regina Nanô. Irritabilidade excessiva, gastrite, constipação, enxaquecas ou infecções freqüentes... É preciso prestar atenção tanto no corpo quanto no coração: será que não estão dizendo à razão que é hora de recomeçar?"

"Se você passou boa parte de sua existência vivendo para os outros e sem contato consigo mesmo, o espanto será imenso: quem é essa pessoa? Porém, se aprendeu a respeitar seu dharma (termo hindu que designa nossa natureza autêntica, essa condição singular e única que nos faz ser quem somos), as perdas aparentes serão, na verdade, ganhos.

“O dharma não muda. A necessidade de mudança e de dizer adeus a pessoas e situações indica o quanto estamos nos afastando ou nos aproximando dele”, diz Carlos Eduardo Barbosa, estudioso da Índia e professor de sânscrito em São Paulo. Assim, quanto mais sintonia houver entre seu cotidiano e seu dharma, menos despedidas existirão. “Uma pessoa que age em coerência com seu chamado interior não precisa dizer adeus”, diz. Ela já vive a própria escolha, sempre. “A vida dá umas puxadinhas aqui e ali para que voltemos ao nosso caminho.”

Leia a reportagem completa

Joseph Campbell explica a bem-aventurança

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domingo, 15 de abril de 2007

O que é a verdade?

O físico Marcelo Gleiser toca em seu artigo de hoje na Folha de S. Paulo em um ponto importante: além de toda a subjetividade humana, o que é real ou não? Fiquei fascinado com o texto porque é uma perspectiva que venho analisando faz tempo e até já mencionei em um dos primeiros posts deste blog. Aliás, o tema desta página pessoal, Só sei que nada sei, está totalmente focado neste conceito. Por isso, reproduzo abaixo e com toda a reverência possível um trecho do texto de Gleiser:
"A coisa fica complicada quando se discute, por exemplo, a realidade física. O Universo, ou melhor, nossa concepção dele, mudou muito nos últimos 500 anos. Para uma pessoa da Renascença, antes de Nicolau Copérnico (1473-1543), o cosmo era finito, com a Terra imóvel no centro. O céu, a morada de Deus, ficava além da esfera das estrelas fixas. Era ela que marcava o fim do espaço. Após Copérnico e, principalmente, após Johannes Kepler (1571-1630) e Galileu Galilei (1564-1642) nas primeiras décadas do século 17, o Sol passou a ser o centro do cosmo e a Terra um mero planeta. O que era "verdade" para alguém de 1520 não era para alguém de 1650. E o universo em que vivemos hoje, gigantesco, com centenas de bilhões de galáxias se afastando uma das outras, é completamente diferente do de uma pessoa de 1650. Qual dessas várias cosmologias é verdadeira? Todas e nenhuma delas. Se definimos como verdade o que construímos com o conhecimento científico que detemos num determinado momento, todas essas versões são verdadeiras. Mas nenhuma delas é a verdade. Dado que jamais poderemos medir com absoluta precisão todas as facetas do cosmo e da Natureza, é essencialmente impossível obter uma versão absoluta do que seja a realidade física. Consequentemente, a ciência jamais poderá encontrar a verdade. O que podemos fazer - e o fazemos maravilhosamente bem - é usar nossa razão e nossos instrumentos para nos aproximar cada vez mais dessa verdade intangível. É essa limitação que enobrece a ciência, dando-lhe sua dimensão humana."

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quinta-feira, 29 de março de 2007

No ombro de gigantes - Joseph Campbell

"Nunca fiz aquilo que queria, em toda a minha vida". Esta frase foi uma das muitas revelações que tive ao me deparar com a obra de Joseph Campbell. Livros e filme O Poder do Mito causaram uma revolução na minha cabeça. A parte sobre os mitos e religião, estudadas a fundo por ele, me ajudaram a encontrar algumas das respostas que procurava e que serão abordadas aqui no futuro (procure os posts com o marcador jornada). Mas a missiva atual é sobre a frase que inicia o texto. Campbell mencionava a obra de Sinclair Lewis, chamada Babbitt, na qual o personagem principal terminava o livro com esta constatação desoladora. Para Campbell só havia bem-aventurança para aqueles que perseguiam seus sonhos. "Que tipo de vida é essa? Que tipo de sucesso é esse que o obrigou a nunca fazer nada do que quis em toda a sua vida? Eu sempre recomendo aos meus alunos: vão aonde o seu corpo e a sua alma desejam ir. Quando você sentir que é por aí, mantenha-se firme no caminho, e não deixe ninguém desviá-lo dele". Joseph Campbell será personagem recorrente neste blog.

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quarta-feira, 28 de março de 2007

Primeiro post - nada sei

A menção à famosa frase de Sócrates neste blog é antes de mais nada uma humilde deferência à nossa própria ignorância. Vivemos em um mundo em que muitos gostam de exibir suas certezas e convicções. Poucos percebem que às vezes, ou na maioria das vezes, sua opinião é baseada em premissas falsas, argumentos falaciosos, indução etc. É o grande paradoxo de nossos tempos: abundância de informação, mas pouca reflexão. Este blog vai tentar trazer dúvidas, indagações e algumas certezas. Gosto muito da letra da música cantada por Raul Seixas (Metamorfose Ambulante) . Lá pelas tantas ele diz: "prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo". Portanto, mente aberta companheiros!