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terça-feira, 10 de julho de 2007

O Segredo na Galileu

Antigamente a revista Superinteressante conseguia surpreender e antecipar pautas e tendências. Foi assim que surgiram capas matadoras, como a de Buda e Matrix, ou a criação da Vida Simples. Mas a revista perdeu fôlego e se burocratizou. Abriu espaço para a Galileu que na edição deste mês traz ampla reportagem sobre O Segredo. Tudo bem, também demorou para ir atrás deste assunto, mas pelo menos fez alguma coisa.

Li a matéria e foi visível o esforço de tentar levar em consideração todos os lados da questão. Óbvio que o lado "científico" falou mais alto e muitas das teorias apresentadas no filme e no livro são descartadas por cientistas e pesquisadores "sérios". Além disso, a reportagem desdenha perigosamente dos efeitos da vibração. Já disse isso aqui no Branas, mas a noção de Tudo Vibra vai desde o antigo e metafísico Caibalion até a sofisticada matemática da Teoria M. Ou seja, é coincidência demais todo mundo, dos mais variados setores, mencionar esta possibilidade. Um dia alguém vai descobrir como isso funciona na prática, mas o jornalista não viu este aspecto da questão.

Nem cita A Física da Alma de Amit Goswani, que poderia ser um importante contraponto para a física quântica e a consciência, tampouco viu O Ponto de Mutação, de Frijof Capra, no qual mostra que a visão mecanicista a partir de Descartes arruinou nossa sensibilidade e nos enjaulou neste tempo e espaço em que vivemos. Se tivesse lido, não seria tão duro com as idéias de uma visão mais próxima da natureza e que estamos todos interligados, como os antigos, com suas práticas pagãs, e os animistas (a natureza tem alma) acreditavam.

Um dos pontos positivos da reportagem é a análise de como O Segredo conseguiu este sucesso todo. "Tanto naquele tempo (século 19) quanto hoje, há uma categoria de céticos que gostariam de acreditar numa mudança possível, mas para quem o lado esotérico da religião não fornece as respostas mais convenientes. Para chegar a eles, alguns autores queriam - e continuam querendo - mostrar que a auto-ajuda pode não ser uma questão de fé, mas sim algo diferente e que pode ser comprovado objetivamente..."

O artigo cita o antropólogo inglês Andrew Dawson, da Universidade de Lancaster, "As pessoas da nossa época são fascinadas com a ciência. Ela é vista como a aplicação prática de um conhecimento que é altamente eficiente e que proporciona sempre o efeito desejado. Os adeptos da new age acreditam que, se realizarem corretamente certos rituais e práticas específicos, encontrarão as respostas pelas quais procuram. A ciência oferece à new age um modelo no qual se espelhar".

Enfim, mesmo com as lacunas e um tremendo viés cartesiano, não deixa de ser uma reportagem interessante e que ajuda a debater este fenômeno que é a Lei da Atração e o O Segredo.

Leia outros posts sobre este assunto:
Lei da Atração - primeira parte
Lei da Atração 2
Lei da Atração 3
Você acredita na Lei da Atração?
Alimente os Grandes Sonhos
Lei da Atração na prática
Ainda O Segredo - sobre a reportagem na Veja
Tudo vibra
O Caibalion


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domingo, 17 de junho de 2007

Branas e as novas dimensões

O físico Marcelo Gleiser toca, em sua coluna na Folha de hoje, em um assunto que é muito caro a este blog: "as dimensões do espaço e como saber se a nossa percepção da realidade não é enganosa? ". O texto é muito esclarecedor e didático mesmo para quem ainda não conhece as últimas novidades da física, principalmene as que envolvem a Teoria das Cordas e a Teoria M. Os dois temas já foram abordados neste blog (ver abaixo alguns links). O texto de Gleiser é uma boa introdução e acredito que esta história, quando comprovada, ainda vai nos fazer compreender melhor questões metafísicas que por enquanto carecem de uma leitura mais científica. Esperemos viver para ver este momento. Enquanto isso, aproveitem o texto do físico:

"Quantas dimensões espaciais existem? "Fácil", diria o leitor, "são três: comprimento, largura e altura. Ou, se você preferir, norte-sul, leste-oeste e a vertical". Sem dúvida, são essas as dimensões que percebemos no nosso dia-a-dia, as dimensões em que nos locomovemos. Mas será que é só isso? E se existirem dimensões que são invisíveis aos nossos olhos, ou mesmo microscópicas, por serem muito pequenas? Como se certificar de que nossa percepção da realidade não é enganosa? Dou um exemplo. Imagine uma mangueira num jardim. De perto, a mangueira é um cilindro bem longo, tendo duas dimensões: seu comprimento e sua circunferência. Uma formiga pode tanto andar ao longo da mangueira quanto dar voltas ao seu redor. Mas, de longe, a mangueira vai se parecendo cada vez mais com uma linha e menos com um tubo. Perdemos a percepção de que ela tem também uma largura. Bem de longe, a mangueira é indistinguível de um objeto com uma dimensão apenas, seu comprimento. Nem sempre nossa percepção da dimensionalidade do espaço corresponde à realidade. Tudo depende de perspectiva e da precisão dos nossos instrumentos de medida.

Como dizia o filósofo francês do final do século 17 Bernard Le Bovier de Fontenelle, queremos sempre saber mais do que enxergamos. A filosofia (leia-se busca pelo conhecimento) é conseqüência da combinação da nossa curiosidade com nossa miopia. Voltando às dimensões do espaço, talvez sejamos apenas míopes. Em matemática, pensar sobre dimensões extras é relativamente simples. Basta adicioná-las às equações descrevendo às propriedades do espaço. Essa é uma das maravilhas da matemática, nos fornecer meios de especular sobre realidades imaginárias, cuja estrutura depende apenas de consistência lógica, sem qualquer compromisso com a realidade. Mas em física a coisa é diferente.

As ciências físicas têm como missão descrever a realidade natural, além das aparências ou das especulações. Podemos especular sobre quantas dimensões espaciais existem, mas a realidade é uma só. A física busca por uma descrição da realidade cada vez mais completa. A idéia de que existem dimensões extras surgiu em 1919. O físico-matemático alemão Theodor Kaluza sugeriu que duas forças fundamentais da natureza, a gravidade e o eletromagnetismo, são, na verdade, uma só quando vistas em um espaço de quatro dimensões espaciais. Ou seja, ilhados na nossa percepção da realidade, limitada à três dimensões, deixamos de vislumbrar a unidade fundamental que existe na natureza. Essa idéia tem um apelo que vai além do científico. Hoje, físicos continuam a formular teorias de unificação das forças em espaços com mais de três dimensões.

Desde a época de Kaluza, foram descobertas mais duas forças fundamentais, as forças nucleares forte e fraca, que atuam no interior do núcleo atômico. Para acolher essas duas novas forças, segundo as teorias atuais, são necessárias nove dimensões espaciais, seis a mais do que as que percebemos. Onde estão elas? Se existem, são muito pequenas para serem percebidas, mesmo com nossos microscópios mais poderosos. Existe a possibilidade, remota, de que seus efeitos sejam medidos em uma máquina gigantesca prestes a entrar em funcionamento na Suíça, um acelerador de partículas conhecido como LHC, que já mencionamos em outras colunas. Caso não sejam, provavelmente serão décadas até que possamos testar essa idéia. No meio tempo, é bom lembrar de que o que vemos é apenas a pequena parte da realidade. "

Alguns posts e links sobre o assunto:
Branas para leigos
Entrevista com a física Lisa Randall
Marcelo Glesiser e a Teoria das Cordas
Resenha da revista Ciência Hoje sobre o livro Universo Elegante
LHC (o acelerador do CERN) é explicado de forma didática no site do Rede Nacional de Ensino e Pesquisa

Pesquise no Buscapé preços de livros de Marcelo Gleiser, Lisa Randall, da obra Universo Elegante e demais publicações sobre a teoria das cordas

segunda-feira, 30 de abril de 2007

Branas para leigos como eu

Mas, afinal, o que é a teoria das cordas? O que são as branas? Já li muita coisa por aí sobre este assunto árido, mas ao mesmo tempo empolgante. Vou tentar fazer neste post um apanhado geral para que leigos como eu consigam ter uma idéia aproximada desta bela teoria. No entanto, este conceito revolucionário ainda não passa de uma "quase-filosofia" baseada em fórmulas matemáticas elegantes, porém sem uma mísera comprovação científica. O quadro pode mudar quando estiver em operação na Europa o acelerador de partículas CERN, que, se tudo correr bem, começa a funcionar este ano.
A nossa história começa quando os físicos no meio do século XX tentam unificar duas teorias: a da relatividade e a quântica. Uma explica com perfeição as forças que agem em nosso dia-a-dia e no mundo macro. A outra, pode ser aplicada apenas na dimensão dos átomos. Einstein morreu sem conseguir decifrar o enigma que durante muitos anos atormentou gerações de físicos.
Nesta busca do Santo Graal unificador, surgiu o Modelo Padrão, que conseguia juntar, a grosso modo, partículas fundamentais como eletromagnetismo e cromodinâmica quântica, mas falhava miseravelmente ao tentar colocar no caldeirão outra força indispensável que é a gravidade.
Daí surgiu a Teoria das Cordas. Saem de cena as partículas e entram as cordas (ou filamentos). A idéia central é que tudo no universo, inclusive eletricidade e gravidade, tem origem a partir de pequenas e vibrantes fibras de energias. Dentro do quark, que seria a menor partícula, existiriam as cordas.
Essas cordas vibram em diferentes freqüências formando inúmeros padrões que vão criar as partículas fundamentais que conhecemos na natureza. Ou seja: tudo no universo, toda a matéria, teria como base as cordas.
Porém, a partir deste conceito, surgiram muitas teorias no estilo "mais do mesmo". Para colocar ordem, veio a solução unificadora que perdura até hoje: a teoria M. Claro que mais portas heterodoxas foram abertas para acomodar este raciocínio. Para tudo fazer sentido e as equações matemáticas baterem, precisamos de 11 dimensões. Isso mesmo: onze!
Em nosso mundo conhecemos três dimensões: esquerda-direita (largura), frente e atrás (profundidade) e em cima e embaixo (altura). As demais dimensões não poderiam ser vistas por nós. Porém, as idéias bizarras não terminaram por aí.
Ainda dentro da teoria M, algumas cordas aumentam de tamanho de maneira gigantesca formando membranas, que foram rebatizadas de Branas. Uma brana pode ser tridimensional ou até ter mais dimensões. Segurem-se que agora vem a parte radical: algumas têm tanta energia e crescem tanto que viram um universo...
No filme Universo Elegante, baseado na obra do físico Brian Greene (que também apresenta o documentário), há uma imagem muito boa que reproduzo também aqui: imaginem um pão de forma fatiado. Cada fatia destas seria uma brana com um universo próprio. Teríamos, portanto, vários universos e seríamos parte de um deles.
As partículas de cada universo não conseguiriam atravessar as branas (com exceção da gravidade, que veremos mais adiante). Portanto, não existe uma ligação possível entre um universo e outro. A partir desta idéia, surge outra possibilidade: o choque entre as branas poderia dar início ao Big Bang. Também neste caso a teoria não conseguiu fechar todas as pontas e os físico e matemáticos ainda precisam gastar mais fosfato para encontrar uma solução satisfatória. De qualquer maneira, isso explicaria o que causou a tal explosão fundamental, o que existia antes dela e deixa no ar uma questão inquietante: poderíamos a qualquer momento ser vítimas de outro choque de branas e explodirmos em novo Big Bang. Radical, não?
Agora a questão de um milhão de dólares: como provar tudo isso? Por enquanto, só temos uma bela teoria. Porém, nada foi comprovado de maneira cartesiana, o que causa um embaraço desgraçado no meio científico. Algumas possibilidades estão sendo tentadas no acelerador de partículas Fermilab, nos EUA, e outras tantas vão ser testadas no maior acelerador de todos que está sendo construído na Europa e deve funcionar até o final de 2007. O CERN será 7 vezes mais potente que seu "co-irmão" americano.
Uma pista seguida por nossos "físicos CSI" é a gravidade. Das forças fundamentais da física a que sempre intrigou os físicos era a gravidade e sua discrepância frente ao eletromagnetismo. Ninguém sabia o motivo pelo qual a gravidade era mais fraca. Agora, com a Teoria M pode existir uma explicação. Como tudo é feito de cordas, a gravidade teria o graviton como seu filamento base. Diferentemente de outras cordas, esta seria fechada e solta. Não ficaria presa à brana como as demais. Ou seja: poderia fluir de uma brana para a outra. Com isso a força da gravidade seria menor porque ficaria diluída em outros universos. Alguns gostam de extrapolar e sonham com comunicação por ondas gravitacionais entre os universos...
Mas voltando aos experimentos científicos, a primeira possibilidade é ver se em choque de partículas a força conhecida como graviton some. Se desaparecer, isso pode indicar que foi para outro universo ou dimensão. Uma prova circunstancial como essa diminuíria um pouco o ceticismo quanto à Teoria M.
Outro experimento é encontrar a supersimetria que também faz parte central da teoria M. Para cada partícula subatômica (elétron, próton, gravitons, fóton) deve existir um parceiro muito mais pesado chamado sparticle (ou superparceiras). Um elétron, por exemplo, teria um Selétron como companheiro de simetria. Como os sparticles são muito pesados, os aceleradores de partículas atuais não conseguem vê-los, mas o CERN poderá revelar isso.
Se tudo isso der errado? Bom, com certeza será o maior fiasco científico de todos os tempos. Contudo, todos os envolvidos, em maior ou menor grau, concordam que será uma surpresa se as sofisticadas teorias matemáticas que compõem a Teoria das Cordas, a Teoria M e as branas não se provarem corretas. De qualquer forma, a única certeza, pegando emprestada outra imagem do documentário, é que o Universo poderá ser mais estranho do que qualquer um já imaginou.

Alguns links interessantes:
Entrevista com a física Lisa Randall
Marcelo Glesiser e a Teoria das Cordas
Resenha da revista Ciência Hoje sobre o livro Universo Elegante
You tube tem alguns dos capítulos da série Universo Elegante, mas sem legendas
DVD-R da série Universo Elegante e com legendas pode ser comprado no Brasil
LHC (o acelerador do CERN) é explicado de forma didática no site do Rede Nacional de Ensino e Pesquisa

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Teorias das cordas - uma entrevista

Resgatei esta entrevista esclarecedora da física Lisa Randall à revista Ciência Hoje. Ela toca em temas como supersimetria, teoria das cordas, branas com muito didatismo e pode ajudar os leitores deste blog a entenderam um pouco mais este interessante assunto. No final da entrevista colquei links que detalham mais alguns dos temas abordados. Boa leitura.


Há pelo menos 80 anos, tem-se buscado o ‘graal’ da física moderna: a unificação da gravitação com as outras três forças fundamentais do universo – a eletromagnética, que atua entre cargas elétricas e responde, por exemplo, pelo atrito entre os corpos; a forte, que mantém os núcleos atômicos coesos; e a fraca, que está por trás de certos fenômenos radioativos. O melhor candidato da atualidade para esse posto é a teoria de supercordas, que postula que as partículas fundamentais que compõem a matéria são, na verdade, vibrações de uma entidade física com dimensões minúsculas (10-33 cm), a corda. O prefixo ‘super’, no caso, significa supersimetria, ou seja, cada partícula (elétrons, quarks, neutrinos etc.) teria um parceiro, a partícula supersimétrica. Em 1999, essa busca pelo que se convencionou chamar ‘teoria de todas as coisas’ ganhou velocidade com a publicação de dois artigos da física norte-americana Lisa Randall e de seu colega Raman Sundrum. Os trabalhos de Randall tornaram-se os mais citados da física teórica dos últimos cinco anos. Randall é também uma ativa divulgadora de ciência. Seu primeiro e único livro de divulgação, Warped passages: unraveling the mysteries of the universe’s hidden dimensions (‘Passagens distorcidas: desvendando os mistérios das dimensões ocultas do universo’, ainda sem tradução), trata da possibilidade de o universo ter mais de três dimensões espaciais. Professora catedrática da Universidade Harvard (Estados Unidos), Randall esteve no Rio de Janeiro no mês passado para dar uma série de palestras. Confira a entrevista exclusiva concedida à Ciência Hoje. Por Fred Furtado e Cássio Leite Vieira

Na teoria de supercordas, o universo tem mais que as três dimensões espaciais nas quais vivemos. Onde estão as demais?
Essa questão é alvo de intensa pesquisa atualmente.
Por cerca de 80 anos, acreditou-se que elas tivessem
de ser muito pequenas – tão pequenas a ponto de
não podermos enxergá-las – e dobradas de modo simples
ou complexo. Também se descobriu que há a
possibilidade de as dimensões extras estarem extremamente
distorcidas ou curvadas, de forma que,
mesmo se elas forem infinitas, não as consigamos
ver. Ou seja, elas estão escondidas de uma maneira
que não afeta a escala na qual são feitos os experimentos
até agora. Isso não significa que, no futuro,
essas dimensões não poderão ser detectadas.

Por que a teoria necessita de dimensões extras?
Todos querem uma resposta fácil para essa pergunta,
mas ela é sutil. Essencialmente, a teoria seria
instável sem essas dimensões extras. Dito de outro
modo, não conseguiríamos fazer os cálculos necessários,
e ela, portanto, não faria sentido.

Por que 10 dimensões espaciais?
No início, pensava-se que eram nove. Agora, no entanto,
já se acha que talvez sejam 10. Mas isso depende
de a interação das cordas ser muito forte ou
muito fraca. Em outras palavras, às vezes uma teoria
de 10 dimensões é equivalente a outra de 11, mas
com outros valores de parâmetro. Agora, o porquê
desse número específico se deve a um fato matemático:
é o único que faz sentido para a teoria.

E por que só uma dimensão é temporal?
Na teoria das supercordas, já se considerou mais de
uma, mas a questão é que, de novo, esse tipo de teoria
é instável. Parte da razão para isso é intuitiva: se
houver mais de um tempo, nossas noções de física se
desfazem, e ocorre todo tipo de paradoxo.

Como se pode obter evidência direta da existência
dessas dimensões extras?
Há duas maneiras. A primeira tem a ver com o fato
de que a gravidade parecerá diferente em certas escalas
de energia. Ou seja, se elas existirem, a gravidade
poderia se espalhar por mais dimensões espaciais,
além das três conhecidas, e a maneira como
ela, a gravidade, varia segundo a distância depende
disso. A segunda maneira abrange as partículas fundamentais,
que, ao se moverem por essas novas dimensões,
apareceriam para nós como novos tipos de
partículas cujas massas dependeriam da geometria
desse espaço multidimensional.

Quando se menciona dimensões extras, as pessoas
costumam pensar em universos paralelos, terras
alternativas etc. Elas são as mesmas coisas?
Já dei muitas palestras públicas e, realmente, as pessoas
fazem todo tipo de pergunta. Muitas delas parecem
querer que seus problemas sejam resolvidos
pelas dimensões extras. Mas o que nós, físicos, fazemos
é tentar ver quais teorias são consistentes com
as leis da física que conhecemos. Algumas pessoas
acreditam na chance de existirem universos paralelos.
Pessoalmente, acho isso improvável. Contudo, o
conceito de universos paralelos existe na física, mas
com um sentido diferente: o de que poderia haver
universos completamente diferentes do nosso, existindo
em algum lugar das outras dimensões. Eles
teriam uma química e uma física totalmente diferentes
das nossas. É uma possibilidade real, caso
haja dimensões extras.

A senhora e o físico Raman Sundrum escreveram
um artigo em 1999 que se tornou um clássico
da teoria das supercordas e talvez seja o trabalho
mais citado desse novo campo. A senhora poderia
explicar as idéias por trás desse estudo?
Na verdade, tivemos dois artigos que ficaram famosos.
Um deles, que era mais relacionado à teoria das
supercordas, abordava uma maneira pela qual uma
dimensão extra poderia estar oculta. Mostramos que
se pode ter uma dimensão extra mesmo infinita em
tamanho, se o espaço-tempo [uno quadridimensional,
que reúne as três dimensões espaciais e o tempo,
sendo este a quarta dimensão] for curvado ou distorcido
de uma determinada maneira. O que descobrimos,
um pouco acidentalmente, foi que, em uma
configuração específica do espaço extradimensional,
a gravidade está localizada em uma região diminuta.
Mesmo que, em princípio, a gravidade pudesse
estar em qualquer lugar, na prática ela estaria
altamente concentrada, tão concentrada a ponto de
parecer que há menos dimensões do que realmente
há, pois ela não estaria se espalhando para as outras.

A teoria das supercordas implica a supersimetria.
Isso quer dizer que haverá diversas novas
partículas. Cada partícula hoje conhecida teria um
parceiro supersimétrico. Qual dessas a senhora
acredita que será a primeira a ser detectada pelo
LHC [Grande Acelerador de Hádrons] em 2007?

Primeiramente, não temos certeza de que qualquer
parceiro supersimétrico das partículas que conhecemos
atualmente será descoberto pelo LHC. A razão
é a escala na qual a supersimetria se ‘quebra’
[não se manifesta]. Se isso ocorrer em um nível de
energia alto, as novas partículas serão muito pesadas
para ser observadas no LHC. Mas pode ser que
elas sejam relativamente leves. Nesse caso, as mais
prováveis de serem detectadas são aquelas que têm
interações fortes, como os gluínos, os parceiros supersimétricos
dos glúons, que são mediadores da força
forte nuclear, ou os squarks, parceiros supersimétricos
dos quarks [estes formam, por exemplo, os
prótons e os nêutrons].

Em sua primeira conferência, a senhora mencionou
as branas. O que são elas e como interagem
com o conceito de múltiplas dimensões?
Uma brana – cujo nome vem de membrana – pode
ser uma superfície de poucas dimensões em um espaço
de muitas dimensões. Por exemplo, apesar de
existirem quatro dimensões espaciais, pode ser que
as partículas que conheçamos, como os quarks e os
léptons, estejam limitadas a apenas três delas. Ou
seja, talvez todas as forças, com exceção da gravitação,
só possam ser encontradas nessa brana.

Então, pode haver várias branas?
Sim, mas ainda não temos a resposta. De fato, acho
que isso é uma das coisas frustrantes para os que não
trabalham com física: há muitas possibilidades. Na
verdade, é um pouco frustrante para nós, físicos, também,
mas só começamos a pensar nisso recentemente,
por isso é importante explorar todas as opções.

A senhora explicou em sua conferência, no Rio,
que nós habitaríamos uma brana, enquanto
a gravitação estaria em outra, digamos, paralela.
Quão distantes elas estariam uma da outra?
O intervalo entre as duas é extremamente pequeno.
É bem próximo da chamada escala de Planck [homenagem
ao físico alemão Max Planck (1858-1947)],
uma escala de energia na qual a gravitação é forte.
Isso quer dizer que a distância é de apenas 10-31 cm.
Pode parecer que, por ser tão pequena, essa distância
não tenha qualquer conseqüência, mas o fato é
que ela tem: a gravidade muda radicalmente quando
se vai de uma brana para a outra, tornando-se
exponencialmente mais fraca.

Esse efeito é linear? Se houver outra brana
após a nossa, a gravitação seria mais fraca ainda?
Sim, exponencialmente mais fraca. O que ocorreria,
na verdade, é que as massas se tornariam mais
leves, o que, no final das contas, tem o mesmo efeito,
pois a gravitação está relacionada a quão pesadas ou
energéticas são as coisas.

Então, a razão pela qual a gravitação
é mais fraca é o fato de o gráviton, a partícula
que mede essa força, ‘habitar’ outra brana?

Isso é mais ou menos correto. O que acontece é que
a gravitação é, em realidade, parte do espaço-tempo
de cinco dimensões, mas nós pensamos que vivemos
em quatro dimensões, três espaciais e uma temporal.
Logo, a gravitação que sentimos em nosso universo
é apenas a projeção, em menos dimensões, da
força original, que habita essa outra brana.

Einstein publicou sua teoria da relatividade geral
em 1916. Na década de 1920, surgiram as primeiras
teorias em que se propunha uma dimensão
espacial extra. Por um tempo, chegou-se a acreditar
que elas unificavam o eletromagnetismo
e a gravidade. Entretanto, isso não se mostrou
verdadeiro. Por que tem sido tão difícil unificar
as quatro forças do universo desde então?
A gravitação é um pouco diferente porque a escala
de energia em que ela pode ser unificada é distinta
daquela na qual as outras forças se unificam. No
entanto, no contexto das dimensões extras, isso pode
acontecer. Um dos problemas é que, com a unificação,
espera-se o surgimento de novas forças e partículas,
que não conseguimos detectar. Outra dificuldade
é explicar como se pode ter diferentes massas
para diferentes partículas.

Que tipo de descoberta do LHC traria o selo
de ‘aprovado’ para a sua teoria e a de supercordas?
As supercordas não serão comprovadas com o LHC,
mas a supersimetria talvez seja, se formos capazes
de ver os parceiros supersimétricos de partículas
conhecidas. Se minha teoria sobre a baixa intensidade
da força gravitacional estiver correta, então poderemos
detectar partículas de Kaluza-Klein, que
são os parceiros do gráviton, que viajam pelas dimensões
extras. De fato, é possível que o glúon também
se propague por essas dimensões. Nesse caso,
ele também teria um parceiro passível de detecção.
Esse cenário é parte do meu trabalho atual.

O universo está inundado por componentes
estranhos chamados matéria e energia escuras.
Sua teoria explicaria esses mistérios?
A matéria escura é mais fácil de entender nessas
teorias. Na supersimetria, esse componente poderia
ser a partícula supersimétrica mais leve. Se há dimensões
extras, então há vários candidatos para o
papel de matéria escura. Quanto à energia escura,
ninguém ainda entende bem o que ela é. Eu gostaria
de ver uma explicação que levasse em conta dimensões
extras, mas ela ainda é um mistério.

Unificar as quatro forças fundamentais
do universo significa, de certo modo,
unificar a relatividade geral, uma teoria para
a escala do macro, com a mecânica quântica,
a teoria do micro. O físico Roger Penrose afirma que,
para que isso ocorra, a mecânica quântica terá
que ser modificada. Já o físico Stephen Hawking
defende que a alteração deverá ser na relatividade.
Qual a sua opinião?
Creio que é certo que, uma vez que se chegue a altos
níveis de energia, a gravitação será modificada. Isso
é algo que estamos considerando, por exemplo, no
contexto de buracos negros e espaço distorcido: há
casos em que a gravitação se comporta de maneira
distinta. No caso da mecânica quântica, não vejo uma
razão pela qual ela teria de mudar.
Site da revista Ciência Hoje

Alguns links interessantes:
Branas para leigos como eu
Marcelo Gleiser escreve sobre a teoria das cordas
Resenha da revista Ciência Hoje sobre o livro Universo Elegante
You tube tem alguns dos capítulos da série Universo Elegante, mas sem legendas
DVD-R da série Universo Elegante e com legendas pode ser comprado no Brasil
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sábado, 21 de abril de 2007

Tudo vibra

A essência da teoria das cordas é muito instigante. A matéria, na sua essência subatômica, é feita de cordas que vibram em freqüências diversas. Portanto, até o nosso corpo, sem que percebamos, vibra. Ou seja: tudo vibra neste universo. Nas palavras sempre didáticas de Marcelo Gleiser:
"Eis uma breve história das supercordas. Uma das questões mais complexas da física de altas energias é a estrutura dos prótons e de outras partículas parecidas. Prótons são compostos por três partículas menores, chamadas quarks.
O mistério é que ninguém vê quarks livres em experimentos, como vemos prótons ou elétrons. Quarks estão confinados nos prótons, como prisioneiros. Por que isso?
Alguns modelos supõem que os quarks estão ligados por tubos ou cordas. Quanto mais distantes os quarks, mais tensão nas cordas e, portanto, mais difícil é separá-los.
Em meados dos anos 1980, dois físicos resolveram usar essas cordas num projeto bem mais ambicioso. Não para confinar quarks nos prótons, mas como base de uma teoria que unificaria toda a física de altas energias. A idéia é que essas cordas vibram em freqüências diversas, da mesma forma que as cordas de violão.
Cada modo de vibração corresponde a uma energia e essa energia está associada a uma partícula fundamental. Portanto, elétrons seriam na verdade cordas minúsculas vibrando em certa frequência, quarks em outra e assim por diante.
Como em física de altas energias as forças entre as partículas também são partículas (por exemplo, a atração entre cargas elétricas é conseqüência de partículas chamadas fótons), essas cordas fundamentais unificam matéria e força: todas as partículas de matéria e as quatro forças, inclusive a gravidade, são reduzidas a cordas vibrando. É uma bela idéia que atraiu multidões de jovens teóricos."

Leia outros posts sobre este assunto:
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Lei da Atração

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sexta-feira, 20 de abril de 2007

Enfim, Branas

A física quântica, com as ressalvas já feitas em posts anteriores, estava me ajudando a ter uma visão mais ampla da gama de possibilidades de entendimento do universo e outras dimensões. Um belo dia encontrei um dvd com uma série de três programas chamada Universo Elegante, produzida e apresentada pelo físico Brian Greene. Um trabalho admirável e muito didático exibido na TV pública americana. Conta toda a evolução da física moderna, como as teorias de Einstein, a física quântica e o sonho de uma fórmula que unificasse as leis dos mundo atômico com as do mundo físico. Uma das possibilidades de solução para o enigma passaria pela teoria das cordas que depois evoluiu para a Teoria M. A idéia básica (segurem-se na cadeira e lembrem-se que tudo isso é a partir de elocubração séria e formulada por físicos de carteirinha) é que temos 11 dimensões e vivemos em uma delas. Pegando uma analogia mostrada no filme, pense em um pão de forma fatiado. Cada fatia representa um universo e estão bem próximas uma das outras. A camada que as protege seriam as branas (um diminutivo de membranas). Quando as branas se encontram daria início a um big bang dentro daquele universo. Desta forma, os cientistas conseguiram uma fórmula matemática que unificasse a física newtoniana e a física quântica e de quebra ainda explicaram o big bang, como aconteceu e o que exista antes dele. Bom, então não há mais enigma? Voltamos ao velho problema que já temos na física quântica com relação à consciência: provas incontestáveis. Ninguém ainda conseguiu provar no mundo real que a teoria funciona na prática. O laboratório científico europeu CERN deve inaugurar até o final de 2007 um novo acelerador de partículas, que está sendo construído num túnel subterrâneo de 27 Km: o Large Hadron Collider (LHC). A partir do LHC, espera-se provar um dos aspectos da teoria M e talvez a origem do universo. Mas voltaremos ao tema em próximos posts.

Abaixo alguns links interessantes:
Branas para leigos como eu
Entrevista com a física Lisa Randall
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Compare também preços do DVD Quem Somos Nós