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segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Os famintos

De todo o  Sermão da Montanha esta frase talvez seja a mais enigmática: "Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos" (Mateus 5:6). Na transcrição mais coloquial da Bíblia da CNBB, "Felizes os que têm fome e sede da justiça, porque serão saciados.". O que Jesus quis dizer com isso? E lá fomos nós atrás de informações que pudessem elucidar este enigma.
      Uma possível chave é olhar pelo lado reverso da questão, ou seja, a injustiça. E neste quesito o nosso planetinha azul é bem pródigo. Podemos sofrer injustiças em muitos níveis. Em nosso dia a dia, por exemplo, encontramos terreno fértil para a falta de justiça nas relações comerciais, na convivência com colegas de trabalho, vizinhos e familiares. Muitas vezes ficamos perplexos e impotentes para reagir a uma situação negativa como essa.
     Recorrer à Justiça em qualquer parte do mundo não é garantia de ser atendido. Invariavelmente você precisa ter bons advogados para conseguir ser competitivo neste mundo do direito. E para isso você precisa de dinheiro para pagar os honorários. Quem não tem uma reserva financeira, fica ao relento e com uma causa perdida.
     Outra forma de injustiça é a acumulação de riqueza nas mãos de uns poucos privilegiados. Uma grotesca concentração de renda. Um dos vários indicadores nessa área mostra que a renda média dos 20 países mais ricos do mundo corresponde a 37 vezes a renda dos países mais pobres. Outra afronta são os valores pagos a presidentes de empresa que muitas vezes passam das 200 vezes o menor salário. Fora os bônus obtidos de forma suspeita como a crise de 2007 escancarou para o mundo. Empresas quebradas que artificialmente manipulavam suas contas para parecer que havia lucro em vez de prejuízo e assim garantir um polpudo pagamento extra no final do ano.
     E devemos ficar passivos vendo tanta injustiça? Apesar de não podermos fazer muita coisa, precisamos manter este espírito de inconformidade. Afinal, felizes os que têm fome e sede de justiça, como falou Jesus. No livro, Bem-aventuranças - caminho para uma vida feliz, o monge Anselm Grüm explica que todos nós precisamos lutar para sempre fazer o que é certo. "Tal batalha pode ser cansativa, mas também torna felizes aqueles que, do fundo do coração, se comprometem com a causa", afirma Grüm.
     Ele alerta, porém, que o desejo por justiça aqui na Terra permanecerá incompleto. No entanto, citando o antigo teólogo místico Gregório de Nissa, a procura por justiça vai tornar o ser humano interiormente satisfeito. E da busca incessante surgirá a experiência do que é bom, do que é certo, de como viver, e se esforçar por uma vida feliz.
     Para quem espera alguma punição para os causadores das injustiças, o Espiritismo traz um alento. No livro, Os quatro sermões de Jesus, o autor Paulo Alves Godoy afirma que "os que se tornaram instrumentos das injustiças, serão defrontados com duros revezes espirituais" quando desencarnarem. Pela lei de causa e efeito, deverão reparar o que fizeram em vidas futuras sob a forma de expiação.
     Seja como for o importante é ter uma vida correta e justa e lutar para que o nosso mundo seja um pouco menos injusto. Daí vem a bem-aventurança.


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terça-feira, 15 de novembro de 2011

Os amáveis

Em nossa escalada pela montanha da elevação espiritual, na busca pela reforma interior, vamos hoje conhecer um novo degrau.  Quando Jesus fez o sermão da Montanha, uma de suas frases emblemáticas foi algo como felizes os amáveis, pois eles herdarão a Terra. No evangelho de Mateus (5:4), a frase literal seria “Bem-aventurados aqueles que são mansos, porque possuirão a Terra”. Um pouco mais para frente temos o seguinte versículo que complementa a frase acima (5:9): “Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados de filhos de Deus”.
     Este degrau é um dos mais complicados para se alcançar, pois trata do combate aos sentimentos negativos mais comuns que temos, como a raiva, o ódio, o orgulho e a impaciência. Complicado porque neste mundo hostil em que vivemos não é nada fácil ser manso e pacífico. Sugere até uma irrealidade, como se tivéssemos que viver como Polyanas em um mundo cor de rosa.
     Porém, se pararmos para pensar um pouco percebemos que estes sentimentos negativos, por mais comuns que sejam, nos levam sempre ao desequilíbrio emocional. Por tabela, nos sentimos mal após a catarse. Neste momento, a razão que foi escanteada pela emoção, retoma o controle e nos mostra que aquela atitude não foi a mais adequada.
     Um padre da época primitiva da Igreja, quando o humanismo ainda era a tônica das mensagens eclesiais, percebeu que a chave para se ter o controle das emoções era a de treinar a busca incessante pela mansidão. Ou seja, era uma virtude que precisava ser adquirida. Nas palavras de Gregório de Nissa, “felizes aqueles que não cedem facilmente às moções da paixão da sua alma, mas que, por meio da moderação, preservam a calma interior; aqueles nos quais a razão, como uma rédea, freia os impulsos e não permite que a alma dispare descontroladamente em atos violentos”.
     Quem trilha este caminho com o coração e não apenas na aparência, pode conseguir mudanças interessantes no comportamento das pessoas com que interage, segundo diz o monge Anselm Grün. “Mansidão e amabilidade podem ter uma influência boa sobre a resistência dos colegas de trabalho....Ela (a mansidão) é como a água que amolece a pedra dura”.
     Anselm acredita que para conseguirmos chegar neste estágio precisamos primeiro ter compaixão interna. Ele ensina que pessoas que nunca estão satisfeitas consigo mesmas e, por tabela, com outros seres, jamais alcançarão a harmonia. O antídoto seria sermos menos rígidos com nós mesmos. Só assim teremos condições de estarmos em harmonia interior e com as demais pessoas. “O manso tem a coragem necessária para admitir tudo o que acontece em seu íntimo...Quando fica firme em sua mansidão, também no trato das pessoas, modificará a terra”.
     Para os espíritas kardecistas, o trecho  “herdarão a Terra” desta bem-aventurança teria o significado de que no futuro, quando nosso planeta deixar de ser um lugar de provas e expiações para se tornar um mundo de regeneração, os mansos e pacíficos, aqueles que cultivaram o amor e a caridade com o próximo, vão permanecer por aqui. Já as pessoas (espíritos) cujas vibrações estejam fora desta sintonia vão ser levadas para outro planeta e iniciarão nova jornada rumo à paciência e à mansidão.


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Os famintos

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Os tristes felizes

No sermão da Montanha, Jesus segue o seu rosário de bem-aventuranças. Já mencionamos os pobres de espírito no post anterior. Agora, a frase encontrada no evangelho de Mateus (5:4) é “Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados”.  Uma versão mais moderna destas palavras seria algo como “Felizes os tristes, pois serão consolados”.
     De bate pronto, parece que estamos lidando com um Deus sádico que quer ver todos nós sofrendo. Isso não faz muito sentido se você acredita em uma divindade que nos quer bem, como Jesus cansou de pregar. Bom, se a leitura direta não é a mais adequada, qual seria então a interpretação apropriada?
     Se você for espírita, conhece a lei da ação e da reação, uma variação do carma. Simplificando, se em uma encarnação você foi uma pessoa que abusou de práticas pouco éticas e enveredou pelo mau caminho, na próxima você terá que fazer algum tipo de acerto de contas. Poderá, por exemplo, sofrer de alguma doença, viver sempre em dificuldades financeiras etc.
     Você vai padecer de tudo isso para ser testado a seguir em frente com resignação e sem tentar atalhos criminosos. Passando por essas provas com coragem e correção, você consegue melhorar, digamos, seu saldo cármico. Ou seja, você tem mais chances de sair do “Serasa espiritual”.
     Óbvio que seria mais fácil aceitar as pedras no caminho se soubéssemos que passamos por dificuldades nesta vida porque estamos pagando por males feitos no passado. Mas como desconhecemos isso, corremos o risco de levarmos esta prova para o lado negativo e seguir uma jornada não apropriada. É fácil ficar revoltado, perguntar por que comigo?, entrar em depressão  e até mesmo ir na direção do suicídio ou do crime.  Afinal, temos o tal do livre-arbítrio que nos permite escolher a estrada que queremos percorrer: a da dor ou a do amor.
     Por isso que a frase de Jesus diz que serão felizes os sofredores, pois serão consolados.  Estes vão passar por maus bocados na Terra, mas, se agirem corretamente, quando desencarnarem conseguirão se elevar espiritualmente.
     Na interpretação católica, a frase de Jesus ganha outra conotação, mas não muito diferente da dos espíritas na parte da resignação às dificuldades. O monge Anselm Grün, no livro Bem-aventuranças Caminho para uma vida feliz, explica  que “consolo é firmeza. Quem assume a tristeza em relação a sua vida não vivida, a suas carências e perdas, ganha nova determinação. Tem chão firme sob os pés. Consegue ficar forte em relação a si mesmo. Conquista uma posição sólida...e experimenta o apoio de Deus, que fica ao seu lado e o sustenta para que, vencendo  suas fraquezas, possa entrar em contato com o seu verdadeiro ser...”
     Portanto, diante dessas interpretações, nada de muitas lamúrias frente às dificuldades já que você pode estar pagando por um saldo negativo de vidas passadas e/ou se fortalecendo para alcançar a paz interior.

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sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Os pobres de espírito

Já mencionei de leve em post anterior a interpretação para este trecho do Sermão da Montanha, também conhecido como o sermão das bem-aventuranças, já que Jesus sempre começava suas frases no discurso com "Bem-aventurados...". No caso específico que vamos tratar hoje, a passagem seria "Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus". Consta em Mateus, capítulo 5, versículo 3, ou, na simbologia bíblica, 5:3. Em algumas transcrições, troca-se pobres de por pobres em. Em Lucas, 6:20, o espírito desaparece da frase: "Bem-aventurados vós que sois pobres, porque vosso é o Reino de Deus!".
     Seja como for, a ideia central da mensagem aqui não é a de desqualificar o espírito. Rebaixá-lo como algo inferior. Ao contrário. A palavra "pobres" tem a conotação de pessoa humilde. Como explica Paulo Alves de Godoy no livro Os Quatro Sermões de Jesus, os orgulhosos preocupam-se com o mundo material e se acham superiores. Já os mais simples entendem esta questão como secundária e que o importante é a reforma íntima para alcançar a elevação no mundo espiritual.
     Alguns filósofos vão mais fundo na questão. O monge Anselm Grün cita dois deles em seu livro Bem-aventuranças. Caminho para uma vida feliz. São considerados pensadores místicos, por procurarem na época em que viverem, na Idade Média, uma abordagem mais humanística das palavras de Jesus. Para Mestre Eckhart, o pobre em espírito seria quem não quer nada, não sabe nada e não tem nada.Afinal, nada nos pertence, nem uma pessoa, nem nossa casa, nem nossa vida. Podemos desfrutar disso por um tempo, mas tudo foi emprestado. É uma maneira elegante de não dar a mínima para o acúmulo de bens. Afinal, você é livre e não precisa ficar preso na neurose da acumulação de coisas.
     Outro filósofo místico, Gregorio de Nissa, explicava que quem sem livrava da riqueza ficava mais leve para poder se elevar para o alto. A pobreza interior nos eleva a Deus, enquanto as posses nos empurram para baixo. Grün arremata todas essas considerações ao explicar que a "primeira bem-aventurança é um caminho para a liberdade interior e, assim, para a verdadeira felicidade." O mote aqui seria o desprendimento.
     E ele finaliza o capítulo contando a fábula alemã João Sortudo. O personagem ganha uma barra de ouro, mas por ser muito pesada, ele troca por um cavalo. Este por sua vez é muito bravo e João não consegue controlá-lo. Aí ele faz outra troca e tem agora uma vaca. Depois vem um porco, um ganso e uma pedra de amolar. Até que um dia esta pedra cai na água e ele não tem mais nada. Justamente nesta hora ele começa a dançar e cantar porque sua felicidade não depende de posses, prazeres  e sucessos. Está grato pela vida e feliz por ser capaz de desfrutar dela. A pobreza de espírito seria para Grün simplesmente viver, sem pretensão, aproveitar cada instante e estar grato por aquilo que existe. Só isso basta.
   
Leia também:
Compreendendo Jesus
Por parábolas
Bem-aventuranças: o sermão
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terça-feira, 25 de outubro de 2011

Bem-aventuranças, o sermão

Um tema recorrente neste blog é a bem-aventurança. É um conceito que li primeiro em Joseph Campbell no Poder do Mito, mas foi e continua a ser utilizado por diversos autores. A ideia básica proposta é de você buscar sua felicidade. Ir atrás daquilo que vai ser melhor para você. Tanto que a frase clássica de Campbell e que ilustra a primeira página deste sítio virtual diz: "Persiga a sua bem-aventurança e não tenha medo, que as portas se abrirão, lá onde você não sabia que havia portas". Ou seja, vá atrás do que você sonha, quer, deseja, pois você vai alcançar. Óbvio que nada nesta vida é fácil, mas com persistência e sem se deixar abater com eventuais fracassos, a vitória é alcançada.
     Mas estou dizendo tudo isso porque, não por acaso, um dos sermões de Jesus trata especificamente da bem-aventurança. É o famoso Sermão da Montanha. Acho que foi Gandhi quem disse uma frase que retrata bem a importância filosófica deste pronunciamento: se tudo o que Jesus escreveu fosse destruído, mas este sermão fosse conservado, já teríamos preservado todos os seus ensinamentos. Como em tudo que diz respeito às palavras de Cristo, há muito simbolismo em suas palavras e inúmeras são as interpretações. Até o fato dele ter proferido o sermão no alto de uma montanha teria um significado espiritual. Algo como estar mais próximo de Deus. A elevação representaria simbolicamente uma ligação entre o céu e a terra.
     No caso deste sermão de Jesus, as bem-aventuranças que ele menciona nada mais seriam do que degraus de acesso ao topo desta montanha. Em outras palavras, seguindo aqueles ensinamentos do discurso qualquer um poderia chegar mais perto de Deus. Gregório de Nissa, um místico grego que viveu no século IV, já fazia naquela época interpretações nesta linha. Para ele, a montanha é o lugar onde seguimos Jesus para subir de nossas ideias baixas e limitadas para a montanha espiritual da mais nobre contemplação.
     Não sei quanto a vocês, mas para mim tudo isso tem tido um impacto muito grande. É como se um véu fosse levantado. E curiosamente vou esbarrando sem querer em conteúdo que vai me abrindo outras portas. Dia desses estava no shopping e para fazer uma hora entrei na livraria. Olhava as estantes despreocupadamente quando vi um livrinho (no tamanho, não na qualidade) com um título interessante: "Bem-aventuranças. Caminho para uma vida feliz". Peguei a obra e fui ver seu interior. Para minha surpresa, era uma explicação trecho a trecho do sermão da Montanha escrito por Anselm Grün, um monge beneditino alemão de quem eu  nunca tinha ouvido falar. O fato é que o livro é bem escrito, fluente, acessível e com muitas informações interessantes. Fui ver se ele tinha outras obras e fiquei espantado com a quantidade de títulos publicados. Comprei este da bem-aventurança e outros que explicam os evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João.
     Enfim, estou mergulhado no tema e fascinado com as descobertas. A interpretação simbólica da montanha que mencionei há pouco, por exemplo,  foi tirada deste livro de Anselm Grün. Nos próximos posts vou compartilhar algumas de suas revelações sobre o sermão da Montanha, começando com "bem-aventurados os pobres de espírito".


Leia também
Os pobres de espírito
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terça-feira, 10 de novembro de 2009

Voltei!

Como diriam os antigos, depois de um longo e tenebroso inverno, voltei. Cansei de ser bagaço de laranja e parti para um período sabático. Vou seguir o mestre Joseph Campbell e encontrar a minha bem-aventurança. Agora, entre os afazeres de um projeto pessoal, posso me dedicar mais a este blog que me dava tantas alegrias. Espero recuperar com o tempo a audiência deste sítio, ainda que modesta. E vamos que vamos. Bem-vindos a bordo novamente!

segunda-feira, 16 de julho de 2007

Tristeza? Joseph Campbell nela!

Ando me sentindo um pouco deprimido, triste, angustiado. Como Nietzsche explica bem, não há conquista sem sofrimento e acho que estou passando justamente por este momento. Enfim, para escapar desta depressão sempre recorro aos sábios e um deles é Joseph Campbell. Você pode olhar aí no canto superior direito uma singela homenagem deste blog a este importante pensador. A frase capta bem o sentimento de buscar a bem-aventurança. Onde ela estiver. Quem acompanha o Branas sabe que um dos assuntos recorrentes aqui é este tema (que pode ser melhor entendido ao ler os posts no marcador Jornada e bem-aventurança) .

Bom, estou aqui longe da minha biblioteca, confinado a uma trincheira com quatro paredes e um computador e tentando resolver todos os abacaxis possíveis. Dei um google para encontrar algum texto sobre e de Joseph Campbell para tornar alguns minutos deste dia um pouco mais prazerosos. Acabei esbarrando em uma reportagem antiga da revista Vida Simples que mencionava o autor de O Herói das Mil faces. A alentada matéria de junho de 2004 é bem didática e conta muito sobre a vida dele e os conceitos principais de sua obra. Vale conferir neste link http://vidasimples.abril.com.br/livre/edicoes/017/04.shtml . O final do texto é muito bom e reproduzo aqui o parágrafo inteiro:

"O que é bem-aventurança
Conceito central no pensamento de Campbell, a bem-aventurança, diz ele, está naquilo que nos enche de satisfação e entusiasmo e dá aquele sentimento de estar realmente vivo. E essa busca não é o mesmo que ir atrás de felicidade. Pelo contrário: a jornada tem sofrimento, armadilhas e monstros terríveis. Mas é o que vai fazer, enfim, o herói completar sua transformação para encontrar a dádiva final. Ulisses, o herói da Odisséia, não sai em uma jornada de aventuras porque é a opção que lhe parece a mais feliz. Pelo contrário, ele só parte porque não consegue evitar - ele até finge estar louco para ver se escapa. No final não consegue evitar o chamado, deixa a vida feliz e a amada Penélope para sair em uma longa viagem. Só depois de enfrentar ciclopes, sereias e outros tantos perigos e tentações volta vitorioso para os braços da fiel Penélope. "

Veja abaixo outros links para posts sobre Joseph Campbell, O Poder do Mito e a bem-aventurança:
Especial de sexta
Em busca da bem-aventurança
Mais bem-aventurança

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sexta-feira, 11 de maio de 2007

Mais bem-aventurança

No post especial desta sexta, volto ao tema da bem-aventurança. É um conceito poderoso para mim que estou nesta busca pessoal. Começo um novo momento em minha vida e estou na expectativa que as portas se abram, que o poder de atração não me abandone e que tudo dê certo. Acredito que minhas vibrações estejam positivas. Torçam por mim!
Bom, hoje vou mencionar aqui um outro trecho de Joseph Campbell explicando a bem-aventurança no livro O Poder do Mito. No final, coloquei links para outros posts que abordam esta obra e têm mais partes interessantes transcritas. Clicando no marcador bem-aventurança você pode ler todos de uma vez. Boa leitura.

"CAMPBELL:...Voltei da Europa, como estudante, em 1929, exatamente três semanas antes da quebra da Bolsa de Nova Iorque, de modo que fiquei desempregado por cinco anos. Simplesmente não havia emprego. Para mim foi um período esplêndido.

MOYERS: Esplêndido? O auge da Depressão? O que havia de maravilhoso nisso?

CAMPBELL: Eu não me sentia pobre, apenas sabia que não tinha dinheiro. As pessoas eram muito boas umas com as outras, naquele tempo. Por exemplo, descobri Frobenius, que de repente me entusiasmou, e eu quis ler tudo o que ele tinha escrito. Então simplesmente fiz a encomenda a uma livraria que tinha conhecido, em Nova Iorque, e eles me enviaram os livros, dizendo que não precisava pagar, até conseguir emprego - o que aconteceu quatro anos depois.
Havia um velhinho maravilhoso, em Woodstock, que tinha uma propriedade com uns poucos quartinhos que ele alugava por vinte dólares ao ano, pouco mais, pouco menos, a qualquer jovem que, na opinião dele, tivesse algum futuro nas artes. Não havia água corrente, apenas aqui e ali um poço e uma bomba. Ele dizia que não mandava instalar água corrente porque não gostava do tipo de gente que isso atraía. Foi lá que realizei a maior parte das minhas leituras básicas. Foi esplêndido. Eu estava no encalço da minha bem-aventurança.
Bem, eu cheguei a esta idéia de bem-aventurança porque em sânscrito, a grande linguagem espiritual do mundo, há três termos que representam a margem, o trampolim para o oceano da transcendência: Sat, Chit e Ananda, A palavra Sat significa "ser"; Chit significa "consciência"; Ananda significa "bem-aventurança" ou "enlevo". Pensei: "Não sei se minha consciência é propriamente consciência ou não; não sei se o que entendo pelo meu ser é o meu próprio ser ou não; mas sei onde está o meu enlevo. Então vou apegar-me ao meu enlevo, e isso me trata tanto a minha consciência como o meu "ser". Creio que funcionou.

MOYERS: Será que chegamos a saber a verdade? Será que chegamos a encontrá-la?

CAMPBELL: Cada um possui a sua própria profundidade, a sua própria experiência, e alguma convicção quanto a estar em contato com sua própria sat-chit-amanda, seu próprio ser, através da consciência e da bem-aventurança. Os religiosos dizem que não chegamos a experimentar verdadeiramente a bem-aventurança antes de morrermos e irmos para o céu. Mas eu acredito em atingir o máximo possível dessa experiência enquanto estamos vivos.

MOYERS: A bem-aventurança é agora.

CAMPBELL: No céu, você terá um enlevo tão maravilhoso contemplando Deus que nem terá condições de se dedicar à sua própria experiência. O céu não é o lugar para ter essa experiência - o lugar para ela é aqui.

MOYERS: Você já teve a sensação, como eu tenho às vezes, ao perseguir a sua bem-aventurança, de estar sendo ajudado por mãos invisíveis?

CAMPBELL: O tempo todo. É milagroso. Tenho até mesmo uma superstição, que se desenvolveu em mim como resultado dessas mãos invisíveis agindo o tempo todo, a superstição, por exemplo, de que, pondo-se no encalço da sua bem-aventurança, você se coloca numa espécie de trilha que esteve aí o tempo todo, à sua espera, e a vida que você tem que viver é essa mesma que você está vivendo. Quando consegue ver isso, você começa a encontrar pessoas que estão no campo da sua bem-aventurança, e elas abrem as portas para você. Eu costumo dizer: Persiga a sua bem-aventurança e não tenha medo, que as portas se abrirão, lá onde você não sabia que havia portas.

MOYERS: Você já sentiu simpatia pelo homem que não dispõe desse tipo de apoio invisível?

CAMPBELL: Quem não tem esse tipo de apoio? Bem, esse é o tipo que evoca compaixão, o pobre coitado. Vê-lo tropeçando, desajeitado, quando todas as águas da vida estão exatamente ali, ao alcance da mão, realmente desperta piedade.

MOYERS: As águas da vida eterna estão exatamente ali? Onde?

CAMPBELL: Onde quer que você esteja, se estiver no encalço da sua bem-aventurança, você estará desfrutando aquele frescor, aquela vida intensa dentro de você, o tempo todo.

Livro: O Poder do Mito - editora Palas Athena - páginas 126, 127 e 128

Veja abaixo outros links para posts sobre Joseph Campbell, O Poder do Mito e a bem-aventurança:
Especial de sexta
Em busca da bem-aventurança

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sexta-feira, 27 de abril de 2007

Especial de sexta

Estava relendo pela enésima vez o Poder do Mito, clássica entrevista de Joseph Campbell a Bill Moyers, e destaquei alguns trechos que gostaria de compartilhar com vcs sobre a bem-aventurança. Fica sendo um post especial de sexta, de véspera de feriadão e de um mês de blog!

MOYERS - O que acontece quando vc persegue a bem-aventurança?

CAMPBELL - Vc atinge a bem-aventurança. Na Idade Média, uma imagem predileta, que ocorre em muitos, muitos contextos, é a da roda da fortuna. Existe o eixo da roda e existe a borda da roda. Por exemplo, se vc estiver preso à borda da roda da fortuna, vc estará ou acima, no caminho descendente, ou abaixo, no caminho ascendente. Mas se estiver no eixo, vc estará no mesmo lugar o tempo todo, no centro. Este é o sentido do voto de casamento - eu aceito na saúde ou na doença, na riqueza ou na pobreza: no caminho ascendente ou descendente. Se eu a tomo como o meu centro, minha esposa é a minha bem-aventurança, não a riqueza que possa trazer-me, não o prestígio social, mas ela em si. Isso é que é perseguir a bem-aventurança.

MOYERS - De que modo poderíamos estabelecer contato com esse manancial da vida eterna, essa bem-aventurança que está exatamente aí?

CAMPBELL - Estamos vivendo o tempo todo experiências que podem, ocasionalmente, conduzir a isso, uma breve intuição de onde está nossa bem-aventurança. Agarre-a. Ninguém pode dizer-lhe o que será. Vc precisa aprender a reconhecer a sua própria profundidade....
... A maioria das pessoas se preocupa com outras coisas. Envolvem-se em atividades econômicas e políticas ou se deixam engajar numa guerra que não é aquela em que estavam interessadas; nessas circunstâncias é muito difícil manter-se fiel ao propósito essencial. Trata-se de uma técnica que cada um precisa desenvolver por sua própria conta.
Mas muitas pessoas que vivem naquela âmbito de interesses que podem ser chamadas de triviais possuem a capacidade, que apenas aguarda ser despertada, de progredirem na direção de um âmbito mais elevado. Eu sei disso. Vi acontecer com muitos estudantes.
Quando ensinava numa escola preparatória, para meninos, eu gostava de conversar com os que cogitavam sobre a carreira que pretendiam seguir. Um garoto se aproximava e perguntava: "Vc acha que eu posso ser escritor?". "Ah", eu dizia, " não sei. Vc é capaz de suportar dez anos de frustração, ninguém prestando atenção a vc, ou vc acha que vai escrever um best-seller logo na primeira tentativa? Se vc tem garra para perseverar no que realmente quer, não importa o que aconteça, então vá em frente."
Então aparecia o papai e dizia: "Não, vc deve estudar Direito, porque oferece muito mais perspectiva financeira, vc sabe". Bem, isso é a borda da roda, não o eixo; não é perseguir a bem-aventurança. Vc pretende se dedicar à fortuna ou à bem-aventurança?...

Extraído das páginas 125 e 126 de O Poder do Mito - Editora Palas Athena.

Leia post "Em busca da bem-aventurança"

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terça-feira, 24 de abril de 2007

Em busca da bem-aventurança

Um dos motes deste blog é a máxima de Joseph Campbell que pode ser lida aqui no canto superior direito. Confesso que ainda estou em busca das minhas portas e atrás de algo que me emocione. É muito frustrante não ter nada que empolgue e que dê prazer de ser feito. Talvez seja este blog, talvez seja dar aulas de reforço em escolas públicas... Ainda não sei. Estou precisando de um gps de dharma (a minha natureza autêntica). Enquanto estou afundado em dúvidas e indagações fica aqui uma sugestão: vale uma olhada na reportagem de capa da revista Vida Simples deste mês. O tema é justamente as rupturas de um ciclo para ir atrás de um sonho, de algo melhor, que vá de encontro à sua natureza, à sua busca pessoal. Mesmo que isso signifique perdas materiais (não ganhar um bom salário, não ter um emprego estável etc). Uma reportagem muito motivadora. Abaixo trechos do texto e link para ler na íntegra:

"Negar a própria “bem-aventurança”, como dizia o mitólogo norte-americano Joseph Campbell, ou tornar-se surdo diante dos apelos da alma pode trazer conseqüências até para o organismo. “Os conflitos internos vão aumentando, a pessoa é tomada pelo desânimo, depressão e cansaço, a energia pára de fluir – e isso explode num sintoma físico”, diz a psicóloga Regina Nanô. Irritabilidade excessiva, gastrite, constipação, enxaquecas ou infecções freqüentes... É preciso prestar atenção tanto no corpo quanto no coração: será que não estão dizendo à razão que é hora de recomeçar?"

"Se você passou boa parte de sua existência vivendo para os outros e sem contato consigo mesmo, o espanto será imenso: quem é essa pessoa? Porém, se aprendeu a respeitar seu dharma (termo hindu que designa nossa natureza autêntica, essa condição singular e única que nos faz ser quem somos), as perdas aparentes serão, na verdade, ganhos.

“O dharma não muda. A necessidade de mudança e de dizer adeus a pessoas e situações indica o quanto estamos nos afastando ou nos aproximando dele”, diz Carlos Eduardo Barbosa, estudioso da Índia e professor de sânscrito em São Paulo. Assim, quanto mais sintonia houver entre seu cotidiano e seu dharma, menos despedidas existirão. “Uma pessoa que age em coerência com seu chamado interior não precisa dizer adeus”, diz. Ela já vive a própria escolha, sempre. “A vida dá umas puxadinhas aqui e ali para que voltemos ao nosso caminho.”

Leia a reportagem completa

Joseph Campbell explica a bem-aventurança

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quinta-feira, 29 de março de 2007

No ombro de gigantes - Joseph Campbell

"Nunca fiz aquilo que queria, em toda a minha vida". Esta frase foi uma das muitas revelações que tive ao me deparar com a obra de Joseph Campbell. Livros e filme O Poder do Mito causaram uma revolução na minha cabeça. A parte sobre os mitos e religião, estudadas a fundo por ele, me ajudaram a encontrar algumas das respostas que procurava e que serão abordadas aqui no futuro (procure os posts com o marcador jornada). Mas a missiva atual é sobre a frase que inicia o texto. Campbell mencionava a obra de Sinclair Lewis, chamada Babbitt, na qual o personagem principal terminava o livro com esta constatação desoladora. Para Campbell só havia bem-aventurança para aqueles que perseguiam seus sonhos. "Que tipo de vida é essa? Que tipo de sucesso é esse que o obrigou a nunca fazer nada do que quis em toda a sua vida? Eu sempre recomendo aos meus alunos: vão aonde o seu corpo e a sua alma desejam ir. Quando você sentir que é por aí, mantenha-se firme no caminho, e não deixe ninguém desviá-lo dele". Joseph Campbell será personagem recorrente neste blog.

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