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segunda-feira, 17 de março de 2014

Cuidar de nosso templo é fazer a reforma interior

Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o espírito de Deus habita em vós?
(Paulo, Coríntios 1, 3:16)

Nesta carta Paulo utiliza uma imagem figurada comum nas Escrituras que é a ideia de que nosso corpo é um templo.

Em uma dessas passagens, os evangelhos contam sobre a entrada de Jesus no templo em Jerusalém.  Os textos retratam a irritação do Mestre com o comércio que havia sido instalado no local. Afinal, o ambiente deveria ser de uso exclusivo para a oração e de ligação das pessoas com o plano espiritual.

A mais simbólica descrição deste momento é a de João, o discípulo mais querido e o último dos evangelistas a escrever sobre a passagem de Jesus na Terra.

A Páscoa dos judeus estava próxima, e Jesus subiu para Jerusalém. No Templo, Jesus encontrou os vendedores de gado, ovelhas e pombas, e os cambistas sentados. Então fez um chicote de cordas e expulsou todos do Templo junto com as ovelhas e os bois; esparramou as moedas e derrubou as mesas dos cambistas. E disse aos que vendiam pombas: "Tirem isso daqui! Não transformem a casa de meu Pai num mercado." (2:13-17)

A chave para compreensão deste texto vem a seguir em um diálogo ocorrido entre Jesus e os judeus logo após o incidente no templo:

Então os dirigentes dos judeus perguntaram a Jesus: "Que sinal nos mostras para agires assim?"Jesus respondeu: "Destruam esse Templo, e em três dias eu o levantarei." Os dirigentes dos judeus disseram: "A construção desse Templo demorou quarenta e seis anos, e tu o levantarás em três dias?" Mas o Templo de que Jesus falava era o seu corpo.

Se a descrição de João era simbólica e o templo corresponde ao nosso corpo, como interpretar essa passagem?

Para muitos estudiosos, como o monge alemão Alselm Grün, a ideia de mercado sugere barulho, movimento, dispersão.  Será que internamente não somos ruidosos?

Será que não nos preocupamos demais com as coisas materiais retratadas na passagem pelas moedas e os cambistas?

Quantas vezes não nos pegamos em disputas, rivalidades, brigas e acessos de raiva, ou em mostrar virilidade, como acontecem com os touros antes de serem castrados e se tornarem bois?

O nosso comportamento interior permite que sejamos livres ou somos conduzidos, como ovelhas, por nossas sensações mundanas?

Temos controle sobre nossos pensamentos ou permitirmos que eles escapem e voem com facilidade e sem rumo, como as pombas?

A realidade é que nosso interior se assemelha muito ao mercado livre montado no templo em Jerusalém.

E como colocar um pouco de ordem nesta balbúrdia?

João é claro neste sentido. Se nos aproximarmos dos ensinamentos de Jesus, poderemos fazer nossa reforma interior com mais segurança e controle. O Nazareno vai nos ajudar a afastar o que nos prejudica.

Por isso que Paulo em sua carta aos Coríntios mencionou a questão simbólica do templo. Muitas vezes esquecemos que temos o nosso 'Deus interior 'e que precisamos cultuá-lo em um ambiente menos inóspito e barulhento com nossas preocupações e comportamentos negativos. Só assim nos tornaremos pessoas melhores e mais elevadas espiritualmente.

Emmanuel, o famoso guia espiritual de Chico Xavier, é preciso ao dizer que essa limpeza, a nossa tarefa de reeducação, é difícil e que vamos conseguir atingir esse objetivo com muito esforço e dificuldade: “Para que a luz divina se destaque na treva humana, é necessário que os processos educativos da vida nos trabalhem no empedrado caminho dos milênios”. E conclui: “Se sabemos que o senhor habita em nós, aperfeiçoemos a nossa vida a fim de manifestá-lo”. Então, vamos começar a limpar agora o nosso templo?

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Livro revela lado humano e menos mítico de Kardec


Biografia mostra os dilemas e angústias do codificador do espiritismo
 durante o trabalho de revelar a nova doutrina ao mundo

A história de Allan Kardec, francês que há 156 anos colocou no papel as instruções dos espíritos e organizou a doutrina espírita, merecia ser resgatada e contada com uma roupagem mais moderna. O jornalista Marcel Souto Maior estava com esta ideia na cabeça desde que escreveu As Vidas de Chico Xavier, que posteriormente serviu como base para o filme a respeito do mítico médium mineiro.

A tarefa era não só apresentar este francês nascido em Lyon, em 3 de outubro de 1804, mas desvendar o homem por trás do mito. Contar, prioritariamente, o intenso período de 13 anos em que Kardec, um cético assim como Marcel, compreendeu a importância da comunicação dos espíritos, iniciou o trabalho de codificação que resultou em cinco livros e arregaçou as mangas para consolidar e defender a recém-nascida doutrina.

Graças a isso, o perfil que emerge de Kardec, a Biografia é o de um homem com angústias e dilemas, centralizador e envolvido em desgastantes embates.

- Queria entender a transformação do professor cético a missionário de campanha. O que deu a ele tanta certeza sobre a existência e influência dos espíritos? A biografia é a história desta conversão. Uma saga pontuada por altos e baixos, com razão e emoção, surpresas e decepções, fraudes e revelações”, explicou o jornalista à imprensa no lançamento da obra.

A biografia aponta ainda que, assim como o famoso médium brasileiro, o precursor do espiritismo teve seu tempo totalmente tomado pelas demandas vindas do outro lado do véu. Os benfeitores espirituais não brincam em serviço e exigem dedicação total de seus parceiros encarnados.

Mas pelo menos os amigos no invisível são sinceros e avisam antes o tamanho da missão de cada um dos escolhidos.

- Caberá a você organizar e divulgar uma nova doutrina, capaz de revolucionar o pensamento científico, filosófico e religioso. Não esqueças que podes triunfar, como pode falir. Neste último caso, outro te substituirá...Previno-te que a tua missão é rude e não vai bastar publicar alguns livros e ir para casa. É necessário que te mostres no conflito, esclareceu o Espírito da Verdade, o mentor que iria acompanhar e auxiliar Kardec na longa caminhada em direção à nova doutrina.

Da mesma forma como Chico, Kardec topou o desafio. Em 1856, aos 54 anos, o professor  Hippolyte Léon Denizard Rivail iniciava a jornada de transformação que o levaria a se tornar Allan Kardec.
Pelas páginas escritas por Marcel, as mesas girantes, os diversos e controvertidos espetáculos mediúnicos na época, as irmãs Fox e os casos de materialização ganham vida. O leitor é transportado para aquele efervescente meio do século 19. Percebe ainda como a manifestação dos espíritos era assunto popular na sociedade francesa.

No entanto, o que para muitos era apenas diversão, para Kardec aquelas ações estranhas e, de certo modo, incompreensíveis, sugeriram algo a mais:

- Todo efeito tem uma causa. Todo efeito inteligente tem uma causa inteligente. O poder da causa corresponde à grandeza do efeito, analisava Rivail após observar com espanto as comunicações dos espíritos por meio das mesas girantes e das pancadas que respondiam às perguntas dos encarnados.

A biografia acompanha as conversas iniciais de Kardec com os espíritos.  Apresenta quem foram as primeiras médiuns que ajudaram o professor no contato com a espiritualidade, já que o codificador não possuía esta habilidade mediúnica.

No livro, a história é contatada de forma linear e objetiva, sem ser laudatória. Marcel mostra com muitas informações recolhidas de suas pesquisas e quatro viagens a Paris as angústias e temores de Kardec pelo tamanho e complexidade da tarefa que tinha pela frente.

Um dos medos do francês era ser enganado pelos espíritos. Daí a obsessão de fazer a diversos médiuns e espíritos as mesmas perguntas e garimpar a concordância das respostas. Afinal, para ele, era melhor rejeitar 10 verdades a publicar uma mentira.

- Observar, comparar e julgar, essa a regra que constantemente segui, dizia o racional Rivail.

Além de apresentar o Espírito da Verdade, mas sem revelar sua identidade, o autor da biografia faz uma interessante contextualização das outras entidades que colaboraram com Kardec, como São Luis e Erasto, de importantes médiuns, como a jovem Ermance Dufaux, e de personalidades da época que também mantinham seus contatos com o além, como o escritor Victor Hugo.

A biografia traz ainda o lado centralizador e obsessivo de Kardec. Temeroso em colocar a recém-nascida doutrina em perigo, ele decidia sozinho não só o que iria publicar nos livros, mas também como a sociedade espírita fundada por ele deveria agir. Dentro do mesmo princípio, ele mesmo era quem respondia as polêmicas surgidas, editava praticamente sozinho a Revista Espírita e ainda encontrava tempo para despachar a volumosa correspondência.

Justamente por ser um controlador nato, Kardec temia pelo futuro da doutrina quando desencarnasse. Marcel aponta as preocupações do codificador em saber quem seria o seu sucessor. Os espíritos, contudo, não revelaram o nome. Apenas diziam que esta pessoa já existia.

Marcel resolveu também criar este suspense no leitor e não menciona em nenhum momento a obra de Léon Denis, outro francês e que foi a grande referência à doutrina espírita após o falecimento de Kardec, ocorrido em 31 de março de 1869. Com sua oratória envolvente e livros que explicavam de forma didática o espiritismo, Denis consolidou os princípios da doutrina e a duras penas unificou o movimento.

Curiosamente, um mês depois que Denis desencarnou, em 12 de abril de 1927, Chico Xavier, aos 17 anos, fazia o primeiro contato com o espiritismo. Em junho, ele fundava o centro espírita Luiz Gonzaga, em Pedro Leopoldo, e, em 8 de julho, o médium mineiro participava de sua primeira psicografia. Enquanto a doutrina ganhava alento no Brasil, perdia força e ímpeto na França.

Apesar de não expor estes fatos no texto, Marcel traz outros casos curiosos, como a revolta das primeiras médiuns que levou ao rompimento com Kardec por não terem os nomes publicados no Livro dos Espíritos. Ilustra ainda o surgimento de cada um dos exemplares do Pentateuco espírita e detalha as diversas polêmicas em que Kardec e o espiritismo estiveram envolvidos na época. Uma história envolvente e que em breve deverá também ser atração nos cinemas.

Ficha técnica

Livro: Kardec, a Biografia
Autor: Marcel Souto Maior
Editora: Record
Número de páginas: 322

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Religião para ateus - uma resenha

É curioso como de tempos em tempos sempre aparece alguém que faz algo de maneira inusitada. É um talento que pode construir catedrais, descobrir uma vacina, desvendar leis da natureza ou até mesmo fazer jogadas geniais em um campo de futebol. Pode ser um exagero da minha parte, mas gosto de colocar o filósofo suíço Alain de Botton nesta categoria. Há tempos acompanho seus livros e documentários (no marcador filosofia deste blog você poderá encontrar muitos textos baseados em suas explicações). E o que faz Alain de Botton de tão especial? Ele é claro nos seus ensinamentos, didático, bem articulado e vê a filosofia não como algo inatingível para seres mortais como eu e você. Ao contrário, ele traz para o nosso cotidiano pensatas de antigos filósofos que nos ajudam a compreender as nossas angústias nesta agitada vida moderna.
     Neste seu caminho inusitado, Alain lançou recentemente Religião para ateus (editora Intrínseca). O livro é de leitura fácil, como é de praxe em seus trabalhos, mas sem cair no superficialismo. Ele tem a habilidade de abordar conceitos complexos ou ideias sofisticadas com uma naturalidade como se tivesse conversando com amigos em um almoço.
     E a proposta da obra é bem instigante. Alain analisa as religiões e procura encontrar aspectos que possam ser adaptados com sucesso em uma vida secular. A angústia dele é que a religião de uma forma ou de outra supre com muita competência necessidades interiores de cada ser humano. O problema é que se você é um ateu, como o autor,  qualquer menção à igreja é logo vista com desdém. E desta forma essas pessoas se distanciam de valores morais e filosóficos importantes. Como ele explica, "as religiões conseguiram combinar teorias sobre ética e metafísica com um envolvimento prático em educação, moda, política, viagem, hospedaria, cerimônias de iniciação, edição de livros, arte e arquitetura - uma gama de interesses que eclipsa a extensão de conquistas até mesmo dos maiores e mais influentes movimentos e indivíduos seculares da história".
     A partir deste mote ele vai costurando seu livro em capítulos como Comunidade, Gentileza, Educação, Ternura, Pessimismo, Perspectiva, Arte, Arquitetura e Instituições. Em cada seção ele surpreende o leitor com análises de como a religião foi competente para influenciar cada um destes aspectos abordados e as dificuldades que a vida secular mostra em dar respostas com a mesma eficiência.
     Um dos casos analisados é sobre a educação. Botton afirma que no início do século 19 havia o "sonho de que a cultura pudesse ser tão efetiva quanto a religião em sua capacidade de guiar, humanizar e consolar". Em vez de usarmos passagens bíblicas nos ensinamentos morais, chamaríamos as máximas de Marco Aurélio ou as óperas de Wagner já que as "lições éticas da religião se espalham pelo cânone cultural". Mas isso não deu certo. E por que? Botton tem uma teoria interessante. Para ele as "universidades conquistaram uma competência sem paralelos na transmissão de informação factual acerca de cultura, porém elas permanecem de todo desinteressadas em treinar estudantes para usá-la como repertório de sabedoria". Em outras palavras, como viver não faz parte do currículo escolar.
     Botton propõe uma solução para corrigir este problema. As universidades precisariam alterar seu currículo não mais para que os alunos acumulassem informação, mas usar o conteúdo cultural para iluminar a vida deles em vez de estimulá-los a atingir objetivos acadêmicos. Desta forma, "os romances Anna Karenina e Madame Bovary seriam alocados em um curso sobre tensões do casamento...Uma universidade interessada nas verdadeiras responsabilidades dos artefatos culturais dentro de uma era secular estabeleceria um Departamento de Relacionamento, um Instituto de Morrer e um Centro para o Autoconhecimento".
     Tudo isso pode dar a impressão de ser uma grande viagem do autor. No entanto, a partir deste exercício de imaginação vemos de maneira objetiva, muitas vezes cruel, como é cada vez mais premente repensar  como recebemos e distribuímos o conhecimento. E como estas falhas nos distanciam de valores éticos e morais e do necessário autoconhecimento. Itens fundamentais para termos uma vida melhor, como as religiões sempre souberam e foram tão eficazes ao longo dos milênios em nos ensinar. Enquanto este novo mundo de Botton não surge, termino a leitura imaginando se não valeria a pena olhar com menos preconceito para este aspecto das religiões e encontrar o conforto necessário que este mundo moderno e tecnologicamente avançado nos nega.

Saiba mais
Outros posts sobre Alain de Botton

Palestra de Alain de Botton no TED (com legendas em português)

Epicuro e a felicidade (legendado)

Sócrates e a autoconfiança (legendado)

Sêneca e a raiva (legendado)

Montaigne e a autoestima (legendado)

Schopenhauer e o Amor (legendado)
 

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Os famintos

De todo o  Sermão da Montanha esta frase talvez seja a mais enigmática: "Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos" (Mateus 5:6). Na transcrição mais coloquial da Bíblia da CNBB, "Felizes os que têm fome e sede da justiça, porque serão saciados.". O que Jesus quis dizer com isso? E lá fomos nós atrás de informações que pudessem elucidar este enigma.
      Uma possível chave é olhar pelo lado reverso da questão, ou seja, a injustiça. E neste quesito o nosso planetinha azul é bem pródigo. Podemos sofrer injustiças em muitos níveis. Em nosso dia a dia, por exemplo, encontramos terreno fértil para a falta de justiça nas relações comerciais, na convivência com colegas de trabalho, vizinhos e familiares. Muitas vezes ficamos perplexos e impotentes para reagir a uma situação negativa como essa.
     Recorrer à Justiça em qualquer parte do mundo não é garantia de ser atendido. Invariavelmente você precisa ter bons advogados para conseguir ser competitivo neste mundo do direito. E para isso você precisa de dinheiro para pagar os honorários. Quem não tem uma reserva financeira, fica ao relento e com uma causa perdida.
     Outra forma de injustiça é a acumulação de riqueza nas mãos de uns poucos privilegiados. Uma grotesca concentração de renda. Um dos vários indicadores nessa área mostra que a renda média dos 20 países mais ricos do mundo corresponde a 37 vezes a renda dos países mais pobres. Outra afronta são os valores pagos a presidentes de empresa que muitas vezes passam das 200 vezes o menor salário. Fora os bônus obtidos de forma suspeita como a crise de 2007 escancarou para o mundo. Empresas quebradas que artificialmente manipulavam suas contas para parecer que havia lucro em vez de prejuízo e assim garantir um polpudo pagamento extra no final do ano.
     E devemos ficar passivos vendo tanta injustiça? Apesar de não podermos fazer muita coisa, precisamos manter este espírito de inconformidade. Afinal, felizes os que têm fome e sede de justiça, como falou Jesus. No livro, Bem-aventuranças - caminho para uma vida feliz, o monge Anselm Grüm explica que todos nós precisamos lutar para sempre fazer o que é certo. "Tal batalha pode ser cansativa, mas também torna felizes aqueles que, do fundo do coração, se comprometem com a causa", afirma Grüm.
     Ele alerta, porém, que o desejo por justiça aqui na Terra permanecerá incompleto. No entanto, citando o antigo teólogo místico Gregório de Nissa, a procura por justiça vai tornar o ser humano interiormente satisfeito. E da busca incessante surgirá a experiência do que é bom, do que é certo, de como viver, e se esforçar por uma vida feliz.
     Para quem espera alguma punição para os causadores das injustiças, o Espiritismo traz um alento. No livro, Os quatro sermões de Jesus, o autor Paulo Alves Godoy afirma que "os que se tornaram instrumentos das injustiças, serão defrontados com duros revezes espirituais" quando desencarnarem. Pela lei de causa e efeito, deverão reparar o que fizeram em vidas futuras sob a forma de expiação.
     Seja como for o importante é ter uma vida correta e justa e lutar para que o nosso mundo seja um pouco menos injusto. Daí vem a bem-aventurança.


Leia também
Bem-aventuranças: o sermão
Os pobres de espírito
Os tristes felizes
Os amáveis

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Religião para ateus

Um dos filósofos atuais que mais gosto é o suíço Alain de Botton. Quem acompanha este blog sabe que em  muitos posts menciono as ideias dele. É só clicar no marcador filosofia para ver alguns destes textos. Um deles, Schopenhauer e o amor, é um dos mais acessados por aqui. Gosto dele porque ele é simples, direto e sem afetação em suas explicações. E o melhor de tudo: foca a filosofia no dia a dia das pessoas. Tenta trazer respostas para nossas angústias, medos, amores, raivas, inseguranças etc. É a filosofia usada para melhorar o nosso interior e para que possamos viver com mais tranquilidade. Os espíritas chamariam isso de reforma íntima e usariam os ensinamentos de Jesus como norte. Botton é ateu e usa os filósofos para ir nesta mesma direção.
     Ele esteve no Brasil por esses dias para o lançamento do livro Religião para Ateus, que ainda não tive a oportunidade de ler, mas em breve vou fazer isso e postar algumas considerações por aqui. Bom, o interessante é que ele concedeu uma entrevista para a revista Exame que gostaria de compartilhar com vocês. Um bate papo com boas perguntas e ótimas respostas. Coloquei a íntegra abaixo. Espero que gostem.


“Nós somos uma espécie ingrata”, diz filósofo Alain de Botton

Em entrevista a EXAME.com, o filósofo do cotidiano falou sobre o desejo de status e o paradoxo do sucesso material

São Paulo – Sem frases altamente complexas ou raciocínios muito abstratos, o filósofo suíço Alain de Botton expõe as ideias que tem construído ao longo de quase duas décadas de carreira. Ele popularizou a filosofia com seus livros, focado nos problemas do cotidiano e sempre recorrendo a uma bagagem de diversos pensadores e artistas.
Uma delas é “Como Proust pode mudar sua vida” (1997), onde o autor usa os ensinamentos de Marcel Proust para ajudar o leitor em campos como o amor, o sofrimento, a felicidade, a arte e a amizade. Já na obra “Desejo de Status” (2004), Alain de Botton fala sobre a ansiedade de ter status e riqueza, e da frustração que isso causa, quando o sucesso não é alcançado.Nesta semana, de Botton veio ao Brasil para participar do ciclo de palestras Fronteiras do Pensamento e para lançar sua obra mais recente, “Religião para Ateus” (2011). No livro, ele fala sobre os ensinamentos que as religiões podem dar mesmo àqueles que não possuem uma crença. Antes, o filósofo escreveu outras nove publicações que foram best-sellers.
Diferentemente da ambição, que é uma vontade de crescer para satisfação pessoal, o “desejo de status” se origina da preocupação com o que os outros vão pensar. As consequências podem ser várias, desde a riqueza até o suicídio. É exatamente sobre esse assunto que o filósofo falou a EXAME.com. Confira trechos da entrevista.
EXAME.com: De que depende a felicidade no trabalho?
Alain de Botton: 
Felicidade no trabalho é muito complicada. Eu acho que ela basicamente depende de algo dentro de você. Algo precioso e importante, uma habilidade, um talento, um interesse sendo conectados com algo no mundo que gera dinheiro. Na maior parte do tempo, as coisas pelas quais a gente realmente se importa não fazem dinheiro. E as coisas que fazem dinheiro nos matam por dentro. Nós não gostamos de fazê-las. Esse é o problema do capitalismo. A maior parte do dinheiro no mundo moderno é gerada em empresas que não são tão interessantes para nosso espírito, para nossas mentes
EXAME.com: As pessoas estão mais infelizes com suas carreiras e seu trabalho atualmente em relação às gerações de décadas atrás?
de Botton:
 Esse é definitivamente o caso em que quanto mais você espera da vida, mais a vida tem que dar, do contrário, você fica infeliz. É o paradoxo do sucesso material. À medida que a sociedade fica mais bem sucedida, as expectativas das pessoas aumentam e, por isso, elas ficam ingratas sobre coisas que seus pais ou seus avós ficariam muito agradecidos. Nós somos uma espécie ingrata. Nós sempre pensamos naquilo que nós não temos. Não se trata de não tentar conseguir mais, mas, na medida em que tentamos conseguir mais, nós deveríamos sempre lembrar que isso vai entregar apenas uma pequena porcentagem da felicidade que nós imaginamos. Nós devemos estar prontos para isso.
EXAME.com: O senhor diz que meritocracia não é 100% eficiente. Na sua opinião, há um modo melhor de avaliar as pessoas e suas competências, que possa reduzir o “desejo de status”?
de Botton: 
Nós deveríamos sempre tentar criar um mundo meritocrático, um mundo onde, se você tiver talento e energia, você deveria conseguir subir. O problema é que nós devemos sempre reconhecer que isso é um sonho do mundo perfeito. Porque todos nós somos mais talentosos, mais interessantes, mais habilidosos do que o mundo poderá saber, que nós poderemos saber um dia. O sonho é a gente poder pegar tudo que é bom em nós e fazer dinheiro com isso. Isso é uma coisa que apenas 0,001% da população pode um dia fazer. Nós precisamos reconhecer isso, falar sobre isso e nos entristecer com relação a isso, juntos, em uma sexta-feira à noite após o trabalho.
EXAME.com: As redes sociais, como Facebook e Twitter, que permitem que as pessoas se tornem webcelebridades, aumentam o “desejo de status”? O que o senhor pensa sobre esse assunto?
de Botton:
 As redes sociais oferecem às pessoas uma maneira de ter status fora do sistema financeiro. Porque muita gente acessa o Twitter, por exemplo, não por dinheiro, mas simplesmente porque elas gostam de ter outras pessoas ouvindo o que elas querem falar e respondendo a elas. Isso mostra uma coisa muito interessante sobre a natureza humana, que é que, mesmo que nós gostemos de ganhar dinheiro, no final do dia, ainda mais importante do que dinheiro, depois de um momento básico, é o amor. Nós queremos o amor do mundo.
EXAME.com: No Brasil, tem havido um aumento do número de ateus e agnósticos, segundo levantamentos recentes. A falta de fé pode tornar mais difícil lidar com o “desejo de status”?
de Botton:
 Eu sou um ateu, então eu não acho que a resposta seja nós nos voltarmos para a fé. Mas, sim, quando a religião declina, certas coisas realmente pioram do ponto de vista dessa ansiedade. Mesmo um rei, no Cristianismo, fica de joelhos diante de Jesus. Essa é uma ideia muito bonita e, uma vez que você se livra de Jesus, o que você tem? O que vai ser maior do que a humanidade? O perigo é: nada. O perigo é nós pensarmos “nós somos fantásticos. Nós temos Steve Jobs, que inventou o iPad”.
Nós nos adoramos e isso nos leva à loucura. Nós precisamos de momentos em que podemos fugir do narcisismo humano e olhar para outros lugares. É por isso que as pessoas hoje estão mais impressionadas com a natureza. Não é apenas uma questão ambiental, é também uma questão psicológica. Você olha para a natureza e pensa: isso é uma coisa que existe fora da humanidade. E ela é maravilhosa, porque ela não pensa em nós, assim como animais, árvores, estrelas, até mesmo crianças pequenas. Esses são exemplos de coisas que estão fora do sistema do dinheiro, fora do sistema do status, e elas são muito, muito relaxantes e necessárias para nossa alma.
EXAME.com: O senhor também diz que ninguém é independente e auto-suficiente. Onde é possível encontrar ajuda e conselhos para lidar com nossos problemas, dúvidas e ansiedade?
de Botton:
 Bem, o interessante é que o mundo moderno, onde nós temos tanto de tudo, que é tão bom em dar-nos carros, roupas e todo resto, quando diz respeito à nossa vida interior, a ajuda é quase como a Rússia nos tempos comunistas. É muito, muito má. O modelo mais sistemático que existe para a vida interior é provavelmente a psicoterapia, que no Brasil e no resto é ainda uma coisa menor. Acho que precisamos de ajuda, e minha esperança é que os empreendedores do futuro não pensem apenas no corpo e suas necessidades, mas também pensem na mente e em suas necessidades.
EXAME.com: Quais são as possíveis soluções para o “desejo de status”?
de Botton:
 O maior inimigo nesta situação é a solidão, paranoia, a sensação de que estamos completamente sozinhos. É muito vergonhoso sentir o “desejo de status”. Ele não é algo que você pode realmente admitir, não é fácil admitir a inveja de alguém. E, ainda assim, a inveja é enorme. Eu acredito que nós precisamos de alguns mecanismos para admitir isso, nós precisamos de amizades que são capazes de aceitar esse nosso lado, nós precisamos ser capazes de falar sobre isso.Todo problema é reduzido ao se falar sobre ele. E nós precisamos achar grupos de status que serão tolerantes e faça-nos sentir relativamente relaxados. No mundo moderno, nós somos jogados contra pessoas que realmente destroem nossa paz interior, suas ambições nos levam à loucura e, talvez isso não seja para nós. Talvez nós precisemos apenas perder alguns amigos. Meu conselho seria fazer alguns amigos e perder outros, para nos focarmos no que nós realmente queremos.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Os amáveis

Em nossa escalada pela montanha da elevação espiritual, na busca pela reforma interior, vamos hoje conhecer um novo degrau.  Quando Jesus fez o sermão da Montanha, uma de suas frases emblemáticas foi algo como felizes os amáveis, pois eles herdarão a Terra. No evangelho de Mateus (5:4), a frase literal seria “Bem-aventurados aqueles que são mansos, porque possuirão a Terra”. Um pouco mais para frente temos o seguinte versículo que complementa a frase acima (5:9): “Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados de filhos de Deus”.
     Este degrau é um dos mais complicados para se alcançar, pois trata do combate aos sentimentos negativos mais comuns que temos, como a raiva, o ódio, o orgulho e a impaciência. Complicado porque neste mundo hostil em que vivemos não é nada fácil ser manso e pacífico. Sugere até uma irrealidade, como se tivéssemos que viver como Polyanas em um mundo cor de rosa.
     Porém, se pararmos para pensar um pouco percebemos que estes sentimentos negativos, por mais comuns que sejam, nos levam sempre ao desequilíbrio emocional. Por tabela, nos sentimos mal após a catarse. Neste momento, a razão que foi escanteada pela emoção, retoma o controle e nos mostra que aquela atitude não foi a mais adequada.
     Um padre da época primitiva da Igreja, quando o humanismo ainda era a tônica das mensagens eclesiais, percebeu que a chave para se ter o controle das emoções era a de treinar a busca incessante pela mansidão. Ou seja, era uma virtude que precisava ser adquirida. Nas palavras de Gregório de Nissa, “felizes aqueles que não cedem facilmente às moções da paixão da sua alma, mas que, por meio da moderação, preservam a calma interior; aqueles nos quais a razão, como uma rédea, freia os impulsos e não permite que a alma dispare descontroladamente em atos violentos”.
     Quem trilha este caminho com o coração e não apenas na aparência, pode conseguir mudanças interessantes no comportamento das pessoas com que interage, segundo diz o monge Anselm Grün. “Mansidão e amabilidade podem ter uma influência boa sobre a resistência dos colegas de trabalho....Ela (a mansidão) é como a água que amolece a pedra dura”.
     Anselm acredita que para conseguirmos chegar neste estágio precisamos primeiro ter compaixão interna. Ele ensina que pessoas que nunca estão satisfeitas consigo mesmas e, por tabela, com outros seres, jamais alcançarão a harmonia. O antídoto seria sermos menos rígidos com nós mesmos. Só assim teremos condições de estarmos em harmonia interior e com as demais pessoas. “O manso tem a coragem necessária para admitir tudo o que acontece em seu íntimo...Quando fica firme em sua mansidão, também no trato das pessoas, modificará a terra”.
     Para os espíritas kardecistas, o trecho  “herdarão a Terra” desta bem-aventurança teria o significado de que no futuro, quando nosso planeta deixar de ser um lugar de provas e expiações para se tornar um mundo de regeneração, os mansos e pacíficos, aqueles que cultivaram o amor e a caridade com o próximo, vão permanecer por aqui. Já as pessoas (espíritos) cujas vibrações estejam fora desta sintonia vão ser levadas para outro planeta e iniciarão nova jornada rumo à paciência e à mansidão.


Leia também
Bem-aventuranças: o sermão
Os pobres de espírito
Os tristes felizes
Os famintos

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Os tristes felizes

No sermão da Montanha, Jesus segue o seu rosário de bem-aventuranças. Já mencionamos os pobres de espírito no post anterior. Agora, a frase encontrada no evangelho de Mateus (5:4) é “Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados”.  Uma versão mais moderna destas palavras seria algo como “Felizes os tristes, pois serão consolados”.
     De bate pronto, parece que estamos lidando com um Deus sádico que quer ver todos nós sofrendo. Isso não faz muito sentido se você acredita em uma divindade que nos quer bem, como Jesus cansou de pregar. Bom, se a leitura direta não é a mais adequada, qual seria então a interpretação apropriada?
     Se você for espírita, conhece a lei da ação e da reação, uma variação do carma. Simplificando, se em uma encarnação você foi uma pessoa que abusou de práticas pouco éticas e enveredou pelo mau caminho, na próxima você terá que fazer algum tipo de acerto de contas. Poderá, por exemplo, sofrer de alguma doença, viver sempre em dificuldades financeiras etc.
     Você vai padecer de tudo isso para ser testado a seguir em frente com resignação e sem tentar atalhos criminosos. Passando por essas provas com coragem e correção, você consegue melhorar, digamos, seu saldo cármico. Ou seja, você tem mais chances de sair do “Serasa espiritual”.
     Óbvio que seria mais fácil aceitar as pedras no caminho se soubéssemos que passamos por dificuldades nesta vida porque estamos pagando por males feitos no passado. Mas como desconhecemos isso, corremos o risco de levarmos esta prova para o lado negativo e seguir uma jornada não apropriada. É fácil ficar revoltado, perguntar por que comigo?, entrar em depressão  e até mesmo ir na direção do suicídio ou do crime.  Afinal, temos o tal do livre-arbítrio que nos permite escolher a estrada que queremos percorrer: a da dor ou a do amor.
     Por isso que a frase de Jesus diz que serão felizes os sofredores, pois serão consolados.  Estes vão passar por maus bocados na Terra, mas, se agirem corretamente, quando desencarnarem conseguirão se elevar espiritualmente.
     Na interpretação católica, a frase de Jesus ganha outra conotação, mas não muito diferente da dos espíritas na parte da resignação às dificuldades. O monge Anselm Grün, no livro Bem-aventuranças Caminho para uma vida feliz, explica  que “consolo é firmeza. Quem assume a tristeza em relação a sua vida não vivida, a suas carências e perdas, ganha nova determinação. Tem chão firme sob os pés. Consegue ficar forte em relação a si mesmo. Conquista uma posição sólida...e experimenta o apoio de Deus, que fica ao seu lado e o sustenta para que, vencendo  suas fraquezas, possa entrar em contato com o seu verdadeiro ser...”
     Portanto, diante dessas interpretações, nada de muitas lamúrias frente às dificuldades já que você pode estar pagando por um saldo negativo de vidas passadas e/ou se fortalecendo para alcançar a paz interior.

Leia também
Bem-aventuranças: o sermão
Os pobres de espírito
Os amáveis
Os famintos

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Os pobres de espírito

Já mencionei de leve em post anterior a interpretação para este trecho do Sermão da Montanha, também conhecido como o sermão das bem-aventuranças, já que Jesus sempre começava suas frases no discurso com "Bem-aventurados...". No caso específico que vamos tratar hoje, a passagem seria "Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus". Consta em Mateus, capítulo 5, versículo 3, ou, na simbologia bíblica, 5:3. Em algumas transcrições, troca-se pobres de por pobres em. Em Lucas, 6:20, o espírito desaparece da frase: "Bem-aventurados vós que sois pobres, porque vosso é o Reino de Deus!".
     Seja como for, a ideia central da mensagem aqui não é a de desqualificar o espírito. Rebaixá-lo como algo inferior. Ao contrário. A palavra "pobres" tem a conotação de pessoa humilde. Como explica Paulo Alves de Godoy no livro Os Quatro Sermões de Jesus, os orgulhosos preocupam-se com o mundo material e se acham superiores. Já os mais simples entendem esta questão como secundária e que o importante é a reforma íntima para alcançar a elevação no mundo espiritual.
     Alguns filósofos vão mais fundo na questão. O monge Anselm Grün cita dois deles em seu livro Bem-aventuranças. Caminho para uma vida feliz. São considerados pensadores místicos, por procurarem na época em que viverem, na Idade Média, uma abordagem mais humanística das palavras de Jesus. Para Mestre Eckhart, o pobre em espírito seria quem não quer nada, não sabe nada e não tem nada.Afinal, nada nos pertence, nem uma pessoa, nem nossa casa, nem nossa vida. Podemos desfrutar disso por um tempo, mas tudo foi emprestado. É uma maneira elegante de não dar a mínima para o acúmulo de bens. Afinal, você é livre e não precisa ficar preso na neurose da acumulação de coisas.
     Outro filósofo místico, Gregorio de Nissa, explicava que quem sem livrava da riqueza ficava mais leve para poder se elevar para o alto. A pobreza interior nos eleva a Deus, enquanto as posses nos empurram para baixo. Grün arremata todas essas considerações ao explicar que a "primeira bem-aventurança é um caminho para a liberdade interior e, assim, para a verdadeira felicidade." O mote aqui seria o desprendimento.
     E ele finaliza o capítulo contando a fábula alemã João Sortudo. O personagem ganha uma barra de ouro, mas por ser muito pesada, ele troca por um cavalo. Este por sua vez é muito bravo e João não consegue controlá-lo. Aí ele faz outra troca e tem agora uma vaca. Depois vem um porco, um ganso e uma pedra de amolar. Até que um dia esta pedra cai na água e ele não tem mais nada. Justamente nesta hora ele começa a dançar e cantar porque sua felicidade não depende de posses, prazeres  e sucessos. Está grato pela vida e feliz por ser capaz de desfrutar dela. A pobreza de espírito seria para Grün simplesmente viver, sem pretensão, aproveitar cada instante e estar grato por aquilo que existe. Só isso basta.
   
Leia também:
Compreendendo Jesus
Por parábolas
Bem-aventuranças: o sermão
Os tristes felizes
Os amáveis
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terça-feira, 25 de outubro de 2011

Bem-aventuranças, o sermão

Um tema recorrente neste blog é a bem-aventurança. É um conceito que li primeiro em Joseph Campbell no Poder do Mito, mas foi e continua a ser utilizado por diversos autores. A ideia básica proposta é de você buscar sua felicidade. Ir atrás daquilo que vai ser melhor para você. Tanto que a frase clássica de Campbell e que ilustra a primeira página deste sítio virtual diz: "Persiga a sua bem-aventurança e não tenha medo, que as portas se abrirão, lá onde você não sabia que havia portas". Ou seja, vá atrás do que você sonha, quer, deseja, pois você vai alcançar. Óbvio que nada nesta vida é fácil, mas com persistência e sem se deixar abater com eventuais fracassos, a vitória é alcançada.
     Mas estou dizendo tudo isso porque, não por acaso, um dos sermões de Jesus trata especificamente da bem-aventurança. É o famoso Sermão da Montanha. Acho que foi Gandhi quem disse uma frase que retrata bem a importância filosófica deste pronunciamento: se tudo o que Jesus escreveu fosse destruído, mas este sermão fosse conservado, já teríamos preservado todos os seus ensinamentos. Como em tudo que diz respeito às palavras de Cristo, há muito simbolismo em suas palavras e inúmeras são as interpretações. Até o fato dele ter proferido o sermão no alto de uma montanha teria um significado espiritual. Algo como estar mais próximo de Deus. A elevação representaria simbolicamente uma ligação entre o céu e a terra.
     No caso deste sermão de Jesus, as bem-aventuranças que ele menciona nada mais seriam do que degraus de acesso ao topo desta montanha. Em outras palavras, seguindo aqueles ensinamentos do discurso qualquer um poderia chegar mais perto de Deus. Gregório de Nissa, um místico grego que viveu no século IV, já fazia naquela época interpretações nesta linha. Para ele, a montanha é o lugar onde seguimos Jesus para subir de nossas ideias baixas e limitadas para a montanha espiritual da mais nobre contemplação.
     Não sei quanto a vocês, mas para mim tudo isso tem tido um impacto muito grande. É como se um véu fosse levantado. E curiosamente vou esbarrando sem querer em conteúdo que vai me abrindo outras portas. Dia desses estava no shopping e para fazer uma hora entrei na livraria. Olhava as estantes despreocupadamente quando vi um livrinho (no tamanho, não na qualidade) com um título interessante: "Bem-aventuranças. Caminho para uma vida feliz". Peguei a obra e fui ver seu interior. Para minha surpresa, era uma explicação trecho a trecho do sermão da Montanha escrito por Anselm Grün, um monge beneditino alemão de quem eu  nunca tinha ouvido falar. O fato é que o livro é bem escrito, fluente, acessível e com muitas informações interessantes. Fui ver se ele tinha outras obras e fiquei espantado com a quantidade de títulos publicados. Comprei este da bem-aventurança e outros que explicam os evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João.
     Enfim, estou mergulhado no tema e fascinado com as descobertas. A interpretação simbólica da montanha que mencionei há pouco, por exemplo,  foi tirada deste livro de Anselm Grün. Nos próximos posts vou compartilhar algumas de suas revelações sobre o sermão da Montanha, começando com "bem-aventurados os pobres de espírito".


Leia também
Os pobres de espírito
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domingo, 23 de outubro de 2011

Por parábolas

Um amigo de velhos tempos leu os dois posts anteriores em que eu especulava sobre a forma de Jesus falar e como suas palavras poderiam ter sido alteradas ao longo do tempo, já que ele não deixou nada escrito e quase todos os evangelhos do Novo Testamento foram escritos no mínimo 50 anos após a sua morte. Talvez isso justifique a forma quase cifrada de suas frases e fazem com que muito papel e saliva sejam gastos para interpretar seus ensinamentos.
     Este meu amigo discorda um pouco desta análise. Ele crê que realmente Jesus falava desta maneira porque não podia revelar tudo de uma vez. Ou seja, as pessoas daquela época não estariam preparadas para compreender a verdade em sua totalidade. Esta consciência se daria pouco a pouco ao longo de centenas de anos. Cada vez que a população subisse mais um degrau no patamar evolutivo, novas interpretações destas palavras seriam apresentadas.
     Para corroborar esta tese ele me apresentou um capítulo do Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, e uma das obras fundamentais desta doutrina. O livro é voltado a explicar algumas palavras de Jesus segundo a mensagem dos espíritos. No capítulo 24, "Não coloque a candeia debaixo do alqueire", lemos que  tudo tem o seu tempo de ser revelado, assim como acontece com o ser humano em seu aprendizado. Uma criança na primeira série não saberá ainda equações desenvolvidas apenas no ensino médio. A mesma coisa ocorre com os ensinamentos de Jesus.
     No livro, surge a seguinte explicação: "É de causar admiração diga Jesus que a luz não deve ser colocada debaixo do alqueire, quando ele próprio constantemente oculta o sentido de suas palavras sob o véu da alegoria, que nem todos podem compreender. Ele se explica, dizendo a seus apóstolos: "Falo-lhes por parábolas, porque não estão em condições de compreender certas coisas. Eles vêem, olham, ouvem, mas não entendem. Fora, pois, inútil tudo dizer-lhes, por enquanto. Digo-o, porém, a vós, porque dado vos foi compreender estes mistérios." Procedia, portanto, com o povo, como se faz com crianças cujas idéias ainda se não desenvolveram. Desse modo, indica o verdadeiro sentido da sentença: "Não se deve pôr a candeia debaixo do alqueire, mas sobre o candeeiro, a fim de que todos os que entrem a possam ver." Tal sentença não significa que se deva revelar inconsideradamente todas as coisas. Todo ensinamento deve ser proporcionado à inteligência daquele a quem se queira instruir, porquanto há pessoas a quem uma luz por demais viva deslumbraria, sem as esclarecer".
     Portanto, não é de surpreender que os próprios apóstolos não tenham compreendido bem os ensinamentos de Jesus. Diante desta lógica, Cristo falava há dois mil anos, mas suas palavras miravam o futuro, quando seriam melhor decodificadas. De qualquer forma, segundo o Evangelho Segundo o Espiritismo, Jesus não teria sido de todo enigmático. Muita coisa era de fácil compreensão para as pessoas da época. Diz o livro, "Pergunta-se: que proveito podia o povo tirar dessa multidão de parábolas, cujo sentido se lhe conservava impenetrável? E de notar-se que Jesus somente se exprimiu por parábolas sobre as partes de certo modo abstratas da sua doutrina. Mas, tendo feito da caridade para com o próximo e da humildade condições básicas da salvação, tudo o que disse a esse respeito é inteiramente claro, explícito e sem ambiguidade alguma. Assim devia ser, porque era a regra de conduta, regra que todos tinham de compreender para poderem observá-la. Era o essencial para a multidão ignorante, à qual ele se limitava a dizer: "Eis o que é preciso se faça para ganhar o reino dos céus." Sobre as outras partes, apenas aos discípulos desenvolvia o seu pensamento...Entretanto, mesmo com os apóstolos, conservou-se impreciso acerca de muitos pontos, cuja completa inteligência ficava reservada a ulteriores tempos. Foram esses pontos que deram ensejo a tão diversas interpretações, até que a Ciência, de um lado, e o Espiritismo, de outro, revelassem as novas leis da Natureza, que lhes tornaram perceptível o verdadeiro sentido..... Se, pois, os Espíritos ainda não dizem tudo ostensivamente, não é porque haja na Doutrina mistérios em que só alguns privilegiados possam penetrar, nem porque eles coloquem a lâmpada debaixo do alqueire; é porque cada coisa tem de vir no momento oportuno. Eles dão a cada ideia tempo para amadurecer e propagar-se, antes que apresentem outra, e aos acontecimentos o de preparar a aceitação dessa outra."
    Em outras palavras, no futuro poderemos ser surpreendidos com novas interpretações e revelações que estavam ocultas nos ensinamentos de Jesus. Bom, não sei quanto vocês, mas estou aqui na torcida para que este tempo chegue logo.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Compreendendo Jesus 2

É só falar de religião que o assunto repercute. No post anterior fiz algumas observações sobre a necessidade de se interpretar as palavras de Jesus, porque os seus termos não eram suficientemente claros. Recebi alguns e-mails polidos questionando essa minha afirmação. No geral, o resumo das alegações é que o Novo Testamento, assim como a Bíblia, é uma obra divina. Ou seja, o que está escrito lá é algo emanado por Deus. Portanto, não nos caberia questionar a clareza ou não das palavras que constam neste livro sagrado.
     Compreendo e respeito essas afirmações. No entanto, temos que ter em mente que às vezes a interferência humana pode dificultar um pouco a comunicação. Causar ruídos indesejáveis na compreensão. Por exemplo, não sabemos se Jesus falava mesmo daquela maneira ou se suas palavras foram ajeitadas conforme o estilo do escriba que relatava seus feitos.
     Devemos levar em consideração que se jornalistas de hoje cometem erros de interpretação ou mesmo de dados factuais quando escrevem uma matéria, imaginem há dois mil anos quando alguns dos autores dos evangelhos nem foram contemporâneos de Jesus ou demoraram mais de décadas para registrar as andanças do mestre por este planeta.
     Lucas, por exemplo, não foi um dos discípulos e consta que sofreu influências de Paulo, de quem teria sido contemporâneo. Seu evangelho pode ter sido escrito perto do final do século 1, ou seja quase 100 anos depois do surgimento de Cristo. Os verbos no condicional mostram apenas que não há certeza de nada nesta história porque não existem registros históricos confiáveis.
      Alguns estudiosos acreditam que Lucas se baseou também no evangelho de Marcos, um discípulo de Pedro, portanto outro que esteve bem distante da época de Jesus. Sobra Mateus, este sim discípulo e que teria escrito seu relato uns 50 anos depois da morte de Cristo. Mas até aqui há dúvidas se Mateus foi o autor mesmo. João, outro discípulo, compôs sua obra quase um século depois.
     Por isso não é de se estranhar que existam algumas diferenças de relato entre os evangelhos. No exemplo que dei no post anterior,  Mateus diz "bem-aventurados os pobres de espírito". Lucas não menciona espíritos e diz apenas "bem-aventurados os pobres". Para complicar ainda mais, em determinado momento da história a igreja resolveu uniformizar os evangelhos. Este trabalho coube a Jerônimo, que depois viria a ser santo e padroeiro dos bibliotecários e tradutores. Ele verteu os evangelhos do grego para o latim e definiu o material que deveria constar ou não. O concílio de Trento, realizado no século 16, aprovou oficialmente este conteúdo como o Novo Testamento.
     Portanto, tem muita mão de gato nesta história e não dá para ter certeza de que as palavras de Jesus foram, em sua maioria, transcritas corretamente, inclusive no estilo de falar. Aí entra a fé de cada um. De qualquer forma, podemos afirmar com alguma segurança, já que este é um dos únicos consensos entre os estudiosos do assunto, que poderíamos resumir todos os ensinamento de Jesus em uma só palavra: amor. É o que basta e já é um grande desafio se pautar por esta ideia. Ou alguém acha fácil amar e perdoar seus inimigos? Ou quem nunca sentiu raiva, inveja e mágoa?  Amar o próximo como a si mesmo é o nosso norte. O desafio é perseverar nesta direção.

Leia também
Por parábolas
Bem-aventuranças: o sermão
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Os tristes felizes

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Compreendendo Jesus

Não, este post não é uma pregação de e para evangélicos. Nada contra quem utiliza os espaços de comunicação para falar sobre Jesus e evangelizar as pessoas, mas não é essa a proposta deste blog. No entanto,  nos interessa entender algumas passagens da pregação de Cristo pela Terra seja por seu conteúdo humanístico e filosófico seja pela busca por uma elevação espiritual.
     Mas não é fácil compreender suas palavras. Seu jeito rebuscado de falar, quase barroco, cheio de nuances e camadas de leitura não tornam a vida fácil de quem quer conhecer um pouco mais os ensinamentos de Jesus. Existe um mito de que Cristo falava por parábolas para facilitar a compreensão das pessoas mais humildes de sua época. Duvido. Se até hoje nós temos dificuldades de interpretação, imaginem há dois mil anos. Tenho cá com meus botões que muita gente confunde parábola com fábula. Esta sim é de fácil assimilação e contém um conteúdo moral evidente. Na parábola, os significados não são tão simples e a história algumas vezes fica confusa e pouco linear.
     As próprias pregações de Jesus também não eram realizadas em discurso direto e claro. Seus sermões, por exemplo, precisam ser lidos com muito cuidado, pois cada palavra pode ter um significado oculto. Só após isso é que pode ser feita uma interpretação mais consistente. Nos evangelhos de Lucas, Mateus, Marcos e João, aparece o relato das ações de Jesus e a transcrição de algumas de suas falas, mas não há interpretação do que foi dito. Nenhum deles esclarece o que o mestre quis dizer com, por exemplo, "bem-aventurados os pobres de espírito" . O que me leva a considerar que os discípulos também não entendiam bem aquela prosa toda.
     Curiosamente, o ponto de virada do cristianismo se dá justamente quando uma pessoa que não era um discípulo direto pega as palavras de Jesus e começa a interpretá-las e esclarecê-las para o dia a dia da gente comum. Este cidadão foi Paulo. Foi ele que levou a palavra aos gentios (não hebreus), cujos discípulos torciam o nariz, fundou comunidades cristãs em várias partes do império romano e mantinha uma notável correspondência com elas na qual procurava explicar as palavras de Jesus.
     Desta forma, o cristianismo pegou entre a população e virou uma religião planetária. Mas desde então, interpretar as palavras de Jesus se tornou uma prática corriqueira e muito papel, tinta e saliva foram (e ainda são) gastos na tentativa de explicar aquelas frases tão estranhas e de significado tão amplo. Um livro que faz isso bem em uma linguagem acessível é "Os quatro sermões de Jesus", de  Paulo Alves Godoy. Lá  você encontra uma possível explicação para a frase pinçada acima.
     Pobres de espírito, ele ensina, não tem a ver com pessoa sem inteligência, mas quem é simples, humilde, "pois para estes está reservada a conquista do reino dos céus, que tem entre nós o sentido de reforma interior". Os orgulhosos e arrogantes se preocupam com as conquistas no mundo material esquecendo-se do mundo espiritual. Já os simples e humildes compreendem a justiça divina e se preparam melhor para a vida futura do seu espírito.
     E esta é uma das interpretações. Outros autores podem fazer considerações um pouco diferentes, mas o importante é enxergar nas palavras das pregações formas de melhorar sua conduta como ser humano e buscar uma reforma íntima, onde mágoa, raiva e inveja não mais nos desarmonizariam. Tarefa difícil, mas, como diria aquele guerrilheiro chinês, o primeiro passo de uma longa caminhada sempre é o mais desafiador. O importante é começar.

Leia também:
Compreendendo Jesus 2
Por parábolas
Bem-aventuranças: o sermão
Os pobres de espírito
Os tristes felizes

terça-feira, 10 de julho de 2007

O Segredo na Galileu

Antigamente a revista Superinteressante conseguia surpreender e antecipar pautas e tendências. Foi assim que surgiram capas matadoras, como a de Buda e Matrix, ou a criação da Vida Simples. Mas a revista perdeu fôlego e se burocratizou. Abriu espaço para a Galileu que na edição deste mês traz ampla reportagem sobre O Segredo. Tudo bem, também demorou para ir atrás deste assunto, mas pelo menos fez alguma coisa.

Li a matéria e foi visível o esforço de tentar levar em consideração todos os lados da questão. Óbvio que o lado "científico" falou mais alto e muitas das teorias apresentadas no filme e no livro são descartadas por cientistas e pesquisadores "sérios". Além disso, a reportagem desdenha perigosamente dos efeitos da vibração. Já disse isso aqui no Branas, mas a noção de Tudo Vibra vai desde o antigo e metafísico Caibalion até a sofisticada matemática da Teoria M. Ou seja, é coincidência demais todo mundo, dos mais variados setores, mencionar esta possibilidade. Um dia alguém vai descobrir como isso funciona na prática, mas o jornalista não viu este aspecto da questão.

Nem cita A Física da Alma de Amit Goswani, que poderia ser um importante contraponto para a física quântica e a consciência, tampouco viu O Ponto de Mutação, de Frijof Capra, no qual mostra que a visão mecanicista a partir de Descartes arruinou nossa sensibilidade e nos enjaulou neste tempo e espaço em que vivemos. Se tivesse lido, não seria tão duro com as idéias de uma visão mais próxima da natureza e que estamos todos interligados, como os antigos, com suas práticas pagãs, e os animistas (a natureza tem alma) acreditavam.

Um dos pontos positivos da reportagem é a análise de como O Segredo conseguiu este sucesso todo. "Tanto naquele tempo (século 19) quanto hoje, há uma categoria de céticos que gostariam de acreditar numa mudança possível, mas para quem o lado esotérico da religião não fornece as respostas mais convenientes. Para chegar a eles, alguns autores queriam - e continuam querendo - mostrar que a auto-ajuda pode não ser uma questão de fé, mas sim algo diferente e que pode ser comprovado objetivamente..."

O artigo cita o antropólogo inglês Andrew Dawson, da Universidade de Lancaster, "As pessoas da nossa época são fascinadas com a ciência. Ela é vista como a aplicação prática de um conhecimento que é altamente eficiente e que proporciona sempre o efeito desejado. Os adeptos da new age acreditam que, se realizarem corretamente certos rituais e práticas específicos, encontrarão as respostas pelas quais procuram. A ciência oferece à new age um modelo no qual se espelhar".

Enfim, mesmo com as lacunas e um tremendo viés cartesiano, não deixa de ser uma reportagem interessante e que ajuda a debater este fenômeno que é a Lei da Atração e o O Segredo.

Leia outros posts sobre este assunto:
Lei da Atração - primeira parte
Lei da Atração 2
Lei da Atração 3
Você acredita na Lei da Atração?
Alimente os Grandes Sonhos
Lei da Atração na prática
Ainda O Segredo - sobre a reportagem na Veja
Tudo vibra
O Caibalion


Pesquise no Buscapé preços dos livros A Lei Atração - O Segredo colocado em prática, O Segredo e Peça e Será atendido

segunda-feira, 25 de junho de 2007

São João, Jesus e festas pagãs

O despretensioso post anterior trouxe, para minha surpresa, uma série de e-mails solicitando mais explicações sobre a festa de São João e sua origem como festa pagã. Bom, para explicar um pouco mais vou precisar usar algumas informações colhidas em dois interessantes sítios. Um é o blog Madras e o outro o site Jangada Brasil. Nos links vocês têm acesso à íntegra dos textos. Abaixo fiz um resumo com as informações principais.

No Madras, com inclinação para a Maçonaria e uma análise mais ampla, o que inclui até o mito do nascimento de Jesus, o artigo de Wagner Veneziani Costa e Celso Ferrarini explica que " Na mesma data em que se comemora o solstício de verão, 24 de junho, no Hemisfério Norte, dia de São João Batista, estamos comemorando aqui, o solstício de inverno. Recordemos as festas juninas (São João). No dia 25 de dezembro, comemoramos o solstício de verão e, no Hemisfério Norte, o solstício de inverno. É a data do nascimento de Avatares como: Krishna, Mitra, Hórus, Buda e Jesus Cristo, todos considerados grandes Sóis (Deuses)...

...Os primeiros cristãos do Império Romano, para escapar às perseguições, criaram o hábito de festejar o nascimento de Jesus durante as festas dedicadas ao deus Baco, quando os romanos, ocupados com os folguedos e orgias, os deixavam em paz.Mas a origem mitraica é a que é mais plausível para explicar essa data totalmente fictícia: os adeptos do mitraismo costumavam se reunir na noite de 24 para 25 de dezembro, a mais longa e mais fria do ano, numa festividade chamada – no mitraismo romano – de Natalis Invicti Solis (nascimento do Sol triunfante). Durante toda a fria noite, ficavam fazendo oferendas e preces propiciatórias, pela volta da luz e do calor do Sol, assimilado ao deus Mitra. O cristianismo, ao fixar essa data para o nascimento de Jesus, identificou-o com a luz do mundo, a luz que surge depois das prolongadas trevas...

... entre os romanos a (religião) predominante fosse a da adoração à Mitra, que era representado por uma figura humana. No lugar da cabeça, um Sol. Havia muitos outros deuses, notadamente, Jano, com suas cabeças que, sabidamente, simbolizavam os solstícios. Esses solstícios estavam sempre presentes nas festas pagãs, porque eram vinculadas à Natureza. É aí que encontramos uma provável explicação histórica para os festejos juninos e natalinos, que a nova religião romano-cristã, não podendo desenraizar dos costumes populares, o mínimo que conseguiu foi a substituição.

...O solstício deve ser comemorado com “ágapes solsticiais”. Isso não significa se reunir para comer ou beber, mas sim para compartilhar, agradecer e unir energias a serviço do “Mais Elevado” e da ajuda à humanidade. E por esse motivo, compartilhar uma comida simples.
O homem primitivo distinguia a diferença entre duas épocas, uma de frio e uma de calor, conceito que, inicialmente, lhe serviu de base para organizar o trabalho agrícola. Graças a isso é que surgiram os cultos solares, com o Sol sendo proclamado – como fonte de calor e de luz – o rei dos céus e o soberano do mundo, com influência marcante sobre todas as religiões e crenças posteriores da humanidade. E, desde a época das antigas civilizações, o homem imaginou os solstícios como aberturas opostas do céu, como portas, por onde o Sol entrava e saía, ao terminar o seu curso, em cada círculo tropical."

No site a Jangada Brasil a explicação segue quase pelo mesmo caminho, mas acrescenta algumas informações. " Tal festa não é brasileira e muito menos católica. Ela é tudo o que há de mais profundamente humano e de mais visceralmente pagão. Velha conto o mundo, se tem transformado ao sabor de cada meio e ao gosto de cada povo. E a religião católica, com a sua extraordinária habilidade, não a esqueceu, quando organizou, no correr dos séculos, as suas festas, adaptando-a ao seu espírito e dando-lhe como patrono um santo cujo dia fica justamente na época do ano em que o paganismo morto a celebrava. Todos os santos do cristianismo são mais ou menos, filhos dos antigos deuses....

...As cerimônias dessa festa... constavam de danças em redor da fogueira, de festins, da colheita de certas ervas mágicas que se deviam guardar sobre si para obter felicidade, da conservação, durante o ano, com o mesmo fim, dos carvões da fogueira. São, mais ou menos, as mesmas cerimônias que Ovídio descreve nos Fastos, no livro quinto, renovadas a cada aniversário da fundação de Roma.

...A festa de São João é a festa de Agni, do fogo, a festa que comemora o solstício do verão. E Santo Elói, no século VII, quando ainda a igreja a não adotara, trovejava contra ela: "Não vos reunais, - dizia ele, numa encíclica aos seus diocesanos, na época dos solstícios. Nenhum de vós deve dançar, ou pular em torno do fogo, nenhum de vós deve cantar no dia de São João. Por que essas canções são diabólicas!"Em Roma, segundo Ovídio, que nela participou, a festa do solstício se chamava Palilia. Era a festa do deus, ou da deusa Palés: "sive deus, sive dea". Então, narra o autor dos Fastos, se acendiam fogueiras, em cuja cinza se cozinhavam favas, ornavam-se as casas e estábulos de ramos verdes, recitavam-se três vezes certas orações, atravessava-se pelo meio das chamas, sorrindo e cantando, porque o fogo tudo purificava, homens e rebanhos.

Essa sobrevivência do velho culto ariano de Agni, o benéfico e o protetor, passou de Roma para as nações bárbaras que se formaram sobre as ruínas colossais do Império, conquistadas pouco a pouco pela cultura latina. ..A reminiscência da roda de chamas é o uso atual de jogar fogo de rodinhas de papelão orladas de estopim, em cujo centro há pinturas curiosas e, às vezes, a face do Batista. Essas rodinhas, presas por um prego à ponta de uma vara, queimam, rodopiando, e recordam a antiga grande roda inflamada das superstições medievais, como a passagem purificadora pelo fogo, que Ovídio aconselha, é a mesma que nós realizamos nas nossas fogueiras de São João, com intuitos de ser felizes durante o ano, ou para obter o compadresco singelo. Obedecemos nisso à força insuperável da tradição milenária, indestrutível, que celebra no dia de São João o solstício do verão, como no dia de Natal o solstício de inverno. A igreja adaptou essas celebrações à sua maneira ..."

domingo, 24 de junho de 2007

São João e a festa pagã

Os colegas do blog Saindo da Matrix lembram bem que a festa de São João, celebrada hoje, nada mais era do que outra festa pagã subtraída pela implacável igreja católica. Nesta data, os antigos comemoravam no hemisfério norte o solsistício de verão (o dia mais longo do ano) e homenageavam o deus Sol. E como era a celebração? Com uma grande fogueira...

sábado, 9 de junho de 2007

Caridade

Não sei se vcs repararam, mas o exercício da caridade é um ponto em comum entre algumas religiões, como o judaísmo, budismo, espiritismo, umbanda, catolicismo etc. O ato de dar é um dos pilares principais para o bem-estar da pessoa, seja material ou espiritual. Há uma frase que é atribuída a Buda que diz que "se soubéssemos qual o fruto do ato de dar, nós não deixaríamos passar nem sequer uma simples refeição sem dividi-la".

Pensem nisso e comecem a fazer caridade. Atos simples como oferecer refeição para povo na rua (uma pessoa que seja), dar aulas de reforço para crianças carentes, fazer doação de alimentos para orfanato ou asilo, dar kits de lápis de cor e caderno de desenho para crianças na rua etc são exemplos de envolvimento direto na caridade. Mas se vc não tem muito tempo disponível, pode ajudar com uma pequena contribuição em dinheiro alguma associação de caridade que vc conheça (e é bom conhecer mesmo para ver como o trabalho é desenvolvido) .

Pronto. Garanto que você vai se sentir outra pessoa e com energia renovada após um ato de caridade. Além disso, se cada um ajudasse um pouquinho que fosse, as desigualdades sociais no Brasil seriam bem menores. Mãos à obra!

segunda-feira, 14 de maio de 2007

O brasileiro e a religião

Passei batido no especial religiões da Folha publicado em 6 de maio, mas tento recuperar o tempo perdido. Aliás, excelente caderno e merece uma leitura atenta. O jornal fez uma bela pesquisa de opinião e praticamente referendou o que todo mundo já sabia: ao mesmo tempo que existe um sincretismo religioso nato do brasileiro também há muita desinformação e preconceito. Por exemplo, 57% dos entrevistados acreditam que os umbandistas têm parte com o demônio. 49% vinculam a religião muçulmana com o terrorismo.
Já o sincretismo está patente nos seguintes dados na interpretação de Reginaldo Prandi: "17% dos brasileiros freqüentam cultos ou serviços religiosos de alguma religião diferente da que professam. Esse número sobe a 19% entre os católicos, cresce para 37% entre os umbandistas e chega a 48% entre os seguidores do candomblé. Mais sectários, os evangélicos pentecostais se mostram numa cifra bem mais modesta: 9%. E o que vão fazer numa religião que não é a sua? Uns vão participar de atos com finalidade religiosa. Outros, presenciar ritos como casamento e funeral, numa atividade mais social que religiosa. Não raro, a coisa se faz por necessidade religiosa ou mágica, uma religião complementando outra. Isso é comum no Brasil, pelo caráter sincrético de nossas religiões. Umas mais, outras menos, toda religião é sincrética. "
Mas para mim o melhor foi o texto do publicitário Nizan Guanaes. Com o título Sou católico, apostólico, baiano, ele discorre sobre sua religião o candomblé. Alguns trechos:
"O candomblé não é religião. É culto aos antepassados, às forças da natureza. É moderno. Já era ecológico antes que a ecologia entrasse em voga. Não exclui opções sexuais. Ao contrário, acolhe. Os deuses do candomblé têm ira, inveja e raiva. Xangô é colérico. Oxum é ciumenta e chorosa. Ogum tem o pavio curto. Não é muito chique ser do candomblé. Pelo menos na parte do país em que vivo. Como toda cultura vinda dos vencidos, é visto como desvio, coisa de gente desajustada ou artista. E confesso que isso, ao contrário de me afastar dele, sempre me instigou a caminhar contra o vento. Toda sexta-feira vejo o olhar jocoso com que algumas pessoas me olham vestido de branco. O candomblé é o culto do bem. Tantas vezes confundido com feitiço. Se alguém usou esses poderes santos para o mal, é descaminho. E contra ele a força deve ter se voltado. O catolicismo não pode ser julgado a partir de padres pedófilos. E o candomblé não pode ser julgado a partir de pais-de-santo picaretas. Candomblé é magia."

Abaixo links para ler o especial e os artigos mencionados (para assinantes)
Artigo de Nizan Guanaes
Texto completo de Reginaldo Prandi

quarta-feira, 18 de abril de 2007

Uma festa pagã

No último sábado fui convidado a um casamento celebrado segundo os rituais da Umbanda. Na cerimônia não existe um formalismo espartano, como na da igreja católica, por exemplo. Conta sim com algum ritual, mas no geral reina um certo improviso. O que mais me chamou a atenção foi ver ao vivo um evento bem próximo das antigas tradições pagãs. A noiva e o noivo estavam vestidos com panos brancos e descalços (assim como os convidados). A noiva e a dama de honra com guirlanda (composta só de flores e ramagens verdadeiras) pareciam ter saído do mundo dos elfos do Senhor do Anéis. No decorrer do evento, oferendas aos quatro elementos (terra, água, ar e fogo), sal e pão para garantir a felicidade e a prosperidade do casal e muita música ao som de atabaques e palmas. Tudo bem festivo, bonito e empolgante. Interessante este resgate da importância dos elementos da natureza em nossas vidas, de toda a simbologia envolvida e da saudação há vários deuses (ou entidades). Uma pena que com a ascensão da igreja católica estes ritos foram sendo duramente banidos e considerados como heresia. Como nada se perde e tudo se transforma, ainda vemos nos casamentos católicos noivas casando de branco e tendo grinaldas em suas cabeças.

terça-feira, 17 de abril de 2007

Conexões ocultas

Quem acompanha este blog deve estar se perguntando: "Mas que diabos. O cara escreve sobre física quântica, espiritualidade e depois desembesta a falar sobre sustentabilidade!?" Ora, não tem nada de estranho. Ao contrário, se este escriba não abordasse todos estes temas aí sim seria suspeito. Vejam, tudo neste universo está correlacionado. Vivemos uma série de conexões ocultas (peguei emprestado o título de um livro de Fritjof Capra) que talvez no futuro conseguiremos desvendar. A religiosidade e o meio ambiente, por exemplo, sempre estiveram relacionados. Os povos mais primitivos adoravam as forças da natureza (até porque não as compreendiam), como a chuva, o calor do sol, a terra e o vento. E isso não está relegado à história. A religião sempre vai se reciclando e incorporando tradições de outros povos. Foi assim quando os deuses gregos foram cooptados pelos romanos. Ou o cristianismo quando se apropriou de algumas referências ao deus Mitra para vestir Cristo. Isso sem falar aqui no Brasil com a vinda dos escravos e o seu Candomblé. A Umbanda nada mais é do que uma variação destas tradições africanas com o jeitinho brasileiro. E vejam vcs: é uma mescla de respeito aos quatro elementos da natureza com a incorporação do espiritual. Se formos mais longe e extrapolarmos para a tese de Amit Goswami em sua Física da Alma, aí juntamos também a física quântica e a metafísica e conseguimos explicar a comunicação de espíritos com os médiuns. Viram a beleza das conexões ocultas?

Pesquise no Buscapé livros de Amit Goswani e Fritjof Capra

sexta-feira, 30 de março de 2007

Criação

Alguns livros marcam a vida de uma pessoa. Outros a transformam. No meu caso, além do já mencionado O Poder do Mito (ver post abaixo), fiquei extasiado ao ler Criação, do escritor norte-americano Gore Vidal. A obra é um romance histórico e ocorre no século V antes de Cristo. O personagem principal transita pelo século de ouro de Atenas e conhece a Pérsia, Índia, Buda e Confúcio. Vidal passeia pelo lugares e eventos históricos como se tivesse presenciado cada um dos acontecimentos. Uma erudição sem igual e invejável. Mas o que me chamou a atenção na obra foi como ele demonstra que certos mitos e histórias, principalmente religiosas, nunca são originais. Sempre partem de um história já contada e a readaptam para os interesses da época. Por exemplo, existia no oriente um deus muito famoso chamado Mitra, criador da luz. Ele teria nascido no dia 25 de Dezembro, em uma caverna. Era um deus que encarnou para viver entre os homens e morreu para que todos fossem salvos. Nós já não ouvimos esta história antes? Tire Mitra e coloque Jesus e o cenário não muda. Com o advento do cristianismo e sua aceitação pelo imperador romano Constantino houve a fusão dos personagens. Mitra também era um deus muito popular entre os romanos e, convenientemente, sua história serviu para ajudar a criar o mito de Jesus. Sugiro dois links para quem quiser saber mais sobre o deus Mitra. Um é do Saindo da Matrix e outro do The Cauldron.

Pesquise no Buscapé preços de livros do escritor Gore Vidal