De todo o Sermão da Montanha esta frase talvez seja a mais enigmática: "Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos" (Mateus 5:6). Na transcrição mais coloquial da Bíblia da CNBB, "Felizes os que têm fome e sede da justiça, porque serão saciados.". O que Jesus quis dizer com isso? E lá fomos nós atrás de informações que pudessem elucidar este enigma.
Uma possível chave é olhar pelo lado reverso da questão, ou seja, a injustiça. E neste quesito o nosso planetinha azul é bem pródigo. Podemos sofrer injustiças em muitos níveis. Em nosso dia a dia, por exemplo, encontramos terreno fértil para a falta de justiça nas relações comerciais, na convivência com colegas de trabalho, vizinhos e familiares. Muitas vezes ficamos perplexos e impotentes para reagir a uma situação negativa como essa.
Recorrer à Justiça em qualquer parte do mundo não é garantia de ser atendido. Invariavelmente você precisa ter bons advogados para conseguir ser competitivo neste mundo do direito. E para isso você precisa de dinheiro para pagar os honorários. Quem não tem uma reserva financeira, fica ao relento e com uma causa perdida.
Outra forma de injustiça é a acumulação de riqueza nas mãos de uns poucos privilegiados. Uma grotesca concentração de renda. Um dos vários indicadores nessa área mostra que a renda média dos 20 países mais ricos do mundo corresponde a 37 vezes a renda dos países mais pobres. Outra afronta são os valores pagos a presidentes de empresa que muitas vezes passam das 200 vezes o menor salário. Fora os bônus obtidos de forma suspeita como a crise de 2007 escancarou para o mundo. Empresas quebradas que artificialmente manipulavam suas contas para parecer que havia lucro em vez de prejuízo e assim garantir um polpudo pagamento extra no final do ano.
E devemos ficar passivos vendo tanta injustiça? Apesar de não podermos fazer muita coisa, precisamos manter este espírito de inconformidade. Afinal, felizes os que têm fome e sede de justiça, como falou Jesus. No livro, Bem-aventuranças - caminho para uma vida feliz, o monge Anselm Grüm explica que todos nós precisamos lutar para sempre fazer o que é certo. "Tal batalha pode ser cansativa, mas também torna felizes aqueles que, do fundo do coração, se comprometem com a causa", afirma Grüm.
Ele alerta, porém, que o desejo por justiça aqui na Terra permanecerá incompleto. No entanto, citando o antigo teólogo místico Gregório de Nissa, a procura por justiça vai tornar o ser humano interiormente satisfeito. E da busca incessante surgirá a experiência do que é bom, do que é certo, de como viver, e se esforçar por uma vida feliz.
Para quem espera alguma punição para os causadores das injustiças, o Espiritismo traz um alento. No livro, Os quatro sermões de Jesus, o autor Paulo Alves Godoy afirma que "os que se tornaram instrumentos das injustiças, serão defrontados com duros revezes espirituais" quando desencarnarem. Pela lei de causa e efeito, deverão reparar o que fizeram em vidas futuras sob a forma de expiação.
Seja como for o importante é ter uma vida correta e justa e lutar para que o nosso mundo seja um pouco menos injusto. Daí vem a bem-aventurança.
Leia também
Bem-aventuranças: o sermão
Os pobres de espírito
Os tristes felizes
Os amáveis
Ciência, lógica, antropologia, mitos, sonhos, universos e outras dimensões
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
Os famintos
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Mark Lobato
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quinta-feira, 24 de novembro de 2011
Religião para ateus
Um dos filósofos atuais que mais gosto é o suíço Alain de Botton. Quem acompanha este blog sabe que em muitos posts menciono as ideias dele. É só clicar no marcador filosofia para ver alguns destes textos. Um deles, Schopenhauer e o amor, é um dos mais acessados por aqui. Gosto dele porque ele é simples, direto e sem afetação em suas explicações. E o melhor de tudo: foca a filosofia no dia a dia das pessoas. Tenta trazer respostas para nossas angústias, medos, amores, raivas, inseguranças etc. É a filosofia usada para melhorar o nosso interior e para que possamos viver com mais tranquilidade. Os espíritas chamariam isso de reforma íntima e usariam os ensinamentos de Jesus como norte. Botton é ateu e usa os filósofos para ir nesta mesma direção.
Ele esteve no Brasil por esses dias para o lançamento do livro Religião para Ateus, que ainda não tive a oportunidade de ler, mas em breve vou fazer isso e postar algumas considerações por aqui. Bom, o interessante é que ele concedeu uma entrevista para a revista Exame que gostaria de compartilhar com vocês. Um bate papo com boas perguntas e ótimas respostas. Coloquei a íntegra abaixo. Espero que gostem.
Ele esteve no Brasil por esses dias para o lançamento do livro Religião para Ateus, que ainda não tive a oportunidade de ler, mas em breve vou fazer isso e postar algumas considerações por aqui. Bom, o interessante é que ele concedeu uma entrevista para a revista Exame que gostaria de compartilhar com vocês. Um bate papo com boas perguntas e ótimas respostas. Coloquei a íntegra abaixo. Espero que gostem.
“Nós somos uma espécie ingrata”, diz filósofo Alain de Botton
Em entrevista a EXAME.com, o filósofo do cotidiano falou sobre o desejo de status e o paradoxo do sucesso material
São Paulo – Sem frases altamente complexas ou raciocínios muito abstratos, o filósofo suíço Alain de Botton expõe as ideias que tem construído ao longo de quase duas décadas de carreira. Ele popularizou a filosofia com seus livros, focado nos problemas do cotidiano e sempre recorrendo a uma bagagem de diversos pensadores e artistas.
Uma delas é “Como Proust pode mudar sua vida” (1997), onde o autor usa os ensinamentos de Marcel Proust para ajudar o leitor em campos como o amor, o sofrimento, a felicidade, a arte e a amizade. Já na obra “Desejo de Status” (2004), Alain de Botton fala sobre a ansiedade de ter status e riqueza, e da frustração que isso causa, quando o sucesso não é alcançado.Nesta semana, de Botton veio ao Brasil para participar do ciclo de palestras Fronteiras do Pensamento e para lançar sua obra mais recente, “Religião para Ateus” (2011). No livro, ele fala sobre os ensinamentos que as religiões podem dar mesmo àqueles que não possuem uma crença. Antes, o filósofo escreveu outras nove publicações que foram best-sellers.
Diferentemente da ambição, que é uma vontade de crescer para satisfação pessoal, o “desejo de status” se origina da preocupação com o que os outros vão pensar. As consequências podem ser várias, desde a riqueza até o suicídio. É exatamente sobre esse assunto que o filósofo falou a EXAME.com. Confira trechos da entrevista.
EXAME.com: De que depende a felicidade no trabalho?
Alain de Botton: Felicidade no trabalho é muito complicada. Eu acho que ela basicamente depende de algo dentro de você. Algo precioso e importante, uma habilidade, um talento, um interesse sendo conectados com algo no mundo que gera dinheiro. Na maior parte do tempo, as coisas pelas quais a gente realmente se importa não fazem dinheiro. E as coisas que fazem dinheiro nos matam por dentro. Nós não gostamos de fazê-las. Esse é o problema do capitalismo. A maior parte do dinheiro no mundo moderno é gerada em empresas que não são tão interessantes para nosso espírito, para nossas mentes
Alain de Botton: Felicidade no trabalho é muito complicada. Eu acho que ela basicamente depende de algo dentro de você. Algo precioso e importante, uma habilidade, um talento, um interesse sendo conectados com algo no mundo que gera dinheiro. Na maior parte do tempo, as coisas pelas quais a gente realmente se importa não fazem dinheiro. E as coisas que fazem dinheiro nos matam por dentro. Nós não gostamos de fazê-las. Esse é o problema do capitalismo. A maior parte do dinheiro no mundo moderno é gerada em empresas que não são tão interessantes para nosso espírito, para nossas mentes
EXAME.com: As pessoas estão mais infelizes com suas carreiras e seu trabalho atualmente em relação às gerações de décadas atrás?
de Botton: Esse é definitivamente o caso em que quanto mais você espera da vida, mais a vida tem que dar, do contrário, você fica infeliz. É o paradoxo do sucesso material. À medida que a sociedade fica mais bem sucedida, as expectativas das pessoas aumentam e, por isso, elas ficam ingratas sobre coisas que seus pais ou seus avós ficariam muito agradecidos. Nós somos uma espécie ingrata. Nós sempre pensamos naquilo que nós não temos. Não se trata de não tentar conseguir mais, mas, na medida em que tentamos conseguir mais, nós deveríamos sempre lembrar que isso vai entregar apenas uma pequena porcentagem da felicidade que nós imaginamos. Nós devemos estar prontos para isso.
de Botton: Esse é definitivamente o caso em que quanto mais você espera da vida, mais a vida tem que dar, do contrário, você fica infeliz. É o paradoxo do sucesso material. À medida que a sociedade fica mais bem sucedida, as expectativas das pessoas aumentam e, por isso, elas ficam ingratas sobre coisas que seus pais ou seus avós ficariam muito agradecidos. Nós somos uma espécie ingrata. Nós sempre pensamos naquilo que nós não temos. Não se trata de não tentar conseguir mais, mas, na medida em que tentamos conseguir mais, nós deveríamos sempre lembrar que isso vai entregar apenas uma pequena porcentagem da felicidade que nós imaginamos. Nós devemos estar prontos para isso.
EXAME.com: O senhor diz que meritocracia não é 100% eficiente. Na sua opinião, há um modo melhor de avaliar as pessoas e suas competências, que possa reduzir o “desejo de status”?
de Botton: Nós deveríamos sempre tentar criar um mundo meritocrático, um mundo onde, se você tiver talento e energia, você deveria conseguir subir. O problema é que nós devemos sempre reconhecer que isso é um sonho do mundo perfeito. Porque todos nós somos mais talentosos, mais interessantes, mais habilidosos do que o mundo poderá saber, que nós poderemos saber um dia. O sonho é a gente poder pegar tudo que é bom em nós e fazer dinheiro com isso. Isso é uma coisa que apenas 0,001% da população pode um dia fazer. Nós precisamos reconhecer isso, falar sobre isso e nos entristecer com relação a isso, juntos, em uma sexta-feira à noite após o trabalho.
de Botton: Nós deveríamos sempre tentar criar um mundo meritocrático, um mundo onde, se você tiver talento e energia, você deveria conseguir subir. O problema é que nós devemos sempre reconhecer que isso é um sonho do mundo perfeito. Porque todos nós somos mais talentosos, mais interessantes, mais habilidosos do que o mundo poderá saber, que nós poderemos saber um dia. O sonho é a gente poder pegar tudo que é bom em nós e fazer dinheiro com isso. Isso é uma coisa que apenas 0,001% da população pode um dia fazer. Nós precisamos reconhecer isso, falar sobre isso e nos entristecer com relação a isso, juntos, em uma sexta-feira à noite após o trabalho.
EXAME.com: As redes sociais, como Facebook e Twitter, que permitem que as pessoas se tornem webcelebridades, aumentam o “desejo de status”? O que o senhor pensa sobre esse assunto?
de Botton: As redes sociais oferecem às pessoas uma maneira de ter status fora do sistema financeiro. Porque muita gente acessa o Twitter, por exemplo, não por dinheiro, mas simplesmente porque elas gostam de ter outras pessoas ouvindo o que elas querem falar e respondendo a elas. Isso mostra uma coisa muito interessante sobre a natureza humana, que é que, mesmo que nós gostemos de ganhar dinheiro, no final do dia, ainda mais importante do que dinheiro, depois de um momento básico, é o amor. Nós queremos o amor do mundo.
de Botton: As redes sociais oferecem às pessoas uma maneira de ter status fora do sistema financeiro. Porque muita gente acessa o Twitter, por exemplo, não por dinheiro, mas simplesmente porque elas gostam de ter outras pessoas ouvindo o que elas querem falar e respondendo a elas. Isso mostra uma coisa muito interessante sobre a natureza humana, que é que, mesmo que nós gostemos de ganhar dinheiro, no final do dia, ainda mais importante do que dinheiro, depois de um momento básico, é o amor. Nós queremos o amor do mundo.
EXAME.com: No Brasil, tem havido um aumento do número de ateus e agnósticos, segundo levantamentos recentes. A falta de fé pode tornar mais difícil lidar com o “desejo de status”?
de Botton: Eu sou um ateu, então eu não acho que a resposta seja nós nos voltarmos para a fé. Mas, sim, quando a religião declina, certas coisas realmente pioram do ponto de vista dessa ansiedade. Mesmo um rei, no Cristianismo, fica de joelhos diante de Jesus. Essa é uma ideia muito bonita e, uma vez que você se livra de Jesus, o que você tem? O que vai ser maior do que a humanidade? O perigo é: nada. O perigo é nós pensarmos “nós somos fantásticos. Nós temos Steve Jobs, que inventou o iPad”.
de Botton: Eu sou um ateu, então eu não acho que a resposta seja nós nos voltarmos para a fé. Mas, sim, quando a religião declina, certas coisas realmente pioram do ponto de vista dessa ansiedade. Mesmo um rei, no Cristianismo, fica de joelhos diante de Jesus. Essa é uma ideia muito bonita e, uma vez que você se livra de Jesus, o que você tem? O que vai ser maior do que a humanidade? O perigo é: nada. O perigo é nós pensarmos “nós somos fantásticos. Nós temos Steve Jobs, que inventou o iPad”.
Nós nos adoramos e isso nos leva à loucura. Nós precisamos de momentos em que podemos fugir do narcisismo humano e olhar para outros lugares. É por isso que as pessoas hoje estão mais impressionadas com a natureza. Não é apenas uma questão ambiental, é também uma questão psicológica. Você olha para a natureza e pensa: isso é uma coisa que existe fora da humanidade. E ela é maravilhosa, porque ela não pensa em nós, assim como animais, árvores, estrelas, até mesmo crianças pequenas. Esses são exemplos de coisas que estão fora do sistema do dinheiro, fora do sistema do status, e elas são muito, muito relaxantes e necessárias para nossa alma.
EXAME.com: O senhor também diz que ninguém é independente e auto-suficiente. Onde é possível encontrar ajuda e conselhos para lidar com nossos problemas, dúvidas e ansiedade?
de Botton: Bem, o interessante é que o mundo moderno, onde nós temos tanto de tudo, que é tão bom em dar-nos carros, roupas e todo resto, quando diz respeito à nossa vida interior, a ajuda é quase como a Rússia nos tempos comunistas. É muito, muito má. O modelo mais sistemático que existe para a vida interior é provavelmente a psicoterapia, que no Brasil e no resto é ainda uma coisa menor. Acho que precisamos de ajuda, e minha esperança é que os empreendedores do futuro não pensem apenas no corpo e suas necessidades, mas também pensem na mente e em suas necessidades.
de Botton: Bem, o interessante é que o mundo moderno, onde nós temos tanto de tudo, que é tão bom em dar-nos carros, roupas e todo resto, quando diz respeito à nossa vida interior, a ajuda é quase como a Rússia nos tempos comunistas. É muito, muito má. O modelo mais sistemático que existe para a vida interior é provavelmente a psicoterapia, que no Brasil e no resto é ainda uma coisa menor. Acho que precisamos de ajuda, e minha esperança é que os empreendedores do futuro não pensem apenas no corpo e suas necessidades, mas também pensem na mente e em suas necessidades.
EXAME.com: Quais são as possíveis soluções para o “desejo de status”?
de Botton: O maior inimigo nesta situação é a solidão, paranoia, a sensação de que estamos completamente sozinhos. É muito vergonhoso sentir o “desejo de status”. Ele não é algo que você pode realmente admitir, não é fácil admitir a inveja de alguém. E, ainda assim, a inveja é enorme. Eu acredito que nós precisamos de alguns mecanismos para admitir isso, nós precisamos de amizades que são capazes de aceitar esse nosso lado, nós precisamos ser capazes de falar sobre isso.Todo problema é reduzido ao se falar sobre ele. E nós precisamos achar grupos de status que serão tolerantes e faça-nos sentir relativamente relaxados. No mundo moderno, nós somos jogados contra pessoas que realmente destroem nossa paz interior, suas ambições nos levam à loucura e, talvez isso não seja para nós. Talvez nós precisemos apenas perder alguns amigos. Meu conselho seria fazer alguns amigos e perder outros, para nos focarmos no que nós realmente queremos.
de Botton: O maior inimigo nesta situação é a solidão, paranoia, a sensação de que estamos completamente sozinhos. É muito vergonhoso sentir o “desejo de status”. Ele não é algo que você pode realmente admitir, não é fácil admitir a inveja de alguém. E, ainda assim, a inveja é enorme. Eu acredito que nós precisamos de alguns mecanismos para admitir isso, nós precisamos de amizades que são capazes de aceitar esse nosso lado, nós precisamos ser capazes de falar sobre isso.Todo problema é reduzido ao se falar sobre ele. E nós precisamos achar grupos de status que serão tolerantes e faça-nos sentir relativamente relaxados. No mundo moderno, nós somos jogados contra pessoas que realmente destroem nossa paz interior, suas ambições nos levam à loucura e, talvez isso não seja para nós. Talvez nós precisemos apenas perder alguns amigos. Meu conselho seria fazer alguns amigos e perder outros, para nos focarmos no que nós realmente queremos.
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terça-feira, 15 de novembro de 2011
Os amáveis
Em nossa escalada pela montanha da elevação espiritual, na busca pela reforma interior, vamos hoje conhecer um novo degrau. Quando Jesus fez o sermão da Montanha, uma de suas frases emblemáticas foi algo como felizes os amáveis, pois eles herdarão a Terra. No evangelho de Mateus (5:4), a frase literal seria “Bem-aventurados aqueles que são mansos, porque possuirão a Terra”. Um pouco mais para frente temos o seguinte versículo que complementa a frase acima (5:9): “Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados de filhos de Deus”.
Este degrau é um dos mais complicados para se alcançar, pois trata do combate aos sentimentos negativos mais comuns que temos, como a raiva, o ódio, o orgulho e a impaciência. Complicado porque neste mundo hostil em que vivemos não é nada fácil ser manso e pacífico. Sugere até uma irrealidade, como se tivéssemos que viver como Polyanas em um mundo cor de rosa.
Porém, se pararmos para pensar um pouco percebemos que estes sentimentos negativos, por mais comuns que sejam, nos levam sempre ao desequilíbrio emocional. Por tabela, nos sentimos mal após a catarse. Neste momento, a razão que foi escanteada pela emoção, retoma o controle e nos mostra que aquela atitude não foi a mais adequada.
Um padre da época primitiva da Igreja, quando o humanismo ainda era a tônica das mensagens eclesiais, percebeu que a chave para se ter o controle das emoções era a de treinar a busca incessante pela mansidão. Ou seja, era uma virtude que precisava ser adquirida. Nas palavras de Gregório de Nissa, “felizes aqueles que não cedem facilmente às moções da paixão da sua alma, mas que, por meio da moderação, preservam a calma interior; aqueles nos quais a razão, como uma rédea, freia os impulsos e não permite que a alma dispare descontroladamente em atos violentos”.
Quem trilha este caminho com o coração e não apenas na aparência, pode conseguir mudanças interessantes no comportamento das pessoas com que interage, segundo diz o monge Anselm Grün. “Mansidão e amabilidade podem ter uma influência boa sobre a resistência dos colegas de trabalho....Ela (a mansidão) é como a água que amolece a pedra dura”.
Anselm acredita que para conseguirmos chegar neste estágio precisamos primeiro ter compaixão interna. Ele ensina que pessoas que nunca estão satisfeitas consigo mesmas e, por tabela, com outros seres, jamais alcançarão a harmonia. O antídoto seria sermos menos rígidos com nós mesmos. Só assim teremos condições de estarmos em harmonia interior e com as demais pessoas. “O manso tem a coragem necessária para admitir tudo o que acontece em seu íntimo...Quando fica firme em sua mansidão, também no trato das pessoas, modificará a terra”.
Para os espíritas kardecistas, o trecho “herdarão a Terra” desta bem-aventurança teria o significado de que no futuro, quando nosso planeta deixar de ser um lugar de provas e expiações para se tornar um mundo de regeneração, os mansos e pacíficos, aqueles que cultivaram o amor e a caridade com o próximo, vão permanecer por aqui. Já as pessoas (espíritos) cujas vibrações estejam fora desta sintonia vão ser levadas para outro planeta e iniciarão nova jornada rumo à paciência e à mansidão.
Leia também
Bem-aventuranças: o sermão
Os pobres de espírito
Os tristes felizes
Os famintos
Este degrau é um dos mais complicados para se alcançar, pois trata do combate aos sentimentos negativos mais comuns que temos, como a raiva, o ódio, o orgulho e a impaciência. Complicado porque neste mundo hostil em que vivemos não é nada fácil ser manso e pacífico. Sugere até uma irrealidade, como se tivéssemos que viver como Polyanas em um mundo cor de rosa.
Porém, se pararmos para pensar um pouco percebemos que estes sentimentos negativos, por mais comuns que sejam, nos levam sempre ao desequilíbrio emocional. Por tabela, nos sentimos mal após a catarse. Neste momento, a razão que foi escanteada pela emoção, retoma o controle e nos mostra que aquela atitude não foi a mais adequada.
Um padre da época primitiva da Igreja, quando o humanismo ainda era a tônica das mensagens eclesiais, percebeu que a chave para se ter o controle das emoções era a de treinar a busca incessante pela mansidão. Ou seja, era uma virtude que precisava ser adquirida. Nas palavras de Gregório de Nissa, “felizes aqueles que não cedem facilmente às moções da paixão da sua alma, mas que, por meio da moderação, preservam a calma interior; aqueles nos quais a razão, como uma rédea, freia os impulsos e não permite que a alma dispare descontroladamente em atos violentos”.
Quem trilha este caminho com o coração e não apenas na aparência, pode conseguir mudanças interessantes no comportamento das pessoas com que interage, segundo diz o monge Anselm Grün. “Mansidão e amabilidade podem ter uma influência boa sobre a resistência dos colegas de trabalho....Ela (a mansidão) é como a água que amolece a pedra dura”.
Anselm acredita que para conseguirmos chegar neste estágio precisamos primeiro ter compaixão interna. Ele ensina que pessoas que nunca estão satisfeitas consigo mesmas e, por tabela, com outros seres, jamais alcançarão a harmonia. O antídoto seria sermos menos rígidos com nós mesmos. Só assim teremos condições de estarmos em harmonia interior e com as demais pessoas. “O manso tem a coragem necessária para admitir tudo o que acontece em seu íntimo...Quando fica firme em sua mansidão, também no trato das pessoas, modificará a terra”.
Para os espíritas kardecistas, o trecho “herdarão a Terra” desta bem-aventurança teria o significado de que no futuro, quando nosso planeta deixar de ser um lugar de provas e expiações para se tornar um mundo de regeneração, os mansos e pacíficos, aqueles que cultivaram o amor e a caridade com o próximo, vão permanecer por aqui. Já as pessoas (espíritos) cujas vibrações estejam fora desta sintonia vão ser levadas para outro planeta e iniciarão nova jornada rumo à paciência e à mansidão.
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quinta-feira, 3 de novembro de 2011
Os tristes felizes
No sermão da Montanha, Jesus segue o seu rosário de bem-aventuranças. Já mencionamos os pobres de espírito no post anterior. Agora, a frase encontrada no evangelho de Mateus (5:4) é “Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados”. Uma versão mais moderna destas palavras seria algo como “Felizes os tristes, pois serão consolados”.
De bate pronto, parece que estamos lidando com um Deus sádico que quer ver todos nós sofrendo. Isso não faz muito sentido se você acredita em uma divindade que nos quer bem, como Jesus cansou de pregar. Bom, se a leitura direta não é a mais adequada, qual seria então a interpretação apropriada?
Se você for espírita, conhece a lei da ação e da reação, uma variação do carma. Simplificando, se em uma encarnação você foi uma pessoa que abusou de práticas pouco éticas e enveredou pelo mau caminho, na próxima você terá que fazer algum tipo de acerto de contas. Poderá, por exemplo, sofrer de alguma doença, viver sempre em dificuldades financeiras etc.
Você vai padecer de tudo isso para ser testado a seguir em frente com resignação e sem tentar atalhos criminosos. Passando por essas provas com coragem e correção, você consegue melhorar, digamos, seu saldo cármico. Ou seja, você tem mais chances de sair do “Serasa espiritual”.
Óbvio que seria mais fácil aceitar as pedras no caminho se soubéssemos que passamos por dificuldades nesta vida porque estamos pagando por males feitos no passado. Mas como desconhecemos isso, corremos o risco de levarmos esta prova para o lado negativo e seguir uma jornada não apropriada. É fácil ficar revoltado, perguntar por que comigo?, entrar em depressão e até mesmo ir na direção do suicídio ou do crime. Afinal, temos o tal do livre-arbítrio que nos permite escolher a estrada que queremos percorrer: a da dor ou a do amor.
Por isso que a frase de Jesus diz que serão felizes os sofredores, pois serão consolados. Estes vão passar por maus bocados na Terra, mas, se agirem corretamente, quando desencarnarem conseguirão se elevar espiritualmente.
Na interpretação católica, a frase de Jesus ganha outra conotação, mas não muito diferente da dos espíritas na parte da resignação às dificuldades. O monge Anselm Grün, no livro Bem-aventuranças Caminho para uma vida feliz, explica que “consolo é firmeza. Quem assume a tristeza em relação a sua vida não vivida, a suas carências e perdas, ganha nova determinação. Tem chão firme sob os pés. Consegue ficar forte em relação a si mesmo. Conquista uma posição sólida...e experimenta o apoio de Deus, que fica ao seu lado e o sustenta para que, vencendo suas fraquezas, possa entrar em contato com o seu verdadeiro ser...”
Portanto, diante dessas interpretações, nada de muitas lamúrias frente às dificuldades já que você pode estar pagando por um saldo negativo de vidas passadas e/ou se fortalecendo para alcançar a paz interior.
Leia também
Bem-aventuranças: o sermão
Os pobres de espírito
Os amáveis
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De bate pronto, parece que estamos lidando com um Deus sádico que quer ver todos nós sofrendo. Isso não faz muito sentido se você acredita em uma divindade que nos quer bem, como Jesus cansou de pregar. Bom, se a leitura direta não é a mais adequada, qual seria então a interpretação apropriada?
Se você for espírita, conhece a lei da ação e da reação, uma variação do carma. Simplificando, se em uma encarnação você foi uma pessoa que abusou de práticas pouco éticas e enveredou pelo mau caminho, na próxima você terá que fazer algum tipo de acerto de contas. Poderá, por exemplo, sofrer de alguma doença, viver sempre em dificuldades financeiras etc.
Você vai padecer de tudo isso para ser testado a seguir em frente com resignação e sem tentar atalhos criminosos. Passando por essas provas com coragem e correção, você consegue melhorar, digamos, seu saldo cármico. Ou seja, você tem mais chances de sair do “Serasa espiritual”.
Óbvio que seria mais fácil aceitar as pedras no caminho se soubéssemos que passamos por dificuldades nesta vida porque estamos pagando por males feitos no passado. Mas como desconhecemos isso, corremos o risco de levarmos esta prova para o lado negativo e seguir uma jornada não apropriada. É fácil ficar revoltado, perguntar por que comigo?, entrar em depressão e até mesmo ir na direção do suicídio ou do crime. Afinal, temos o tal do livre-arbítrio que nos permite escolher a estrada que queremos percorrer: a da dor ou a do amor.
Por isso que a frase de Jesus diz que serão felizes os sofredores, pois serão consolados. Estes vão passar por maus bocados na Terra, mas, se agirem corretamente, quando desencarnarem conseguirão se elevar espiritualmente.
Na interpretação católica, a frase de Jesus ganha outra conotação, mas não muito diferente da dos espíritas na parte da resignação às dificuldades. O monge Anselm Grün, no livro Bem-aventuranças Caminho para uma vida feliz, explica que “consolo é firmeza. Quem assume a tristeza em relação a sua vida não vivida, a suas carências e perdas, ganha nova determinação. Tem chão firme sob os pés. Consegue ficar forte em relação a si mesmo. Conquista uma posição sólida...e experimenta o apoio de Deus, que fica ao seu lado e o sustenta para que, vencendo suas fraquezas, possa entrar em contato com o seu verdadeiro ser...”
Portanto, diante dessas interpretações, nada de muitas lamúrias frente às dificuldades já que você pode estar pagando por um saldo negativo de vidas passadas e/ou se fortalecendo para alcançar a paz interior.
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sexta-feira, 28 de outubro de 2011
Os pobres de espírito
Já mencionei de leve em post anterior a interpretação para este trecho do Sermão da Montanha, também conhecido como o sermão das bem-aventuranças, já que Jesus sempre começava suas frases no discurso com "Bem-aventurados...". No caso específico que vamos tratar hoje, a passagem seria "Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus". Consta em Mateus, capítulo 5, versículo 3, ou, na simbologia bíblica, 5:3. Em algumas transcrições, troca-se pobres de por pobres em. Em Lucas, 6:20, o espírito desaparece da frase: "Bem-aventurados vós que sois pobres, porque vosso é o Reino de Deus!".
Seja como for, a ideia central da mensagem aqui não é a de desqualificar o espírito. Rebaixá-lo como algo inferior. Ao contrário. A palavra "pobres" tem a conotação de pessoa humilde. Como explica Paulo Alves de Godoy no livro Os Quatro Sermões de Jesus, os orgulhosos preocupam-se com o mundo material e se acham superiores. Já os mais simples entendem esta questão como secundária e que o importante é a reforma íntima para alcançar a elevação no mundo espiritual.
Alguns filósofos vão mais fundo na questão. O monge Anselm Grün cita dois deles em seu livro Bem-aventuranças. Caminho para uma vida feliz. São considerados pensadores místicos, por procurarem na época em que viverem, na Idade Média, uma abordagem mais humanística das palavras de Jesus. Para Mestre Eckhart, o pobre em espírito seria quem não quer nada, não sabe nada e não tem nada.Afinal, nada nos pertence, nem uma pessoa, nem nossa casa, nem nossa vida. Podemos desfrutar disso por um tempo, mas tudo foi emprestado. É uma maneira elegante de não dar a mínima para o acúmulo de bens. Afinal, você é livre e não precisa ficar preso na neurose da acumulação de coisas.
Outro filósofo místico, Gregorio de Nissa, explicava que quem sem livrava da riqueza ficava mais leve para poder se elevar para o alto. A pobreza interior nos eleva a Deus, enquanto as posses nos empurram para baixo. Grün arremata todas essas considerações ao explicar que a "primeira bem-aventurança é um caminho para a liberdade interior e, assim, para a verdadeira felicidade." O mote aqui seria o desprendimento.
E ele finaliza o capítulo contando a fábula alemã João Sortudo. O personagem ganha uma barra de ouro, mas por ser muito pesada, ele troca por um cavalo. Este por sua vez é muito bravo e João não consegue controlá-lo. Aí ele faz outra troca e tem agora uma vaca. Depois vem um porco, um ganso e uma pedra de amolar. Até que um dia esta pedra cai na água e ele não tem mais nada. Justamente nesta hora ele começa a dançar e cantar porque sua felicidade não depende de posses, prazeres e sucessos. Está grato pela vida e feliz por ser capaz de desfrutar dela. A pobreza de espírito seria para Grün simplesmente viver, sem pretensão, aproveitar cada instante e estar grato por aquilo que existe. Só isso basta.
Leia também:
Compreendendo Jesus
Por parábolas
Bem-aventuranças: o sermão
Os tristes felizes
Os amáveis
Os famintos
Seja como for, a ideia central da mensagem aqui não é a de desqualificar o espírito. Rebaixá-lo como algo inferior. Ao contrário. A palavra "pobres" tem a conotação de pessoa humilde. Como explica Paulo Alves de Godoy no livro Os Quatro Sermões de Jesus, os orgulhosos preocupam-se com o mundo material e se acham superiores. Já os mais simples entendem esta questão como secundária e que o importante é a reforma íntima para alcançar a elevação no mundo espiritual.
Alguns filósofos vão mais fundo na questão. O monge Anselm Grün cita dois deles em seu livro Bem-aventuranças. Caminho para uma vida feliz. São considerados pensadores místicos, por procurarem na época em que viverem, na Idade Média, uma abordagem mais humanística das palavras de Jesus. Para Mestre Eckhart, o pobre em espírito seria quem não quer nada, não sabe nada e não tem nada.Afinal, nada nos pertence, nem uma pessoa, nem nossa casa, nem nossa vida. Podemos desfrutar disso por um tempo, mas tudo foi emprestado. É uma maneira elegante de não dar a mínima para o acúmulo de bens. Afinal, você é livre e não precisa ficar preso na neurose da acumulação de coisas.
Outro filósofo místico, Gregorio de Nissa, explicava que quem sem livrava da riqueza ficava mais leve para poder se elevar para o alto. A pobreza interior nos eleva a Deus, enquanto as posses nos empurram para baixo. Grün arremata todas essas considerações ao explicar que a "primeira bem-aventurança é um caminho para a liberdade interior e, assim, para a verdadeira felicidade." O mote aqui seria o desprendimento.
E ele finaliza o capítulo contando a fábula alemã João Sortudo. O personagem ganha uma barra de ouro, mas por ser muito pesada, ele troca por um cavalo. Este por sua vez é muito bravo e João não consegue controlá-lo. Aí ele faz outra troca e tem agora uma vaca. Depois vem um porco, um ganso e uma pedra de amolar. Até que um dia esta pedra cai na água e ele não tem mais nada. Justamente nesta hora ele começa a dançar e cantar porque sua felicidade não depende de posses, prazeres e sucessos. Está grato pela vida e feliz por ser capaz de desfrutar dela. A pobreza de espírito seria para Grün simplesmente viver, sem pretensão, aproveitar cada instante e estar grato por aquilo que existe. Só isso basta.
Leia também:
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Bem-aventuranças: o sermão
Os tristes felizes
Os amáveis
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terça-feira, 25 de outubro de 2011
Bem-aventuranças, o sermão
Um tema recorrente neste blog é a bem-aventurança. É um conceito que li primeiro em Joseph Campbell no Poder do Mito, mas foi e continua a ser utilizado por diversos autores. A ideia básica proposta é de você buscar sua felicidade. Ir atrás daquilo que vai ser melhor para você. Tanto que a frase clássica de Campbell e que ilustra a primeira página deste sítio virtual diz: "Persiga a sua bem-aventurança e não tenha medo, que as portas se abrirão, lá onde você não sabia que havia portas". Ou seja, vá atrás do que você sonha, quer, deseja, pois você vai alcançar. Óbvio que nada nesta vida é fácil, mas com persistência e sem se deixar abater com eventuais fracassos, a vitória é alcançada.
Mas estou dizendo tudo isso porque, não por acaso, um dos sermões de Jesus trata especificamente da bem-aventurança. É o famoso Sermão da Montanha. Acho que foi Gandhi quem disse uma frase que retrata bem a importância filosófica deste pronunciamento: se tudo o que Jesus escreveu fosse destruído, mas este sermão fosse conservado, já teríamos preservado todos os seus ensinamentos. Como em tudo que diz respeito às palavras de Cristo, há muito simbolismo em suas palavras e inúmeras são as interpretações. Até o fato dele ter proferido o sermão no alto de uma montanha teria um significado espiritual. Algo como estar mais próximo de Deus. A elevação representaria simbolicamente uma ligação entre o céu e a terra.
No caso deste sermão de Jesus, as bem-aventuranças que ele menciona nada mais seriam do que degraus de acesso ao topo desta montanha. Em outras palavras, seguindo aqueles ensinamentos do discurso qualquer um poderia chegar mais perto de Deus. Gregório de Nissa, um místico grego que viveu no século IV, já fazia naquela época interpretações nesta linha. Para ele, a montanha é o lugar onde seguimos Jesus para subir de nossas ideias baixas e limitadas para a montanha espiritual da mais nobre contemplação.
Não sei quanto a vocês, mas para mim tudo isso tem tido um impacto muito grande. É como se um véu fosse levantado. E curiosamente vou esbarrando sem querer em conteúdo que vai me abrindo outras portas. Dia desses estava no shopping e para fazer uma hora entrei na livraria. Olhava as estantes despreocupadamente quando vi um livrinho (no tamanho, não na qualidade) com um título interessante: "Bem-aventuranças. Caminho para uma vida feliz". Peguei a obra e fui ver seu interior. Para minha surpresa, era uma explicação trecho a trecho do sermão da Montanha escrito por Anselm Grün, um monge beneditino alemão de quem eu nunca tinha ouvido falar. O fato é que o livro é bem escrito, fluente, acessível e com muitas informações interessantes. Fui ver se ele tinha outras obras e fiquei espantado com a quantidade de títulos publicados. Comprei este da bem-aventurança e outros que explicam os evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João.
Enfim, estou mergulhado no tema e fascinado com as descobertas. A interpretação simbólica da montanha que mencionei há pouco, por exemplo, foi tirada deste livro de Anselm Grün. Nos próximos posts vou compartilhar algumas de suas revelações sobre o sermão da Montanha, começando com "bem-aventurados os pobres de espírito".
Leia também
Os pobres de espírito
Os tristes felizes
Os amáveis
Os famintos
Mas estou dizendo tudo isso porque, não por acaso, um dos sermões de Jesus trata especificamente da bem-aventurança. É o famoso Sermão da Montanha. Acho que foi Gandhi quem disse uma frase que retrata bem a importância filosófica deste pronunciamento: se tudo o que Jesus escreveu fosse destruído, mas este sermão fosse conservado, já teríamos preservado todos os seus ensinamentos. Como em tudo que diz respeito às palavras de Cristo, há muito simbolismo em suas palavras e inúmeras são as interpretações. Até o fato dele ter proferido o sermão no alto de uma montanha teria um significado espiritual. Algo como estar mais próximo de Deus. A elevação representaria simbolicamente uma ligação entre o céu e a terra.
No caso deste sermão de Jesus, as bem-aventuranças que ele menciona nada mais seriam do que degraus de acesso ao topo desta montanha. Em outras palavras, seguindo aqueles ensinamentos do discurso qualquer um poderia chegar mais perto de Deus. Gregório de Nissa, um místico grego que viveu no século IV, já fazia naquela época interpretações nesta linha. Para ele, a montanha é o lugar onde seguimos Jesus para subir de nossas ideias baixas e limitadas para a montanha espiritual da mais nobre contemplação.
Não sei quanto a vocês, mas para mim tudo isso tem tido um impacto muito grande. É como se um véu fosse levantado. E curiosamente vou esbarrando sem querer em conteúdo que vai me abrindo outras portas. Dia desses estava no shopping e para fazer uma hora entrei na livraria. Olhava as estantes despreocupadamente quando vi um livrinho (no tamanho, não na qualidade) com um título interessante: "Bem-aventuranças. Caminho para uma vida feliz". Peguei a obra e fui ver seu interior. Para minha surpresa, era uma explicação trecho a trecho do sermão da Montanha escrito por Anselm Grün, um monge beneditino alemão de quem eu nunca tinha ouvido falar. O fato é que o livro é bem escrito, fluente, acessível e com muitas informações interessantes. Fui ver se ele tinha outras obras e fiquei espantado com a quantidade de títulos publicados. Comprei este da bem-aventurança e outros que explicam os evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João.
Enfim, estou mergulhado no tema e fascinado com as descobertas. A interpretação simbólica da montanha que mencionei há pouco, por exemplo, foi tirada deste livro de Anselm Grün. Nos próximos posts vou compartilhar algumas de suas revelações sobre o sermão da Montanha, começando com "bem-aventurados os pobres de espírito".
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domingo, 23 de outubro de 2011
Por parábolas
Um amigo de velhos tempos leu os dois posts anteriores em que eu especulava sobre a forma de Jesus falar e como suas palavras poderiam ter sido alteradas ao longo do tempo, já que ele não deixou nada escrito e quase todos os evangelhos do Novo Testamento foram escritos no mínimo 50 anos após a sua morte. Talvez isso justifique a forma quase cifrada de suas frases e fazem com que muito papel e saliva sejam gastos para interpretar seus ensinamentos.
Este meu amigo discorda um pouco desta análise. Ele crê que realmente Jesus falava desta maneira porque não podia revelar tudo de uma vez. Ou seja, as pessoas daquela época não estariam preparadas para compreender a verdade em sua totalidade. Esta consciência se daria pouco a pouco ao longo de centenas de anos. Cada vez que a população subisse mais um degrau no patamar evolutivo, novas interpretações destas palavras seriam apresentadas.
Para corroborar esta tese ele me apresentou um capítulo do Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, e uma das obras fundamentais desta doutrina. O livro é voltado a explicar algumas palavras de Jesus segundo a mensagem dos espíritos. No capítulo 24, "Não coloque a candeia debaixo do alqueire", lemos que tudo tem o seu tempo de ser revelado, assim como acontece com o ser humano em seu aprendizado. Uma criança na primeira série não saberá ainda equações desenvolvidas apenas no ensino médio. A mesma coisa ocorre com os ensinamentos de Jesus.
No livro, surge a seguinte explicação: "É de causar admiração diga Jesus que a luz não deve ser colocada debaixo do alqueire, quando ele próprio constantemente oculta o sentido de suas palavras sob o véu da alegoria, que nem todos podem compreender. Ele se explica, dizendo a seus apóstolos: "Falo-lhes por parábolas, porque não estão em condições de compreender certas coisas. Eles vêem, olham, ouvem, mas não entendem. Fora, pois, inútil tudo dizer-lhes, por enquanto. Digo-o, porém, a vós, porque dado vos foi compreender estes mistérios." Procedia, portanto, com o povo, como se faz com crianças cujas idéias ainda se não desenvolveram. Desse modo, indica o verdadeiro sentido da sentença: "Não se deve pôr a candeia debaixo do alqueire, mas sobre o candeeiro, a fim de que todos os que entrem a possam ver." Tal sentença não significa que se deva revelar inconsideradamente todas as coisas. Todo ensinamento deve ser proporcionado à inteligência daquele a quem se queira instruir, porquanto há pessoas a quem uma luz por demais viva deslumbraria, sem as esclarecer".
Portanto, não é de surpreender que os próprios apóstolos não tenham compreendido bem os ensinamentos de Jesus. Diante desta lógica, Cristo falava há dois mil anos, mas suas palavras miravam o futuro, quando seriam melhor decodificadas. De qualquer forma, segundo o Evangelho Segundo o Espiritismo, Jesus não teria sido de todo enigmático. Muita coisa era de fácil compreensão para as pessoas da época. Diz o livro, "Pergunta-se: que proveito podia o povo tirar dessa multidão de parábolas, cujo sentido se lhe conservava impenetrável? E de notar-se que Jesus somente se exprimiu por parábolas sobre as partes de certo modo abstratas da sua doutrina. Mas, tendo feito da caridade para com o próximo e da humildade condições básicas da salvação, tudo o que disse a esse respeito é inteiramente claro, explícito e sem ambiguidade alguma. Assim devia ser, porque era a regra de conduta, regra que todos tinham de compreender para poderem observá-la. Era o essencial para a multidão ignorante, à qual ele se limitava a dizer: "Eis o que é preciso se faça para ganhar o reino dos céus." Sobre as outras partes, apenas aos discípulos desenvolvia o seu pensamento...Entretanto, mesmo com os apóstolos, conservou-se impreciso acerca de muitos pontos, cuja completa inteligência ficava reservada a ulteriores tempos. Foram esses pontos que deram ensejo a tão diversas interpretações, até que a Ciência, de um lado, e o Espiritismo, de outro, revelassem as novas leis da Natureza, que lhes tornaram perceptível o verdadeiro sentido..... Se, pois, os Espíritos ainda não dizem tudo ostensivamente, não é porque haja na Doutrina mistérios em que só alguns privilegiados possam penetrar, nem porque eles coloquem a lâmpada debaixo do alqueire; é porque cada coisa tem de vir no momento oportuno. Eles dão a cada ideia tempo para amadurecer e propagar-se, antes que apresentem outra, e aos acontecimentos o de preparar a aceitação dessa outra."
Em outras palavras, no futuro poderemos ser surpreendidos com novas interpretações e revelações que estavam ocultas nos ensinamentos de Jesus. Bom, não sei quanto vocês, mas estou aqui na torcida para que este tempo chegue logo.
Este meu amigo discorda um pouco desta análise. Ele crê que realmente Jesus falava desta maneira porque não podia revelar tudo de uma vez. Ou seja, as pessoas daquela época não estariam preparadas para compreender a verdade em sua totalidade. Esta consciência se daria pouco a pouco ao longo de centenas de anos. Cada vez que a população subisse mais um degrau no patamar evolutivo, novas interpretações destas palavras seriam apresentadas.
Para corroborar esta tese ele me apresentou um capítulo do Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, e uma das obras fundamentais desta doutrina. O livro é voltado a explicar algumas palavras de Jesus segundo a mensagem dos espíritos. No capítulo 24, "Não coloque a candeia debaixo do alqueire", lemos que tudo tem o seu tempo de ser revelado, assim como acontece com o ser humano em seu aprendizado. Uma criança na primeira série não saberá ainda equações desenvolvidas apenas no ensino médio. A mesma coisa ocorre com os ensinamentos de Jesus.
No livro, surge a seguinte explicação: "É de causar admiração diga Jesus que a luz não deve ser colocada debaixo do alqueire, quando ele próprio constantemente oculta o sentido de suas palavras sob o véu da alegoria, que nem todos podem compreender. Ele se explica, dizendo a seus apóstolos: "Falo-lhes por parábolas, porque não estão em condições de compreender certas coisas. Eles vêem, olham, ouvem, mas não entendem. Fora, pois, inútil tudo dizer-lhes, por enquanto. Digo-o, porém, a vós, porque dado vos foi compreender estes mistérios." Procedia, portanto, com o povo, como se faz com crianças cujas idéias ainda se não desenvolveram. Desse modo, indica o verdadeiro sentido da sentença: "Não se deve pôr a candeia debaixo do alqueire, mas sobre o candeeiro, a fim de que todos os que entrem a possam ver." Tal sentença não significa que se deva revelar inconsideradamente todas as coisas. Todo ensinamento deve ser proporcionado à inteligência daquele a quem se queira instruir, porquanto há pessoas a quem uma luz por demais viva deslumbraria, sem as esclarecer".
Portanto, não é de surpreender que os próprios apóstolos não tenham compreendido bem os ensinamentos de Jesus. Diante desta lógica, Cristo falava há dois mil anos, mas suas palavras miravam o futuro, quando seriam melhor decodificadas. De qualquer forma, segundo o Evangelho Segundo o Espiritismo, Jesus não teria sido de todo enigmático. Muita coisa era de fácil compreensão para as pessoas da época. Diz o livro, "Pergunta-se: que proveito podia o povo tirar dessa multidão de parábolas, cujo sentido se lhe conservava impenetrável? E de notar-se que Jesus somente se exprimiu por parábolas sobre as partes de certo modo abstratas da sua doutrina. Mas, tendo feito da caridade para com o próximo e da humildade condições básicas da salvação, tudo o que disse a esse respeito é inteiramente claro, explícito e sem ambiguidade alguma. Assim devia ser, porque era a regra de conduta, regra que todos tinham de compreender para poderem observá-la. Era o essencial para a multidão ignorante, à qual ele se limitava a dizer: "Eis o que é preciso se faça para ganhar o reino dos céus." Sobre as outras partes, apenas aos discípulos desenvolvia o seu pensamento...Entretanto, mesmo com os apóstolos, conservou-se impreciso acerca de muitos pontos, cuja completa inteligência ficava reservada a ulteriores tempos. Foram esses pontos que deram ensejo a tão diversas interpretações, até que a Ciência, de um lado, e o Espiritismo, de outro, revelassem as novas leis da Natureza, que lhes tornaram perceptível o verdadeiro sentido..... Se, pois, os Espíritos ainda não dizem tudo ostensivamente, não é porque haja na Doutrina mistérios em que só alguns privilegiados possam penetrar, nem porque eles coloquem a lâmpada debaixo do alqueire; é porque cada coisa tem de vir no momento oportuno. Eles dão a cada ideia tempo para amadurecer e propagar-se, antes que apresentem outra, e aos acontecimentos o de preparar a aceitação dessa outra."
Em outras palavras, no futuro poderemos ser surpreendidos com novas interpretações e revelações que estavam ocultas nos ensinamentos de Jesus. Bom, não sei quanto vocês, mas estou aqui na torcida para que este tempo chegue logo.
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quarta-feira, 19 de outubro de 2011
Compreendendo Jesus 2
É só falar de religião que o assunto repercute. No post anterior fiz algumas observações sobre a necessidade de se interpretar as palavras de Jesus, porque os seus termos não eram suficientemente claros. Recebi alguns e-mails polidos questionando essa minha afirmação. No geral, o resumo das alegações é que o Novo Testamento, assim como a Bíblia, é uma obra divina. Ou seja, o que está escrito lá é algo emanado por Deus. Portanto, não nos caberia questionar a clareza ou não das palavras que constam neste livro sagrado.
Compreendo e respeito essas afirmações. No entanto, temos que ter em mente que às vezes a interferência humana pode dificultar um pouco a comunicação. Causar ruídos indesejáveis na compreensão. Por exemplo, não sabemos se Jesus falava mesmo daquela maneira ou se suas palavras foram ajeitadas conforme o estilo do escriba que relatava seus feitos.
Devemos levar em consideração que se jornalistas de hoje cometem erros de interpretação ou mesmo de dados factuais quando escrevem uma matéria, imaginem há dois mil anos quando alguns dos autores dos evangelhos nem foram contemporâneos de Jesus ou demoraram mais de décadas para registrar as andanças do mestre por este planeta.
Lucas, por exemplo, não foi um dos discípulos e consta que sofreu influências de Paulo, de quem teria sido contemporâneo. Seu evangelho pode ter sido escrito perto do final do século 1, ou seja quase 100 anos depois do surgimento de Cristo. Os verbos no condicional mostram apenas que não há certeza de nada nesta história porque não existem registros históricos confiáveis.
Alguns estudiosos acreditam que Lucas se baseou também no evangelho de Marcos, um discípulo de Pedro, portanto outro que esteve bem distante da época de Jesus. Sobra Mateus, este sim discípulo e que teria escrito seu relato uns 50 anos depois da morte de Cristo. Mas até aqui há dúvidas se Mateus foi o autor mesmo. João, outro discípulo, compôs sua obra quase um século depois.
Por isso não é de se estranhar que existam algumas diferenças de relato entre os evangelhos. No exemplo que dei no post anterior, Mateus diz "bem-aventurados os pobres de espírito". Lucas não menciona espíritos e diz apenas "bem-aventurados os pobres". Para complicar ainda mais, em determinado momento da história a igreja resolveu uniformizar os evangelhos. Este trabalho coube a Jerônimo, que depois viria a ser santo e padroeiro dos bibliotecários e tradutores. Ele verteu os evangelhos do grego para o latim e definiu o material que deveria constar ou não. O concílio de Trento, realizado no século 16, aprovou oficialmente este conteúdo como o Novo Testamento.
Portanto, tem muita mão de gato nesta história e não dá para ter certeza de que as palavras de Jesus foram, em sua maioria, transcritas corretamente, inclusive no estilo de falar. Aí entra a fé de cada um. De qualquer forma, podemos afirmar com alguma segurança, já que este é um dos únicos consensos entre os estudiosos do assunto, que poderíamos resumir todos os ensinamento de Jesus em uma só palavra: amor. É o que basta e já é um grande desafio se pautar por esta ideia. Ou alguém acha fácil amar e perdoar seus inimigos? Ou quem nunca sentiu raiva, inveja e mágoa? Amar o próximo como a si mesmo é o nosso norte. O desafio é perseverar nesta direção.
Leia também
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Os pobres de espírito
Os tristes felizes
Compreendo e respeito essas afirmações. No entanto, temos que ter em mente que às vezes a interferência humana pode dificultar um pouco a comunicação. Causar ruídos indesejáveis na compreensão. Por exemplo, não sabemos se Jesus falava mesmo daquela maneira ou se suas palavras foram ajeitadas conforme o estilo do escriba que relatava seus feitos.
Devemos levar em consideração que se jornalistas de hoje cometem erros de interpretação ou mesmo de dados factuais quando escrevem uma matéria, imaginem há dois mil anos quando alguns dos autores dos evangelhos nem foram contemporâneos de Jesus ou demoraram mais de décadas para registrar as andanças do mestre por este planeta.
Lucas, por exemplo, não foi um dos discípulos e consta que sofreu influências de Paulo, de quem teria sido contemporâneo. Seu evangelho pode ter sido escrito perto do final do século 1, ou seja quase 100 anos depois do surgimento de Cristo. Os verbos no condicional mostram apenas que não há certeza de nada nesta história porque não existem registros históricos confiáveis.
Alguns estudiosos acreditam que Lucas se baseou também no evangelho de Marcos, um discípulo de Pedro, portanto outro que esteve bem distante da época de Jesus. Sobra Mateus, este sim discípulo e que teria escrito seu relato uns 50 anos depois da morte de Cristo. Mas até aqui há dúvidas se Mateus foi o autor mesmo. João, outro discípulo, compôs sua obra quase um século depois.
Por isso não é de se estranhar que existam algumas diferenças de relato entre os evangelhos. No exemplo que dei no post anterior, Mateus diz "bem-aventurados os pobres de espírito". Lucas não menciona espíritos e diz apenas "bem-aventurados os pobres". Para complicar ainda mais, em determinado momento da história a igreja resolveu uniformizar os evangelhos. Este trabalho coube a Jerônimo, que depois viria a ser santo e padroeiro dos bibliotecários e tradutores. Ele verteu os evangelhos do grego para o latim e definiu o material que deveria constar ou não. O concílio de Trento, realizado no século 16, aprovou oficialmente este conteúdo como o Novo Testamento.
Portanto, tem muita mão de gato nesta história e não dá para ter certeza de que as palavras de Jesus foram, em sua maioria, transcritas corretamente, inclusive no estilo de falar. Aí entra a fé de cada um. De qualquer forma, podemos afirmar com alguma segurança, já que este é um dos únicos consensos entre os estudiosos do assunto, que poderíamos resumir todos os ensinamento de Jesus em uma só palavra: amor. É o que basta e já é um grande desafio se pautar por esta ideia. Ou alguém acha fácil amar e perdoar seus inimigos? Ou quem nunca sentiu raiva, inveja e mágoa? Amar o próximo como a si mesmo é o nosso norte. O desafio é perseverar nesta direção.
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terça-feira, 18 de outubro de 2011
Compreendendo Jesus
Não, este post não é uma pregação de e para evangélicos. Nada contra quem utiliza os espaços de comunicação para falar sobre Jesus e evangelizar as pessoas, mas não é essa a proposta deste blog. No entanto, nos interessa entender algumas passagens da pregação de Cristo pela Terra seja por seu conteúdo humanístico e filosófico seja pela busca por uma elevação espiritual.
Mas não é fácil compreender suas palavras. Seu jeito rebuscado de falar, quase barroco, cheio de nuances e camadas de leitura não tornam a vida fácil de quem quer conhecer um pouco mais os ensinamentos de Jesus. Existe um mito de que Cristo falava por parábolas para facilitar a compreensão das pessoas mais humildes de sua época. Duvido. Se até hoje nós temos dificuldades de interpretação, imaginem há dois mil anos. Tenho cá com meus botões que muita gente confunde parábola com fábula. Esta sim é de fácil assimilação e contém um conteúdo moral evidente. Na parábola, os significados não são tão simples e a história algumas vezes fica confusa e pouco linear.
As próprias pregações de Jesus também não eram realizadas em discurso direto e claro. Seus sermões, por exemplo, precisam ser lidos com muito cuidado, pois cada palavra pode ter um significado oculto. Só após isso é que pode ser feita uma interpretação mais consistente. Nos evangelhos de Lucas, Mateus, Marcos e João, aparece o relato das ações de Jesus e a transcrição de algumas de suas falas, mas não há interpretação do que foi dito. Nenhum deles esclarece o que o mestre quis dizer com, por exemplo, "bem-aventurados os pobres de espírito" . O que me leva a considerar que os discípulos também não entendiam bem aquela prosa toda.
Curiosamente, o ponto de virada do cristianismo se dá justamente quando uma pessoa que não era um discípulo direto pega as palavras de Jesus e começa a interpretá-las e esclarecê-las para o dia a dia da gente comum. Este cidadão foi Paulo. Foi ele que levou a palavra aos gentios (não hebreus), cujos discípulos torciam o nariz, fundou comunidades cristãs em várias partes do império romano e mantinha uma notável correspondência com elas na qual procurava explicar as palavras de Jesus.
Desta forma, o cristianismo pegou entre a população e virou uma religião planetária. Mas desde então, interpretar as palavras de Jesus se tornou uma prática corriqueira e muito papel, tinta e saliva foram (e ainda são) gastos na tentativa de explicar aquelas frases tão estranhas e de significado tão amplo. Um livro que faz isso bem em uma linguagem acessível é "Os quatro sermões de Jesus", de Paulo Alves Godoy. Lá você encontra uma possível explicação para a frase pinçada acima.
Pobres de espírito, ele ensina, não tem a ver com pessoa sem inteligência, mas quem é simples, humilde, "pois para estes está reservada a conquista do reino dos céus, que tem entre nós o sentido de reforma interior". Os orgulhosos e arrogantes se preocupam com as conquistas no mundo material esquecendo-se do mundo espiritual. Já os simples e humildes compreendem a justiça divina e se preparam melhor para a vida futura do seu espírito.
E esta é uma das interpretações. Outros autores podem fazer considerações um pouco diferentes, mas o importante é enxergar nas palavras das pregações formas de melhorar sua conduta como ser humano e buscar uma reforma íntima, onde mágoa, raiva e inveja não mais nos desarmonizariam. Tarefa difícil, mas, como diria aquele guerrilheiro chinês, o primeiro passo de uma longa caminhada sempre é o mais desafiador. O importante é começar.
Leia também:
Compreendendo Jesus 2
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Os tristes felizes
Mas não é fácil compreender suas palavras. Seu jeito rebuscado de falar, quase barroco, cheio de nuances e camadas de leitura não tornam a vida fácil de quem quer conhecer um pouco mais os ensinamentos de Jesus. Existe um mito de que Cristo falava por parábolas para facilitar a compreensão das pessoas mais humildes de sua época. Duvido. Se até hoje nós temos dificuldades de interpretação, imaginem há dois mil anos. Tenho cá com meus botões que muita gente confunde parábola com fábula. Esta sim é de fácil assimilação e contém um conteúdo moral evidente. Na parábola, os significados não são tão simples e a história algumas vezes fica confusa e pouco linear.
As próprias pregações de Jesus também não eram realizadas em discurso direto e claro. Seus sermões, por exemplo, precisam ser lidos com muito cuidado, pois cada palavra pode ter um significado oculto. Só após isso é que pode ser feita uma interpretação mais consistente. Nos evangelhos de Lucas, Mateus, Marcos e João, aparece o relato das ações de Jesus e a transcrição de algumas de suas falas, mas não há interpretação do que foi dito. Nenhum deles esclarece o que o mestre quis dizer com, por exemplo, "bem-aventurados os pobres de espírito" . O que me leva a considerar que os discípulos também não entendiam bem aquela prosa toda.
Curiosamente, o ponto de virada do cristianismo se dá justamente quando uma pessoa que não era um discípulo direto pega as palavras de Jesus e começa a interpretá-las e esclarecê-las para o dia a dia da gente comum. Este cidadão foi Paulo. Foi ele que levou a palavra aos gentios (não hebreus), cujos discípulos torciam o nariz, fundou comunidades cristãs em várias partes do império romano e mantinha uma notável correspondência com elas na qual procurava explicar as palavras de Jesus.
Desta forma, o cristianismo pegou entre a população e virou uma religião planetária. Mas desde então, interpretar as palavras de Jesus se tornou uma prática corriqueira e muito papel, tinta e saliva foram (e ainda são) gastos na tentativa de explicar aquelas frases tão estranhas e de significado tão amplo. Um livro que faz isso bem em uma linguagem acessível é "Os quatro sermões de Jesus", de Paulo Alves Godoy. Lá você encontra uma possível explicação para a frase pinçada acima.
Pobres de espírito, ele ensina, não tem a ver com pessoa sem inteligência, mas quem é simples, humilde, "pois para estes está reservada a conquista do reino dos céus, que tem entre nós o sentido de reforma interior". Os orgulhosos e arrogantes se preocupam com as conquistas no mundo material esquecendo-se do mundo espiritual. Já os simples e humildes compreendem a justiça divina e se preparam melhor para a vida futura do seu espírito.
E esta é uma das interpretações. Outros autores podem fazer considerações um pouco diferentes, mas o importante é enxergar nas palavras das pregações formas de melhorar sua conduta como ser humano e buscar uma reforma íntima, onde mágoa, raiva e inveja não mais nos desarmonizariam. Tarefa difícil, mas, como diria aquele guerrilheiro chinês, o primeiro passo de uma longa caminhada sempre é o mais desafiador. O importante é começar.
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quarta-feira, 3 de agosto de 2011
A realidade e Jung
Sempre fui um cético. Não um ateu. No máximo, um agnóstico. Porém, ao longo de várias leituras, cursos, estudos e contatos diversos com a espiritualidade fui percebendo que existem certas coisas que não sabemos exatamente como funcionam, mas o fato é que de uma forma ou de outra funcionam. Vou pegar um exemplo para facilitar a compreensão. Pense no cientista Louis Pasteur. Antes dele, como a humanidade compreendia a propagação das doenças? Você podia perguntar para qualquer pessoa mais instruída na Europa no início do século 19 e a resposta viria na palavra miasmas. Tudo se resumia a isso: miasmas. O que eram os miasmas? Como se propagavam? Como se defender deles? Nada. Nenhuma resposta. No máximo, nossos antepassados suspeitavam que algo "no ar" causavam as doenças .
Um dia chegou Pasteur com suas descobertas. E aos poucos luzes foram sendo jogadas em bactérias, vírus e até a vacina foi inventada. O que quero demostrar aqui é que muitas vezes o que não compreendemos é por falta de informação. Em algumas situações temos alguns dados disponíveis, mas, em outros, nada. Porém, na ausência de fatos palpáveis, não podemos descartar abruptamente uma ideia ou a inexistência de um determinado fenômeno.
Quem melhor descreveu esta angústia do ver para crer foi Carl Gustav Jung psiquiatra suíço e fundador da psicologia analítica. No livro clássico O Homem e os seus sonhos, ele diz logo nas primeiras páginas: "O homem como podemos perceber ao refletirmos um instante, nunca percebe plenamente uma coisa ou a entende por completo. Ele pode ver, ouvir, tocar e provar. Mas a que distância podia ver, quão acuradamente consegue ouvir, o quanto lhe significa aquilo em que toca e o que prova, tudo isso depende do número e da capacidade dos seus sentidos. Os sentidos do homem limitam a percepção que este tem do mundo à sua volta. Utilizando instrumentos científicos pode, em parte, compensar a deficiência dos sentidos. Consegue, por exemplo, alongar o alcance da sua visão através do binóculo ou apurar a audição por meio de amplificadores elétricos. Mas a mais elaborada aparelhagem nada pode fazer além de trazer ao seu âmbito visual objetos ou muito distantes ou muito pequenos e tornar mais audíveis sons fracos. Não importa que instrumentos ele empregue; em um determinado momento há de chegar a um limite de evidências e de convicções que o conhecimento consciente não consegue transpor".
Para piorar as coisas e mostrar como a análise da realidade é algo quase desumano, Jung acrescentava no mesmo texto: "Além disso, há aspectos inconscientes na nossa percepção da realidade. O primeiro deles é o fato de que, mesmo quando os nossos sentidos reagem a fenômenos reais, a sensações visuais e auditivas, tudo isso, de certo modo, é transposto da esfera da realidade para a da mente. Dentro da mente esses fenômenos tornam-se acontecimentos psíquicos cuja natureza externa nos é desconhecida. Assim toda experiência contém um número indefinido de fatores desconhecidos, sem considerar o fato de que toda a realidade concreta sempre tem alguns aspectos que ignoramos desde que não conhecemos a natureza extrema da matéria em si".
Por isso, é importante sermos cuidadosos com nossas convicções e não colocar toda a responsabilidade pela quebra de dogmas nas costas da ciência. Podemos estar usando uma viseira inconsciente que nos impede de ter uma visão mais ampla e de estar mais aberto ao que não compreendemos.
Postado por
Mark Lobato
às
18:48
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