sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Os pobres de espírito

Já mencionei de leve em post anterior a interpretação para este trecho do Sermão da Montanha, também conhecido como o sermão das bem-aventuranças, já que Jesus sempre começava suas frases no discurso com "Bem-aventurados...". No caso específico que vamos tratar hoje, a passagem seria "Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus". Consta em Mateus, capítulo 5, versículo 3, ou, na simbologia bíblica, 5:3. Em algumas transcrições, troca-se pobres de por pobres em. Em Lucas, 6:20, o espírito desaparece da frase: "Bem-aventurados vós que sois pobres, porque vosso é o Reino de Deus!".
     Seja como for, a ideia central da mensagem aqui não é a de desqualificar o espírito. Rebaixá-lo como algo inferior. Ao contrário. A palavra "pobres" tem a conotação de pessoa humilde. Como explica Paulo Alves de Godoy no livro Os Quatro Sermões de Jesus, os orgulhosos preocupam-se com o mundo material e se acham superiores. Já os mais simples entendem esta questão como secundária e que o importante é a reforma íntima para alcançar a elevação no mundo espiritual.
     Alguns filósofos vão mais fundo na questão. O monge Anselm Grün cita dois deles em seu livro Bem-aventuranças. Caminho para uma vida feliz. São considerados pensadores místicos, por procurarem na época em que viverem, na Idade Média, uma abordagem mais humanística das palavras de Jesus. Para Mestre Eckhart, o pobre em espírito seria quem não quer nada, não sabe nada e não tem nada.Afinal, nada nos pertence, nem uma pessoa, nem nossa casa, nem nossa vida. Podemos desfrutar disso por um tempo, mas tudo foi emprestado. É uma maneira elegante de não dar a mínima para o acúmulo de bens. Afinal, você é livre e não precisa ficar preso na neurose da acumulação de coisas.
     Outro filósofo místico, Gregorio de Nissa, explicava que quem sem livrava da riqueza ficava mais leve para poder se elevar para o alto. A pobreza interior nos eleva a Deus, enquanto as posses nos empurram para baixo. Grün arremata todas essas considerações ao explicar que a "primeira bem-aventurança é um caminho para a liberdade interior e, assim, para a verdadeira felicidade." O mote aqui seria o desprendimento.
     E ele finaliza o capítulo contando a fábula alemã João Sortudo. O personagem ganha uma barra de ouro, mas por ser muito pesada, ele troca por um cavalo. Este por sua vez é muito bravo e João não consegue controlá-lo. Aí ele faz outra troca e tem agora uma vaca. Depois vem um porco, um ganso e uma pedra de amolar. Até que um dia esta pedra cai na água e ele não tem mais nada. Justamente nesta hora ele começa a dançar e cantar porque sua felicidade não depende de posses, prazeres  e sucessos. Está grato pela vida e feliz por ser capaz de desfrutar dela. A pobreza de espírito seria para Grün simplesmente viver, sem pretensão, aproveitar cada instante e estar grato por aquilo que existe. Só isso basta.
   
Leia também:
Compreendendo Jesus
Por parábolas
Bem-aventuranças: o sermão
Os tristes felizes
Os amáveis
Os famintos

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Bem-aventuranças, o sermão

Um tema recorrente neste blog é a bem-aventurança. É um conceito que li primeiro em Joseph Campbell no Poder do Mito, mas foi e continua a ser utilizado por diversos autores. A ideia básica proposta é de você buscar sua felicidade. Ir atrás daquilo que vai ser melhor para você. Tanto que a frase clássica de Campbell e que ilustra a primeira página deste sítio virtual diz: "Persiga a sua bem-aventurança e não tenha medo, que as portas se abrirão, lá onde você não sabia que havia portas". Ou seja, vá atrás do que você sonha, quer, deseja, pois você vai alcançar. Óbvio que nada nesta vida é fácil, mas com persistência e sem se deixar abater com eventuais fracassos, a vitória é alcançada.
     Mas estou dizendo tudo isso porque, não por acaso, um dos sermões de Jesus trata especificamente da bem-aventurança. É o famoso Sermão da Montanha. Acho que foi Gandhi quem disse uma frase que retrata bem a importância filosófica deste pronunciamento: se tudo o que Jesus escreveu fosse destruído, mas este sermão fosse conservado, já teríamos preservado todos os seus ensinamentos. Como em tudo que diz respeito às palavras de Cristo, há muito simbolismo em suas palavras e inúmeras são as interpretações. Até o fato dele ter proferido o sermão no alto de uma montanha teria um significado espiritual. Algo como estar mais próximo de Deus. A elevação representaria simbolicamente uma ligação entre o céu e a terra.
     No caso deste sermão de Jesus, as bem-aventuranças que ele menciona nada mais seriam do que degraus de acesso ao topo desta montanha. Em outras palavras, seguindo aqueles ensinamentos do discurso qualquer um poderia chegar mais perto de Deus. Gregório de Nissa, um místico grego que viveu no século IV, já fazia naquela época interpretações nesta linha. Para ele, a montanha é o lugar onde seguimos Jesus para subir de nossas ideias baixas e limitadas para a montanha espiritual da mais nobre contemplação.
     Não sei quanto a vocês, mas para mim tudo isso tem tido um impacto muito grande. É como se um véu fosse levantado. E curiosamente vou esbarrando sem querer em conteúdo que vai me abrindo outras portas. Dia desses estava no shopping e para fazer uma hora entrei na livraria. Olhava as estantes despreocupadamente quando vi um livrinho (no tamanho, não na qualidade) com um título interessante: "Bem-aventuranças. Caminho para uma vida feliz". Peguei a obra e fui ver seu interior. Para minha surpresa, era uma explicação trecho a trecho do sermão da Montanha escrito por Anselm Grün, um monge beneditino alemão de quem eu  nunca tinha ouvido falar. O fato é que o livro é bem escrito, fluente, acessível e com muitas informações interessantes. Fui ver se ele tinha outras obras e fiquei espantado com a quantidade de títulos publicados. Comprei este da bem-aventurança e outros que explicam os evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João.
     Enfim, estou mergulhado no tema e fascinado com as descobertas. A interpretação simbólica da montanha que mencionei há pouco, por exemplo,  foi tirada deste livro de Anselm Grün. Nos próximos posts vou compartilhar algumas de suas revelações sobre o sermão da Montanha, começando com "bem-aventurados os pobres de espírito".


Leia também
Os pobres de espírito
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domingo, 23 de outubro de 2011

Por parábolas

Um amigo de velhos tempos leu os dois posts anteriores em que eu especulava sobre a forma de Jesus falar e como suas palavras poderiam ter sido alteradas ao longo do tempo, já que ele não deixou nada escrito e quase todos os evangelhos do Novo Testamento foram escritos no mínimo 50 anos após a sua morte. Talvez isso justifique a forma quase cifrada de suas frases e fazem com que muito papel e saliva sejam gastos para interpretar seus ensinamentos.
     Este meu amigo discorda um pouco desta análise. Ele crê que realmente Jesus falava desta maneira porque não podia revelar tudo de uma vez. Ou seja, as pessoas daquela época não estariam preparadas para compreender a verdade em sua totalidade. Esta consciência se daria pouco a pouco ao longo de centenas de anos. Cada vez que a população subisse mais um degrau no patamar evolutivo, novas interpretações destas palavras seriam apresentadas.
     Para corroborar esta tese ele me apresentou um capítulo do Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, e uma das obras fundamentais desta doutrina. O livro é voltado a explicar algumas palavras de Jesus segundo a mensagem dos espíritos. No capítulo 24, "Não coloque a candeia debaixo do alqueire", lemos que  tudo tem o seu tempo de ser revelado, assim como acontece com o ser humano em seu aprendizado. Uma criança na primeira série não saberá ainda equações desenvolvidas apenas no ensino médio. A mesma coisa ocorre com os ensinamentos de Jesus.
     No livro, surge a seguinte explicação: "É de causar admiração diga Jesus que a luz não deve ser colocada debaixo do alqueire, quando ele próprio constantemente oculta o sentido de suas palavras sob o véu da alegoria, que nem todos podem compreender. Ele se explica, dizendo a seus apóstolos: "Falo-lhes por parábolas, porque não estão em condições de compreender certas coisas. Eles vêem, olham, ouvem, mas não entendem. Fora, pois, inútil tudo dizer-lhes, por enquanto. Digo-o, porém, a vós, porque dado vos foi compreender estes mistérios." Procedia, portanto, com o povo, como se faz com crianças cujas idéias ainda se não desenvolveram. Desse modo, indica o verdadeiro sentido da sentença: "Não se deve pôr a candeia debaixo do alqueire, mas sobre o candeeiro, a fim de que todos os que entrem a possam ver." Tal sentença não significa que se deva revelar inconsideradamente todas as coisas. Todo ensinamento deve ser proporcionado à inteligência daquele a quem se queira instruir, porquanto há pessoas a quem uma luz por demais viva deslumbraria, sem as esclarecer".
     Portanto, não é de surpreender que os próprios apóstolos não tenham compreendido bem os ensinamentos de Jesus. Diante desta lógica, Cristo falava há dois mil anos, mas suas palavras miravam o futuro, quando seriam melhor decodificadas. De qualquer forma, segundo o Evangelho Segundo o Espiritismo, Jesus não teria sido de todo enigmático. Muita coisa era de fácil compreensão para as pessoas da época. Diz o livro, "Pergunta-se: que proveito podia o povo tirar dessa multidão de parábolas, cujo sentido se lhe conservava impenetrável? E de notar-se que Jesus somente se exprimiu por parábolas sobre as partes de certo modo abstratas da sua doutrina. Mas, tendo feito da caridade para com o próximo e da humildade condições básicas da salvação, tudo o que disse a esse respeito é inteiramente claro, explícito e sem ambiguidade alguma. Assim devia ser, porque era a regra de conduta, regra que todos tinham de compreender para poderem observá-la. Era o essencial para a multidão ignorante, à qual ele se limitava a dizer: "Eis o que é preciso se faça para ganhar o reino dos céus." Sobre as outras partes, apenas aos discípulos desenvolvia o seu pensamento...Entretanto, mesmo com os apóstolos, conservou-se impreciso acerca de muitos pontos, cuja completa inteligência ficava reservada a ulteriores tempos. Foram esses pontos que deram ensejo a tão diversas interpretações, até que a Ciência, de um lado, e o Espiritismo, de outro, revelassem as novas leis da Natureza, que lhes tornaram perceptível o verdadeiro sentido..... Se, pois, os Espíritos ainda não dizem tudo ostensivamente, não é porque haja na Doutrina mistérios em que só alguns privilegiados possam penetrar, nem porque eles coloquem a lâmpada debaixo do alqueire; é porque cada coisa tem de vir no momento oportuno. Eles dão a cada ideia tempo para amadurecer e propagar-se, antes que apresentem outra, e aos acontecimentos o de preparar a aceitação dessa outra."
    Em outras palavras, no futuro poderemos ser surpreendidos com novas interpretações e revelações que estavam ocultas nos ensinamentos de Jesus. Bom, não sei quanto vocês, mas estou aqui na torcida para que este tempo chegue logo.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Compreendendo Jesus 2

É só falar de religião que o assunto repercute. No post anterior fiz algumas observações sobre a necessidade de se interpretar as palavras de Jesus, porque os seus termos não eram suficientemente claros. Recebi alguns e-mails polidos questionando essa minha afirmação. No geral, o resumo das alegações é que o Novo Testamento, assim como a Bíblia, é uma obra divina. Ou seja, o que está escrito lá é algo emanado por Deus. Portanto, não nos caberia questionar a clareza ou não das palavras que constam neste livro sagrado.
     Compreendo e respeito essas afirmações. No entanto, temos que ter em mente que às vezes a interferência humana pode dificultar um pouco a comunicação. Causar ruídos indesejáveis na compreensão. Por exemplo, não sabemos se Jesus falava mesmo daquela maneira ou se suas palavras foram ajeitadas conforme o estilo do escriba que relatava seus feitos.
     Devemos levar em consideração que se jornalistas de hoje cometem erros de interpretação ou mesmo de dados factuais quando escrevem uma matéria, imaginem há dois mil anos quando alguns dos autores dos evangelhos nem foram contemporâneos de Jesus ou demoraram mais de décadas para registrar as andanças do mestre por este planeta.
     Lucas, por exemplo, não foi um dos discípulos e consta que sofreu influências de Paulo, de quem teria sido contemporâneo. Seu evangelho pode ter sido escrito perto do final do século 1, ou seja quase 100 anos depois do surgimento de Cristo. Os verbos no condicional mostram apenas que não há certeza de nada nesta história porque não existem registros históricos confiáveis.
      Alguns estudiosos acreditam que Lucas se baseou também no evangelho de Marcos, um discípulo de Pedro, portanto outro que esteve bem distante da época de Jesus. Sobra Mateus, este sim discípulo e que teria escrito seu relato uns 50 anos depois da morte de Cristo. Mas até aqui há dúvidas se Mateus foi o autor mesmo. João, outro discípulo, compôs sua obra quase um século depois.
     Por isso não é de se estranhar que existam algumas diferenças de relato entre os evangelhos. No exemplo que dei no post anterior,  Mateus diz "bem-aventurados os pobres de espírito". Lucas não menciona espíritos e diz apenas "bem-aventurados os pobres". Para complicar ainda mais, em determinado momento da história a igreja resolveu uniformizar os evangelhos. Este trabalho coube a Jerônimo, que depois viria a ser santo e padroeiro dos bibliotecários e tradutores. Ele verteu os evangelhos do grego para o latim e definiu o material que deveria constar ou não. O concílio de Trento, realizado no século 16, aprovou oficialmente este conteúdo como o Novo Testamento.
     Portanto, tem muita mão de gato nesta história e não dá para ter certeza de que as palavras de Jesus foram, em sua maioria, transcritas corretamente, inclusive no estilo de falar. Aí entra a fé de cada um. De qualquer forma, podemos afirmar com alguma segurança, já que este é um dos únicos consensos entre os estudiosos do assunto, que poderíamos resumir todos os ensinamento de Jesus em uma só palavra: amor. É o que basta e já é um grande desafio se pautar por esta ideia. Ou alguém acha fácil amar e perdoar seus inimigos? Ou quem nunca sentiu raiva, inveja e mágoa?  Amar o próximo como a si mesmo é o nosso norte. O desafio é perseverar nesta direção.

Leia também
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terça-feira, 18 de outubro de 2011

Compreendendo Jesus

Não, este post não é uma pregação de e para evangélicos. Nada contra quem utiliza os espaços de comunicação para falar sobre Jesus e evangelizar as pessoas, mas não é essa a proposta deste blog. No entanto,  nos interessa entender algumas passagens da pregação de Cristo pela Terra seja por seu conteúdo humanístico e filosófico seja pela busca por uma elevação espiritual.
     Mas não é fácil compreender suas palavras. Seu jeito rebuscado de falar, quase barroco, cheio de nuances e camadas de leitura não tornam a vida fácil de quem quer conhecer um pouco mais os ensinamentos de Jesus. Existe um mito de que Cristo falava por parábolas para facilitar a compreensão das pessoas mais humildes de sua época. Duvido. Se até hoje nós temos dificuldades de interpretação, imaginem há dois mil anos. Tenho cá com meus botões que muita gente confunde parábola com fábula. Esta sim é de fácil assimilação e contém um conteúdo moral evidente. Na parábola, os significados não são tão simples e a história algumas vezes fica confusa e pouco linear.
     As próprias pregações de Jesus também não eram realizadas em discurso direto e claro. Seus sermões, por exemplo, precisam ser lidos com muito cuidado, pois cada palavra pode ter um significado oculto. Só após isso é que pode ser feita uma interpretação mais consistente. Nos evangelhos de Lucas, Mateus, Marcos e João, aparece o relato das ações de Jesus e a transcrição de algumas de suas falas, mas não há interpretação do que foi dito. Nenhum deles esclarece o que o mestre quis dizer com, por exemplo, "bem-aventurados os pobres de espírito" . O que me leva a considerar que os discípulos também não entendiam bem aquela prosa toda.
     Curiosamente, o ponto de virada do cristianismo se dá justamente quando uma pessoa que não era um discípulo direto pega as palavras de Jesus e começa a interpretá-las e esclarecê-las para o dia a dia da gente comum. Este cidadão foi Paulo. Foi ele que levou a palavra aos gentios (não hebreus), cujos discípulos torciam o nariz, fundou comunidades cristãs em várias partes do império romano e mantinha uma notável correspondência com elas na qual procurava explicar as palavras de Jesus.
     Desta forma, o cristianismo pegou entre a população e virou uma religião planetária. Mas desde então, interpretar as palavras de Jesus se tornou uma prática corriqueira e muito papel, tinta e saliva foram (e ainda são) gastos na tentativa de explicar aquelas frases tão estranhas e de significado tão amplo. Um livro que faz isso bem em uma linguagem acessível é "Os quatro sermões de Jesus", de  Paulo Alves Godoy. Lá  você encontra uma possível explicação para a frase pinçada acima.
     Pobres de espírito, ele ensina, não tem a ver com pessoa sem inteligência, mas quem é simples, humilde, "pois para estes está reservada a conquista do reino dos céus, que tem entre nós o sentido de reforma interior". Os orgulhosos e arrogantes se preocupam com as conquistas no mundo material esquecendo-se do mundo espiritual. Já os simples e humildes compreendem a justiça divina e se preparam melhor para a vida futura do seu espírito.
     E esta é uma das interpretações. Outros autores podem fazer considerações um pouco diferentes, mas o importante é enxergar nas palavras das pregações formas de melhorar sua conduta como ser humano e buscar uma reforma íntima, onde mágoa, raiva e inveja não mais nos desarmonizariam. Tarefa difícil, mas, como diria aquele guerrilheiro chinês, o primeiro passo de uma longa caminhada sempre é o mais desafiador. O importante é começar.

Leia também:
Compreendendo Jesus 2
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quarta-feira, 3 de agosto de 2011

A realidade e Jung

Sempre fui um cético. Não um ateu. No máximo, um agnóstico. Porém, ao longo de várias leituras, cursos, estudos e contatos diversos com a espiritualidade fui percebendo que existem certas coisas que não sabemos exatamente como funcionam, mas o fato é que de uma forma ou de outra funcionam. Vou pegar um exemplo para facilitar a compreensão. Pense no cientista Louis Pasteur. Antes dele, como a humanidade compreendia a propagação das doenças? Você podia perguntar para qualquer pessoa mais instruída na Europa no início do século 19 e a resposta viria na palavra miasmas. Tudo se resumia a isso: miasmas. O que eram os miasmas? Como se propagavam? Como se defender deles? Nada. Nenhuma resposta. No máximo, nossos antepassados suspeitavam que algo "no ar" causavam as doenças .

Um dia chegou Pasteur com suas descobertas. E aos poucos luzes foram sendo jogadas em bactérias, vírus e até a vacina foi inventada. O que quero demostrar aqui é que muitas vezes o que não compreendemos é por falta de informação. Em algumas situações temos alguns dados disponíveis, mas, em outros, nada. Porém, na ausência de fatos palpáveis, não podemos descartar abruptamente uma ideia ou a inexistência de um determinado fenômeno. 

Quem melhor descreveu esta angústia do ver para crer foi Carl Gustav Jung psiquiatra suíço e fundador da psicologia analítica. No livro clássico O Homem e os seus sonhos, ele diz logo nas primeiras páginas: "O homem como podemos perceber ao refletirmos um instante, nunca percebe plenamente uma coisa ou a entende por completo. Ele pode ver, ouvir, tocar e provar. Mas a que distância podia ver, quão acuradamente consegue ouvir, o quanto lhe significa aquilo em que toca e o que prova, tudo isso depende do número e da capacidade dos seus sentidos. Os sentidos do homem limitam a percepção que este tem do mundo à sua volta. Utilizando instrumentos científicos pode, em parte, compensar a deficiência dos sentidos. Consegue, por exemplo, alongar o alcance da sua visão através do binóculo ou apurar a audição por meio de amplificadores elétricos. Mas a mais elaborada aparelhagem nada pode fazer além de trazer ao seu âmbito visual  objetos ou muito distantes ou muito pequenos e tornar mais audíveis sons fracos. Não importa que instrumentos ele empregue; em um determinado momento há de chegar a um limite de evidências e de convicções que o conhecimento consciente não consegue transpor".

Para piorar as coisas e mostrar como a análise da realidade é algo quase desumano, Jung acrescentava no mesmo texto: "Além disso, há aspectos inconscientes na nossa percepção da realidade. O primeiro deles é o fato de que, mesmo quando os nossos sentidos reagem a fenômenos reais, a sensações  visuais e auditivas, tudo isso, de certo modo, é transposto da esfera da realidade para a da mente. Dentro da mente esses fenômenos tornam-se acontecimentos psíquicos  cuja natureza externa nos é desconhecida. Assim toda experiência contém um número indefinido de fatores desconhecidos, sem considerar o fato de que toda a realidade concreta sempre tem alguns aspectos que ignoramos desde que não conhecemos a natureza extrema da matéria em si".

Por isso, é importante sermos cuidadosos com nossas convicções e não colocar toda a responsabilidade pela quebra de dogmas nas costas da ciência. Podemos estar usando uma viseira inconsciente que nos impede de ter uma visão mais ampla e de estar mais aberto ao que não compreendemos.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Ações práticas para ser sustentável

Outro dia vi um militante ecológico rebolar na frente do microfone após a singela pergunta da repórter: "O que cada um de nós pode fazer para ter uma atitude ecologicamente mais correta?". A resposta titubeante veio com os famosos chavões: economizar água e aproveitar para fazer xixi quando tomar banho. Frustrante.

Essa resposta pueril ficou na minha cabeça por um bom tempo. Se um militante ecológico não consegue propor ações mais efetivas para que cada cidadão possa fazer em casa, o mundo está definitivamente perdido...Mas um dia fui ver uma palestra do jornalista André Trigueiro. Ele apresenta o jornal das 10 do canal a cabo Globonews e é pós-graduado em gestão ambiental. O fato é que neste dia encontrei alguém que finalmente tratou da questão da sustentabilidade de forma clara e prática. A seguir elenco alguns pontos, muitos baseados na apresentação de Trigueiro (que pode ser assistida aqui), para compartilhar com os amigos deste blog.

1) Flex - É comum ver no noticiário que em determinados períodos é mais vantajoso colocar gasolina do que álcool no carro. Só que ninguém comenta que do ponto de vista ambiental, usar o etanol faz mais sentido do que usar combustível fóssil. Sai mais caro às vezes? Sai, mas é um preço que temos que pagar para termos uma alternativa menos poluente. Outra vantagem é que a cana, antes de ser colhida, está fazendo fotosíntese e retirando gás carbônico.

2) Consumo - Você é daqueles que consome como se não houvesse amanhã? Cuidado. Um dia não teremos mesmo um futuro aprazível e aí quem vão sofrer são seus filhos e netos. Por exemplo, será que você precisa ter mais um sapato? Ou comprar mais uma calça jeans? Lembre-se que tudo o que você compra, seja o que for, vem, de uma forma ou de outra, da natureza ou utiliza recursos do meio ambiente para ser produzido. Portanto, antes de sair comprando, pense: Será que eu preciso mesmo disso?

3) Aparelhos - Vai comprar uma geladeira? Antes de ver o modelo que mais lhe chamou a atenção, verifique quanto este equipamento consome de energia. Normalmente, esta informação está afixada na porta do aparelho e é interessante verificar que você pode ter uma geladeira que consome 40 kwv por mês enquanto tem outras perdulárias que sugam quase 100 kwv no mesmo período. Além de ajudar o meio ambiente, você ainda ganha um bônus que é a redução na conta de luz. Verifique neste link a lista de todos os equipamentos e seu consumo de energia. Recentemente, troquei uma máquina de lavar roupa aqui de casa. Procurei um modelo que fosse menos gastador do que a minha antiga. E logo no primeiro mês de uso o resultado já apareceu: as contas de energia e de água vieram mais baixas. Agora já estou fazendo planos para trocar a geladeira, que é uma velha companheira perdulária e que já deu o que tinha que dar. Consumo consciente.

4) Água - Muitas pessoas desconhecem as maravilhas da lavadora de pratos. Há uma percepção equivocada de que esta máquina gasta mais água. Ledo engano. Economiza pacas. Em relação à energia, é só escolher uma que consuma menos e pronto. Quem tem quintal e precisa lavá-lo com alguma frequência a dica é armazenar em balde a água que é descartada da máquina de lavar roupa. Precisa regar as plantas? Deixe a mangueira de lado e utilize o regador. A água do chuveiro demora muito para esquentar? Coloque um balde embaixo do chuveiro para não perder nenhuma gotinha enquanto o líquido não aquece. Depois utilize esta água na descarga do vaso sanitário.

5) Procedência - Não temos o hábito de perguntar de onde vem as coisas que compramos. Vai encomendar um armário embutido? Pergunte antes de onde vem a madeira e se existe algum certificado de origem. Uma perguntinha simples que vai evitar que você compre madeira proveniente de desmatamento ilegal. Uma dia teremos algo assim para a carne e a consequente opção de comprar um produto que não veio de pastagem irregular onde antes havia uma bela floresta. Aliás o Brasil tem mais boi do que gente...E onde encontrar espaço para tanto bovino? Derrubando floresta.

6) Transporte - Se você tiver que se locomover de carro, use de preferência um com etanol. Mas antes de dar a partida, pense:será que não dá para ir até o destino de transporte público? Ou ainda: será que não dá para ir caminhando? São alternativas menos poluidoras e, no caso da caminhada, ainda tem o bônus de melhorar a saúde. Lembre-se que o conforto do automóvel e a preguiça andam de mãos dadas com a poluição.

7) Lixo - Pra que jogar no lixo comum embalagem de leite longa vida, jornal, caixa de papelão, plásticos, latas de conservas ou de refrigerante, garrafas pets etc? Tudo isso pode ser reciclado. Ok, o serviço de limpeza pública não costuma fazer uma separação eficiente e coloca tudo junto no caminhão, mas existem locais, em shoppings ou supermercados, que já colocam à disposição dos clientes cestos com as indicações por tipo de lixo. Armazene em casa o que pode ser reciclado e uma vez por semana descarregue nestes cestos públicos o que foi amealhado.

Acho que estas são as principais ações que você pode fazer em casa ou de mudança de comportamento. Como você viu, não é nada do outro mundo e pode ser realizado sem sofrimento. Se você tiver mais ideias legais que possam ajudar o meio ambiente, compartilhe aqui no blog.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Ação dos EUA viola direito internacional

Artigo do Janio de Freitas na Folha de hoje.

JANIO DE FREITAS

Gerônimos

À parte direitos humanos, a ação dos EUA está acusada de numerosas violações do direito internacional

A RÁPIDA REVIRAVOLTA na versão oficial que não durou mais de 30 horas, sobre as circunstâncias da morte de Bin Laden, é um fato raro e nos leva a uma dívida promissora: a única explicação para as sucessivas correções, por diferentes integrantes do governo dos EUA, é uma decisão imposta pelo temor ou a certeza de que os meios de comunicação terminariam por desmoralizar as palavras oficiais. Inclusive as do próprio presidente Barack Obama. WikiLeaks e uma pequena parte do jornalismo merecem o crédito.
Não única, essa causa provavelmente maior não nega a disposição de Obama, implícita na reconsideração, de preferir a honra pessoal ao cinismo com que George Bush se valeu de mentiras, mesmo depois de demonstradas como tais a seu país e ao mundo. Mas nega a tradição histórica, muito praticada pelos Estados Unidos desde seus primórdios, da falsificação de motivos por governos, e respectivos comandantes militares, para os seus atos de imoralidade bélica.
Exemplo ressaltado pela história é a anexação da Áustria pela Alemanha de Hitler, em represália a uma inventada provocação na zona de fronteira. O pequeno Vietnã do Norte foi massacrado pelos bombardeiros B-52 durante anos em represália a um ataque seu, inexistente, a navio da marinha americana no Golfo vietnamita de Tonquim. Ou, ainda inacabada, a invasão do Iraque com a mentira da arma nuclear de Saddam Hussein, mesmo que já negada pela inspeção da própria agência especializada da ONU.
O nome-código dado a Bin Laden para a comunicação de sua morte à Casa Branca -Gerônimo- não suscitou curiosidade até agora. Mas sua escolha tem significações ricas.
Não é nome de brancos nem de negros americanos, em tempo algum. É nome indígena. Foi o nome de um dos mais ou o mais bravo chefe a resistir, e vencer muitas vezes, às tropas que conquistavam terras da América do Norte para os colonizadores com o genocídio dos habitantes originais. Gerônimo foi transformado em objeto de ódio branco que lhe deu lugar destacado na história das guerras dos Estados Unidos listadas pelo Departamento de Defesa.
Chamar Bin Laden de Gerônimo foi injustiça com o dono autêntico do nome, mas o conceito de justiça parece aplicar-se, no episódio atual, apenas às afirmações de Obama e de Bush, segundo os quais a morte do terrorista fez justiça. A Comissão de Direitos Humanos da ONU, entre outros pronunciamentos relevantes, não concorda: "As Nações Unidas enfatizam que todos os atos contra o terrorismo devem respeitar o direito internacional". À parte direitos humanos, a ação dos Estados Unidos está acusada de numerosas violações do direito internacional.
Sem ir mais longe, por desnecessário, o que fizeram as entidades internacionais e potências responsáveis pela aplicação do direito internacional quando, por exemplo, a URSS invadiu o Afeganistão, e os Estados Unidos invadiram o Iraque, o Panamá, Granada, o Vietnã, o Laos, sem dar confiança à ONU e em violação flagrante do direito internacional? Entre as nações dominantes, o direito internacional é matéria de transações. Acontece mais uma vez. E assim será, não se imagina até quando.

Licença para matar

Excelente artigo na Folha de hoje sobre o assassinato de Bin Laden.

RICARDO MELO

Licença para matar

SÃO PAULO - Não será do dia para a noite que se terá acesso ao que realmente ocorreu no esconderijo do terrorista Osama bin Laden. Mas até a imprensa americana, que desde a Guerra do Golfo trocou o jornalismo pela "embedagem" ao governo, desconfiou do anúncio hollywoodiano da Casa Branca, versão democrata das "armas de destruição em massa" da era Bush.
Os lances épicos da violenta troca de tiros, da mulher usada como escudo, da resistência feroz deram lugar a um enredo bem mais prosaico. Provavelmente houve uma execução, e ponto. Tal descrição não comporta nenhum juízo de valor.
Bin Laden e quem se engaja no terrorismo e no fanatismo religioso têm consciência que o risco de morrer faz parte do (mau) negócio. O prontuário de crimes do chefe da Al Qaeda apontava para este final.
Mas incomoda, para dizer o menos, aceitar como natural a baboseira de Obama e dos europeus, para os quais a "justiça foi feita".
Como assim? Os EUA invadem um país, fuzilam um inimigo sem julgamento, jogam o corpo do sujeito no mar e estamos conversados. Tudo isso depois de se valerem de "técnicas coercitivas de interrogatório", eufemismo para tortura com afogamentos. E ainda vem a ONU, candidamente, dizer que "é preciso investigar" se o direito internacional foi desrespeitado.
A lógica política da operação Geronimo é a mesma que preside a intervenção seletiva nos conflitos na África e no Oriente Médio. Gaddafi, o ex-amigo, agora é inimigo, então chumbo nele e na família. Já na Síria não é bem assim, tampouco no Iêmen e na Arábia Saudita -azar de quem nasceu rebelde por ali. Mais uma vez, os EUA tratam o planeta como quintal, e usam a ONU de plateia para as "rambolices".
Que Obama, um político comum, comemore o ganho de popularidade às vésperas da batalha pela reeleição, é compreensível. Já o resto do mundo dito civilizado assistir a tudo com tamanha complacência apenas sinaliza o que está por vir.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Sacola plástica: vilão ecológico do momento

O efeito manada em boa parte na mídia atropela sem dó as sacolinhas plásticas distribuídas pelos supermercados. Mas será que faz sentido banir as sacolinhas? Ou será que essa foi uma maneira esperta de os empresários do setor diminuir este custo? Afinal, dar tantas sacolinhas deve ter lá o seu custo. O supermercado Roldão, por exemplo, já garfa 10 centavos por sacolinha. Quem paga o pato? O consumidor, claro. Por isso, vale a pena ler este artigo lúcido que foi publicado na edição da Folha do dia 26 de abril.



Banir material plástico não é consenso entre ambientalistas

RICARDO MIOTO
DE SÃO PAULO

É glorioso que exista, no começo deste século, uma noção inédita de que o planeta não é uma lixeira sem fundo. Bem ou mal, o discurso verde pegou.
Não é consenso, porém, que banir as sacolinhas seja uma vitória ambiental. Existem pelo menos três questões importantes que são levantadas pelos ambientalistas.
A primeira se refere ao fato de que as sacolinhas representam fração bem pequena do lixo nacional: 1,29%.
Certamente as sacolinhas criam problemas sérios, como entupimentos na rede de esgoto e danos à vida marinha. Mas é necessário tomar cuidado para não torná-las um bode expiatório ambiental, deixando em segundo plano questões mais importantes, como o aquecimento global ou o desmatamento.
Corremos o risco de ver o sujeito que vai ao mercado com a sua camionete movida a diesel se considerando ecologicamente correto por usar uma ecobag.
Nas palavras do cientista ambiental britânico James Lovelock, a preocupação atual com as sacolas é como estar no Titanic afundando e se preocupar em "reorganizar as cadeiras no convés".
A segunda crítica é que as sacolas vão ser substituídas por outras, biodegradáveis, feitas a partir de milho.
Elas se decompõem rapidamente, algo maravilhoso, mas há de questionar até que ponto vale a pena usar comida para fazer sacolas, inflacionando alimentos.
A última questão se refere a quem vai pagar a conta. Quem assinou o acordo foram os supermercados e o governo estadual, mas o custo ficará para o consumidor.
Cada sacolinha de milho vai custar R$ 0,19. Hoje, os mercados incorporam ao preço dos produtos o custo das sacolinhas. Isso vai ser devolvido ao cliente?
Em tempos de marketing verde, parece que os supermercados ganharam uma oportunidade única de reduzir custos e, de brinde, vender uma imagem de ecologicamente corretos.