segunda-feira, 25 de junho de 2007

São João, Jesus e festas pagãs

O despretensioso post anterior trouxe, para minha surpresa, uma série de e-mails solicitando mais explicações sobre a festa de São João e sua origem como festa pagã. Bom, para explicar um pouco mais vou precisar usar algumas informações colhidas em dois interessantes sítios. Um é o blog Madras e o outro o site Jangada Brasil. Nos links vocês têm acesso à íntegra dos textos. Abaixo fiz um resumo com as informações principais.

No Madras, com inclinação para a Maçonaria e uma análise mais ampla, o que inclui até o mito do nascimento de Jesus, o artigo de Wagner Veneziani Costa e Celso Ferrarini explica que " Na mesma data em que se comemora o solstício de verão, 24 de junho, no Hemisfério Norte, dia de São João Batista, estamos comemorando aqui, o solstício de inverno. Recordemos as festas juninas (São João). No dia 25 de dezembro, comemoramos o solstício de verão e, no Hemisfério Norte, o solstício de inverno. É a data do nascimento de Avatares como: Krishna, Mitra, Hórus, Buda e Jesus Cristo, todos considerados grandes Sóis (Deuses)...

...Os primeiros cristãos do Império Romano, para escapar às perseguições, criaram o hábito de festejar o nascimento de Jesus durante as festas dedicadas ao deus Baco, quando os romanos, ocupados com os folguedos e orgias, os deixavam em paz.Mas a origem mitraica é a que é mais plausível para explicar essa data totalmente fictícia: os adeptos do mitraismo costumavam se reunir na noite de 24 para 25 de dezembro, a mais longa e mais fria do ano, numa festividade chamada – no mitraismo romano – de Natalis Invicti Solis (nascimento do Sol triunfante). Durante toda a fria noite, ficavam fazendo oferendas e preces propiciatórias, pela volta da luz e do calor do Sol, assimilado ao deus Mitra. O cristianismo, ao fixar essa data para o nascimento de Jesus, identificou-o com a luz do mundo, a luz que surge depois das prolongadas trevas...

... entre os romanos a (religião) predominante fosse a da adoração à Mitra, que era representado por uma figura humana. No lugar da cabeça, um Sol. Havia muitos outros deuses, notadamente, Jano, com suas cabeças que, sabidamente, simbolizavam os solstícios. Esses solstícios estavam sempre presentes nas festas pagãs, porque eram vinculadas à Natureza. É aí que encontramos uma provável explicação histórica para os festejos juninos e natalinos, que a nova religião romano-cristã, não podendo desenraizar dos costumes populares, o mínimo que conseguiu foi a substituição.

...O solstício deve ser comemorado com “ágapes solsticiais”. Isso não significa se reunir para comer ou beber, mas sim para compartilhar, agradecer e unir energias a serviço do “Mais Elevado” e da ajuda à humanidade. E por esse motivo, compartilhar uma comida simples.
O homem primitivo distinguia a diferença entre duas épocas, uma de frio e uma de calor, conceito que, inicialmente, lhe serviu de base para organizar o trabalho agrícola. Graças a isso é que surgiram os cultos solares, com o Sol sendo proclamado – como fonte de calor e de luz – o rei dos céus e o soberano do mundo, com influência marcante sobre todas as religiões e crenças posteriores da humanidade. E, desde a época das antigas civilizações, o homem imaginou os solstícios como aberturas opostas do céu, como portas, por onde o Sol entrava e saía, ao terminar o seu curso, em cada círculo tropical."

No site a Jangada Brasil a explicação segue quase pelo mesmo caminho, mas acrescenta algumas informações. " Tal festa não é brasileira e muito menos católica. Ela é tudo o que há de mais profundamente humano e de mais visceralmente pagão. Velha conto o mundo, se tem transformado ao sabor de cada meio e ao gosto de cada povo. E a religião católica, com a sua extraordinária habilidade, não a esqueceu, quando organizou, no correr dos séculos, as suas festas, adaptando-a ao seu espírito e dando-lhe como patrono um santo cujo dia fica justamente na época do ano em que o paganismo morto a celebrava. Todos os santos do cristianismo são mais ou menos, filhos dos antigos deuses....

...As cerimônias dessa festa... constavam de danças em redor da fogueira, de festins, da colheita de certas ervas mágicas que se deviam guardar sobre si para obter felicidade, da conservação, durante o ano, com o mesmo fim, dos carvões da fogueira. São, mais ou menos, as mesmas cerimônias que Ovídio descreve nos Fastos, no livro quinto, renovadas a cada aniversário da fundação de Roma.

...A festa de São João é a festa de Agni, do fogo, a festa que comemora o solstício do verão. E Santo Elói, no século VII, quando ainda a igreja a não adotara, trovejava contra ela: "Não vos reunais, - dizia ele, numa encíclica aos seus diocesanos, na época dos solstícios. Nenhum de vós deve dançar, ou pular em torno do fogo, nenhum de vós deve cantar no dia de São João. Por que essas canções são diabólicas!"Em Roma, segundo Ovídio, que nela participou, a festa do solstício se chamava Palilia. Era a festa do deus, ou da deusa Palés: "sive deus, sive dea". Então, narra o autor dos Fastos, se acendiam fogueiras, em cuja cinza se cozinhavam favas, ornavam-se as casas e estábulos de ramos verdes, recitavam-se três vezes certas orações, atravessava-se pelo meio das chamas, sorrindo e cantando, porque o fogo tudo purificava, homens e rebanhos.

Essa sobrevivência do velho culto ariano de Agni, o benéfico e o protetor, passou de Roma para as nações bárbaras que se formaram sobre as ruínas colossais do Império, conquistadas pouco a pouco pela cultura latina. ..A reminiscência da roda de chamas é o uso atual de jogar fogo de rodinhas de papelão orladas de estopim, em cujo centro há pinturas curiosas e, às vezes, a face do Batista. Essas rodinhas, presas por um prego à ponta de uma vara, queimam, rodopiando, e recordam a antiga grande roda inflamada das superstições medievais, como a passagem purificadora pelo fogo, que Ovídio aconselha, é a mesma que nós realizamos nas nossas fogueiras de São João, com intuitos de ser felizes durante o ano, ou para obter o compadresco singelo. Obedecemos nisso à força insuperável da tradição milenária, indestrutível, que celebra no dia de São João o solstício do verão, como no dia de Natal o solstício de inverno. A igreja adaptou essas celebrações à sua maneira ..."

domingo, 24 de junho de 2007

São João e a festa pagã

Os colegas do blog Saindo da Matrix lembram bem que a festa de São João, celebrada hoje, nada mais era do que outra festa pagã subtraída pela implacável igreja católica. Nesta data, os antigos comemoravam no hemisfério norte o solsistício de verão (o dia mais longo do ano) e homenageavam o deus Sol. E como era a celebração? Com uma grande fogueira...

Lutar pelo clima

O ex-vice-presidente americano Al Gore continua afiado em sua luta contra o aquecimento global. Ele propõe que se economize o dinheiro que está sendo gasto na intervenção militar no Iraque para combater o efeito estufa. Alerta que o derretimento do gelo na Groenlândia teria um impacto muito maior sobre Manhatan do que o 11 de setembro. Ironiza a pretensão de colonizar outros planetas enquanto mal conseguimos salvar New Orleans de um furacão. Ele lembra ainda que os países mais pobres, principalmente na África e na região amazônica, serão os mais prejudicados se nada for feito para conter a escalada de calor em nosso planeta. Veja abaixo a íntegra da nota divulgada pela agência EFE:

Al Gore diz que luta pelo clima é tão importante quanto antiterrorismo


BARCELONA - O ex-vice-presidente dos Estados Unidos Al Gore declarou neste sábado em Barcelona que a luta contra a mudança climática é tão importante quanto combater o terrorismo e propôs que o dinheiro gasto na Guerra do Iraque seja empregado na defesa do meio ambiente.

"O terrorismo não é a única ameaça. Caso uma parte da Groenlândia se derreta, os efeitos sobre Manhattan seriam muito piores do que o atentado de 11 de setembro de 2001", afirmou o ex-vice-presidente democrata, enquanto mostrava um gráfico de como as águas invadiriam Nova York.

Para Gore, "lutar contra a mudança política não é só uma questão política, é uma questão moral". Segundo ele, o ser humano está diante de uma verdadeira grande guerra.

"Nossa civilização contra a Terra", acrescentou.

"Não é uma questão política. É uma questão ética. É moral. Se permitirmos isto, o dano ao planeta será tão grande que destruiremos cegamente nossa civilização e o futuro de nossos filhos. Temos de mudar", afirmou o autor do documentário "Uma Verdade Inconveniente".

"Estamos queimando combustíveis fósseis a um ritmo que fará com que, em menos de 45 anos, os níveis de CO2 dobrem, o que, segundo a comunidade científica do mundo, seria uma catástrofe", disse.

Al Gore participou do I Encontro Internacional de Amigos das Árvores, que terminou hoje em Barcelona e que promove a iniciativa de plantar 100 milhões de árvores na Espanha para frear a desertificação.

"Plantar árvores não é a única solução, mas é parte da saída para a crise climática", disse o político americano ao apoiar a iniciativa espanhola.

Gore destacou a atual situação de diferentes geleiras, além de casos como as neves do Kilimanjaro e as coberturas árticas, que estão desaparecendo por causa do aquecimento global.

A crise ambiental leva "ao desaparecimento de enormes massas de gelo do Himalaia, o que poderia ameaçar rios como o Ganges ou o Amarelo. A cordilheira é fonte de recursos para 40% da população do mundo", afirmou o ex-candidato democrata à Casa Branca.

Na opinião de Gore, "não se pode falar de ciclo, como fazem alguns céticos, já que temos nesta época os níveis mais altos de CO2 dos últimos mil anos".

Em sua extensa palestra, defendeu uma ação conjunta para conter a mudança climática.

"Os dez anos mais quentes estiveram entre os últimos 14 e no mesmo tempo se aqueceram também as águas dos oceanos. Tudo isto, segundo alguns cientistas, provoca fenômenos extremos como ciclones, furacões ou tornados, que aumentaram sua potência em 50% por causa do aquecimento global", segundo o ex-vice-presidente.

"Depois do Katrina em Nova Orleans, quase 150 mil cidadãos não puderam voltar a suas casas, e me envergonho de como esta crise foi administrada. Muitos pensam que com o Katrina começou o período das conseqüências do aquecimento global", afirmou.

"Não podemos falar de colonizar outros planetas quando somos incapazes de esvaziar Nova Orleans", ironizou Gore em sua conferência.

Para o ambientalista, só será possível lutar contra a destruição em escala global se os Estados Unidos assinarem o Protocolo de Kyoto e houver uma ação internacional contra o aquecimento do planeta.

As companhias de seguros perderam juntas US$ 1 bilhão pelos desastres naturais e, após afirmar isto, Gore destacou as regiões que correm mais perigo, entre elas a África e a Amazônia.

quarta-feira, 20 de junho de 2007

Como eu ia dizendo...

Para quem leu os posts sobre deformação da opinião pública (ver aqui) e acha que sou muito radical, recomendo a leitura do texto do jornalista Mino Carta publicado em seu blog. Vocês vão entender muito bem o motivo da minha irritação com a imprensa neste país.

Sobre a parcialidade

Um estudo do IUPERJ sobre o comportamento da mídia durante a campanha das eleições de 2006 acusa a clamorosa parcialidade das coberturas de Globo, Estadão e Folha de S.Paulo. Vai sair na próxima edição de CartaCapital, apontada pelo estudo como o único órgão que informou corretamente. É a história de sempre, o enésimo capítulo de um enredo sem fim que vê a mídia alinhar-se de um lado só quando os donos do poder enxergam a aproximação de algum risco para o seu bom-bom. E reparem que desde a posse de Lula reeleito tudo continua como dantes. A mídia busca precipitar uma crise a todo custo. Pretendeu-se transformar Vavá em excelente corruptor sem a mais pálida prova, e sem levar em conta a personalidade do irmão do presidente, figura bastante modesta, digamos assim. Diferente é o caso de Renan Calheiros. O filho fora do casamento não é, obviamente, o ponto. O problema está no fato de que se acumulam as evidências dos envolvimentos de Calheiros em esquemas suspeitos, com a guarnição de atrapalhadas tragicômicas cometidas pelo próprio.

Pergunto aos meus solertes botões: se os acontecimentos de hoje tivessem ocorrido no tempo em que Calheiros era ministro de Fernando Henrique, seriam explorados com a mesma sofreguidão midiática? Respondem de pronto: nunca, jamais, talvez nem viessem à tona. E já que citei FHC, recomendo a leitura da Conversa Afiada de Paulo Henrique Amorim, inquirido na rua por um admirador de sotaque pernambucano, a lhe perguntar com expressão sabiamente sonsa: por que falam tanto do filho do Renan e nada se falou, em outra época, do filho do Fernando Henrique? Diga-se que a Globo conhecia o entrecho cabuloso de cor e salteado, a mãe solteira era funcionária da casa e, como tal, foi enviada para o exterior e ali mantida no resguardo. Aliás, outras moças globais deram-se bem com políticos."

Em post posterior, Mino lembra que a revista Caros Amigos mencionou o filho de FHC com a jornalista retirada em Barcelona.

Outros posts sobre o assunto:
Lamarca, Vavá e a deformação da opinião pública
Por falar em deformação de opinião...
Deformação da opinião pública

terça-feira, 19 de junho de 2007

Máscaras e a simplicidade

Voltemos ao filósofo Sêneca, um dos hits deste blog (veja os posts mais lidos). Agora, dentro da obra Tranqüilidade da Alma vamos abordar um capítulo bem curtinho chamado Praticar a Simplicidade. Para o autor este é um dos grandes males que inquietam a alma das pessoas. O desafio diário de ter uma máscara ou encarnar um personagem perante as outras pessoas torna a vida mais complicada e longe da frugalidade. A questão do filósofo: precisamos mesmo esconder quem realmente somos? Abaixo o pensamento de Sêneca:

" Um outro gênero de inquietude nasce do cuidado que o homem emprega em fingir e em jamais se deixar ver como é. É o caso de muitas pessoas, cuja vida só é hipocrisia e comédia. Que tormento, esta permanente vigilância sobre si mesmo, este terror de ser surpreendido num papel diferente do que aquele que se escolheu! E esta preocupação não nos deixa mais, desde o instante em que nos persuadimos de que somos julgados a cada olhar que nos lançam. Com efeito, aparecem mil incidentes, que nos revelam contra nossa vontade; e quando logramos nos observar sem desfalecimento, que satisfação! Mas que segurança pode oferecer uma existência inteira passada sob uma máscara?

Que encanto, ao contrário, na espontânea simplicidade de um caráter, que desconhece os ornamentos artificiais e que despreza disfarçar-se! É verdade que corremos o risco de perder a consideração, abrindo-nos ingenuamente demais a todos: pois não faltam pessoas para menosprezar o que se lhes torna acessível. Mas a virtude não pode ser de modo algum desprezada, quando oferecida a todos os olhares; e não é melhor ser menosprezado por sua franqueza do que importa-se o suplício de uma dissimulação perpétua? Todavia, não excedamos à medida: pois há muita diferença entre a sinceridade e a falta de modéstia"

Curiosamente, a revista Vida Simples de junho trouxe este mesmo assunto como reportagem de capa (ler aqui)

Leia também os posts
Sêneca e a tranqüilidade da alma
Maus efeitos da riqueza
O pensamento socrático
Filosofia para o dia-a-dia
Coisas simples
Epicuro e a busca da felicidade

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domingo, 17 de junho de 2007

Branas e as novas dimensões

O físico Marcelo Gleiser toca, em sua coluna na Folha de hoje, em um assunto que é muito caro a este blog: "as dimensões do espaço e como saber se a nossa percepção da realidade não é enganosa? ". O texto é muito esclarecedor e didático mesmo para quem ainda não conhece as últimas novidades da física, principalmene as que envolvem a Teoria das Cordas e a Teoria M. Os dois temas já foram abordados neste blog (ver abaixo alguns links). O texto de Gleiser é uma boa introdução e acredito que esta história, quando comprovada, ainda vai nos fazer compreender melhor questões metafísicas que por enquanto carecem de uma leitura mais científica. Esperemos viver para ver este momento. Enquanto isso, aproveitem o texto do físico:

"Quantas dimensões espaciais existem? "Fácil", diria o leitor, "são três: comprimento, largura e altura. Ou, se você preferir, norte-sul, leste-oeste e a vertical". Sem dúvida, são essas as dimensões que percebemos no nosso dia-a-dia, as dimensões em que nos locomovemos. Mas será que é só isso? E se existirem dimensões que são invisíveis aos nossos olhos, ou mesmo microscópicas, por serem muito pequenas? Como se certificar de que nossa percepção da realidade não é enganosa? Dou um exemplo. Imagine uma mangueira num jardim. De perto, a mangueira é um cilindro bem longo, tendo duas dimensões: seu comprimento e sua circunferência. Uma formiga pode tanto andar ao longo da mangueira quanto dar voltas ao seu redor. Mas, de longe, a mangueira vai se parecendo cada vez mais com uma linha e menos com um tubo. Perdemos a percepção de que ela tem também uma largura. Bem de longe, a mangueira é indistinguível de um objeto com uma dimensão apenas, seu comprimento. Nem sempre nossa percepção da dimensionalidade do espaço corresponde à realidade. Tudo depende de perspectiva e da precisão dos nossos instrumentos de medida.

Como dizia o filósofo francês do final do século 17 Bernard Le Bovier de Fontenelle, queremos sempre saber mais do que enxergamos. A filosofia (leia-se busca pelo conhecimento) é conseqüência da combinação da nossa curiosidade com nossa miopia. Voltando às dimensões do espaço, talvez sejamos apenas míopes. Em matemática, pensar sobre dimensões extras é relativamente simples. Basta adicioná-las às equações descrevendo às propriedades do espaço. Essa é uma das maravilhas da matemática, nos fornecer meios de especular sobre realidades imaginárias, cuja estrutura depende apenas de consistência lógica, sem qualquer compromisso com a realidade. Mas em física a coisa é diferente.

As ciências físicas têm como missão descrever a realidade natural, além das aparências ou das especulações. Podemos especular sobre quantas dimensões espaciais existem, mas a realidade é uma só. A física busca por uma descrição da realidade cada vez mais completa. A idéia de que existem dimensões extras surgiu em 1919. O físico-matemático alemão Theodor Kaluza sugeriu que duas forças fundamentais da natureza, a gravidade e o eletromagnetismo, são, na verdade, uma só quando vistas em um espaço de quatro dimensões espaciais. Ou seja, ilhados na nossa percepção da realidade, limitada à três dimensões, deixamos de vislumbrar a unidade fundamental que existe na natureza. Essa idéia tem um apelo que vai além do científico. Hoje, físicos continuam a formular teorias de unificação das forças em espaços com mais de três dimensões.

Desde a época de Kaluza, foram descobertas mais duas forças fundamentais, as forças nucleares forte e fraca, que atuam no interior do núcleo atômico. Para acolher essas duas novas forças, segundo as teorias atuais, são necessárias nove dimensões espaciais, seis a mais do que as que percebemos. Onde estão elas? Se existem, são muito pequenas para serem percebidas, mesmo com nossos microscópios mais poderosos. Existe a possibilidade, remota, de que seus efeitos sejam medidos em uma máquina gigantesca prestes a entrar em funcionamento na Suíça, um acelerador de partículas conhecido como LHC, que já mencionamos em outras colunas. Caso não sejam, provavelmente serão décadas até que possamos testar essa idéia. No meio tempo, é bom lembrar de que o que vemos é apenas a pequena parte da realidade. "

Alguns posts e links sobre o assunto:
Branas para leigos
Entrevista com a física Lisa Randall
Marcelo Glesiser e a Teoria das Cordas
Resenha da revista Ciência Hoje sobre o livro Universo Elegante
LHC (o acelerador do CERN) é explicado de forma didática no site do Rede Nacional de Ensino e Pesquisa

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Lamarca, Vavá e a deformação da opinião publica

Não gosto muito de tratar de assuntos políticos neste blog, mas às vezes é inevitável. Principalmente quando há uma clara tendência dos meios de comunicação à deformação da opinião pública. Veja o caso do Lamarca, ex-capitão do exército que partiu para a guerrilha na época da ditadura militar. Na semana que passou houve uma decisão que reconhece o então oficial como coronel. Essa decisão foi tomada porque ele foi assassinado durante sua captura. A imprensa direitista como sempre se levantou contra. Páginas raivosas na Veja e até na Folha de S. paulo, com direito a editorial e tudo.

Em sua coluna de hoje, o ombusman do jornal coloca o assunto no seu devido lugar. Diz ele na nota (que vale para todos os veículos de (des)informação) "Erros em série sobre Lamarca":

"A Folha cometeu uma sucessão de erros na cobertura de quinta e sexta sobre a promoção a coronel concedida a Carlos Lamarca (1937-71) pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça.O jornal afirmou que Lamarca, um dos mais destacados militantes da esquerda armada contra a ditadura militar (1964-85), "morreu como capitão" em 1971 na Bahia.Não procede: ao desertar do Exército em 1969 por iniciativa própria, o então capitão deixou de pertencer à Força. Não era oficial ao ser morto, mas ex-militar....Grave erro consta do editorial de sexta: "A morte [de Lamarca] em combate -como acabou ocorrendo há quase 36 anos no interior da Bahia- é risco natural para quem escolhe pegar em armas".Assim, a Folha bancou o relato do regime militar. Em 1996, a União concluiu que o guerrilheiro foi assassinado quando -desnutrido, doente e exausto- já não tinha condições de reagir. Não teria, portanto, havido combate algum, mas homicídio, em vez da prisão possível. É o que a imprensa noticiou há 11 anos...A Folha deve ser rigorosa ao narrar a história, sem subscrever relatos superados ou carentes de comprovação."

Concordo totalmente. No mesmo jornal a coluna do jornalista Elio Gaspari aponta para outro absurdo que é este carnaval em torno do tal Vavá, o lobista que não conseguiu emplacar nadinha e ainda tentou tomar uns 2 mil reais na praça. Tá na cara que não passa de um tolinho (e mais tolinho ainda quem acreditava na história dele). Mas a imprensa não está nem aí para isso e fica batendo bumbo. Só porque Vavá é irmão do presidente. No artigo "Vavá está sendo linchado", o jornalista explica o que está de fato oorrendo:

"O homem do "arruma dois pau pra eu" é o biombo. Querem a jugular de Lula, o dos 60 milhões de votos . GENIVAL INÁCIO da Silva, o Vavá, está sendo covardemente linchado porque é irmão do presidente da República. Ele é acusado de tráfico de influência sem que até hoje tenha aparecido um só nome de servidor público junto ao qual tenha traficado qualquer pleito que envolvesse dinheiro do erário. Um fazendeiro paulista metido numa querela de terras queria reverter uma decisão unânime do Superior Tribunal de Justiça. Vavá recomendou-lhe um advogado. Isso não é tráfico de coisa alguma. Um empreiteiro queria obras e encontrou-se com ele num restaurante. Ninguém responde se Vavá conseguiu favorecer esse ou qualquer outro empreiteiro.A divulgação cavilosa e homeopática de trechos de gravações telefônicas envolvendo parentes de Nosso Guia tornou-se um processo intimidatório e difamador capaz de fazer corar generais do Serviço Nacional de Informações, o SNI da ditadura. No caso de Vavá, as suspeitas jogadas até agora no ventilador não guardam nexo com os fatos. Não há proporção entre as acusações que lhe fazem e o grau de exposição a que foi deliberadamente submetido...."

"...Antes da conclusão do inquérito policial, Vavá foi irremediavelmente satanizado a partir de indícios, suspeitas e manipulações. Seu linchamento não busca o cidadão metido com vigaristas. Busca a jugular do irmão.Durante a última campanha eleitoral, quando o comissariado petista chafurdou na compra de um dossiê contra os tucanos, demonizou-se a figura de Freud Godoy, um assessor de Lula, conviva de sua panelinha. Durante três dias ele pareceu encarnar toda a corrupção nacional. Freud foi arrolado em dois processos, um criminal e outro eleitoral. Dizer que foi inocentado é pouco. Ele nem sequer foi indiciado.O pessoal do século 21 sabe que Jimmy Carter é um ex-presidente dos Estados Unidos (1977-1981), Prêmio Nobel da Paz de 2002. Passará para a história como um exemplo de retidão. Isso agora. Quando estava na Casa Branca, Carter foi atazanado pela exposição de seu irmão Billy, caipira alcoólatra que se tornou lobista (registrado) do governo líbio. Criou-se o neologismo Billygate. Morreu em 1988, aos 51 anos, falido. Virou poeira da História.Ninguém quer a jugular de Vavá, como não se queria a de Billy Carter. O negócio é outro."

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Mas você não consome?

Esta foi a questão levantada por um internauta no branas@uol.com.br . "É fácil falar para não consumir. Tenho certeza de que vc anda de carro, faz compras no shopping, come carne etc, fulminou meu crítico virtual. Toda a indignação foi causada pelo post A ONU e os bicombustíveis, no qual defendo que não adianta ficar falando de sustentabilidade e medidas paliativas como os biocombustíveis. O que vai salvar o planeta é diminuir o consumo. Daí para quase ser chamado de hipócrita foi um passo.

Mas são questões pertinentes e que valem a pena ser respondidas. Óbvio que sou um ser-humano normal e com todas as deficiências crônicas de uma erva daninha neste planeta. Porém, acho que não estou entre os piores e mostro uma evidente evolução.

Tenho entre os pontos positivos o fato de que nunca fui muito ligado à moda, consumo, carros etc. Tomo trem e metrô sem nenhuma crise. Aliás, até me sinto uma pessoa civilizada fazendo isso. Meus gostos mais perdulários, vocês que acompanham o blog já devem ter percebido, são os livros. Curto também traquitanas tecnológicas, mas, não, ainda não tenho tela de plasma, home theater, ipod e outros brinquedinhos modernosos e símbolos de status.

Por outro lado, as coisas duram comigo. Celular, por exemplo, só troco depois de uns 4 anos de uso intenso. Por mim nem trocava, mas os aparelhinhos não aguentam muito tempo. Foram feitos para se dissolverem depois de uma data limite...Meu vídeo-cassete (sim vídeo-cassete) ainda roda umas fitas vhs.

Mas nada disso realmente me emociona mais do que dar algumas voltas em dias ensolarados de outono. Ou mesmo tomar um banho na cachoeira, ficar reunido com a família e amigos. Cada vez mais dou importância a estas pequenas coisas e menos em comprar, consumir, se mostrar, ter status. Gosto da idéia do budismo sobre o desapego.

Porém, antes que alguém queira me canonizar já vou avisando que a única coisa que me recuso mesmo a fazer, e posso até ser apedrejado em praça pública por causa disso, é parar de comer carne! Não dá. Mas quem sabe neste meu caminho da iluminação eu acabe me convencendo e consigo mudar os meus hábitos? E vc? O que vc faz para diminuir o seu consumo? Envie o seu e-mail ou deixe um comentário e vamos compartilhar experiências. O Branas está aqui para isso.

domingo, 10 de junho de 2007

Epicuro e a busca da felicidade

Continuo devorando o livro As Consolações da Filosofia, de Alain de Botton. Estou no capítulo dedicado ao filósofo Epicuro (341 a.C). Ele viveu boa parte da vida em Atenas e fundou uma comunidade, digamos, alternativa. Era um grupo de amigos que compartilhava uma casa modesta no subúrbio, fazia plantação de subsistência e passava horas discutindo filosofia.

No entanto, Epicuro leva a fama de ser o autor da idéia de que temos que aproveitar as boas coisas da vida. Conceito que evoluiu de maneira equivocada para comer e beber do melhor; morar em casas confortáveis e luxuosas; vestir-se com requinte... Mas não era nada disso que ele pregava!

O filósofo acreditava que só uma vida em torno de amigos, com liberdade e reflexão traria a felicidade. No primeiro caso, nas palavras de Botton, "...O desejo de possuir riqueza talvez não deva ser sempre entendido como ânsia por uma vida luxuosa. Um motivo mais importante talvez fosse o desejo de ser admirado e bem tratado. Podemos almejar a fortuna como o único objetivo de assegurar o respeito e a atenção de pessoas que, em outras circunstâncias, nos desprezariam. Epicuro, ao discernir nossa carência subjacente, reconheceu que um punhado de bons amigos sinceros poderia prover o amor e o respeito que mesmo a riqueza não pode".

Já a liberdade, para Epicuro, é não ter que se submeter a trabalhar com pessoas de quem não se gosta ou conviver com chefes e suas ordens. Por isso, o filósofo e seus amigos optaram por uma vida mais simples, porém que se afastava deste modelo de dependência a terceiros. Fundaram a comunidade alternativa "Jardim" e conseguiram uma vida equilibrada. Para Botton, " a simplicidade não afetava o senso de status quo dos amigos porque, ao se distanciarem dos valores de Atenas, deixaram de julgar a si próprios segundo bases materiais. Não havia necessidade de constrangimento diante de paredes nuas e nenhum benefício em exibir a posse de ouro. Entre um grupo de amigos que vivia afastado do centro político e econômico da cidade não havia - no sentido financeiro - nada a provar"

Finalmente, Epicuro considerava a reflexão como a terceiro pilar para a busca da felicidade. Na reflexão você consegue combater a ansiedade. O filósofo acreditava que "quando anotamos um problema ou verbalizamos em uma conversa, permitimos que seus aspectos essenciais venham à tona. Uma vez identificado seu caráter, eliminamos, se não o problema em si, pelo menos as características secundárias que o agravam: confusão, indecisão, perplexidade".

Portanto, para Epicuro, ter dinheiro não quer dizer, necessariamente, ter felicidade. Sem amigos, liberdade e uma vida baseada na reflexão, "jamais seremos verdadeiramente felizes. E. se temos tudo, com exceção do dinheiro, jamais seremos infelizes... " . Alain de Botton faz uma reflexão genial na seqüência: "Por que, então, somos tão fortemente atraídos por coisas caras, se elas não podem nos trazer alegrias extraordinárias? ...porque objetos caros podem parecer soluções plausíveis para necessidades que não compreendemos. Os objetos imitam, em uma dimensão material, aquilo de que necessitamos no plano psicológico. Precisamos reorganizar nossas mentes, mas somos seduzidos por prateleiras repletas de novidades. Compramos um cardigã de caxemira como um substituto para conselho de amigos".

Claro que não é fácil escapar do consumismo. Epicuro alertava para o perigo das opiniões vãs. Seriamos influenciados pelo meio que nos cerca (amigos, publicidade, cidade etc), o que causa uma enfatização ao luxo e à riqueza. " A prevalência de uma opinião vã não é uma coincidência. Faz parte dos interesses do mundo dos negócios que esta hierarquia natural de nossas necessidades (amizade, liberdade e reflexão) seja desvirtuada, para a promoção de uma visão material do bem e uma desvalorização do que não pode ser comprado. E a maneira de nos seduzir é estabelecer uma associação astuciosa entre os artigos supérfluos e nossas outras necessidades esquecidas (por exemplo, propaganda de um jipe = a liberdade)".

Prossegue Botton, "...A publicidade não seria tão vitoriosa se não fôssemos criaturas tão sugestionáveis. Cobiçamos coisas que nos são apresentadas vistosamente...Lucrécio (filósofo grego) lamentava a maneira pela qual aquilo que desejamos é escolhido mais por influência da opinião alheia do que pelo que nos revelam nossos sentidos. Proliferam imagens atraentes de produtos e locais suntuosos, e pouco se fala de ambientes e pessoas comuns. Recebemos pouco incentivo para tomar em consideração recompensas modestas: brincar com uma criança, conversar com amigos, uma tarde ao sol, uma casa limpa, um pouco de queijo sobre uma fatia de pão fresco. "

Enfim, viva uma vida mais simples. O que nos custa apreciar uma tarde ensolarada de outono? Andar com o cachorro, tirar um tempo para conversar com amigos, tomar sorvete de mãos dadas com a pessoa amada...Com este pensamento vamos em busca de algo mais profundo e menos epidérmico e ainda ajudamos a tornar a vida em nosso planeta mais sustentável. Afinal, com tanta coisa boa e de graça oferecida pela natureza, por que incentivar o consumismo que, no final das contas, está destruindo Gaia?

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sábado, 9 de junho de 2007

Caridade

Não sei se vcs repararam, mas o exercício da caridade é um ponto em comum entre algumas religiões, como o judaísmo, budismo, espiritismo, umbanda, catolicismo etc. O ato de dar é um dos pilares principais para o bem-estar da pessoa, seja material ou espiritual. Há uma frase que é atribuída a Buda que diz que "se soubéssemos qual o fruto do ato de dar, nós não deixaríamos passar nem sequer uma simples refeição sem dividi-la".

Pensem nisso e comecem a fazer caridade. Atos simples como oferecer refeição para povo na rua (uma pessoa que seja), dar aulas de reforço para crianças carentes, fazer doação de alimentos para orfanato ou asilo, dar kits de lápis de cor e caderno de desenho para crianças na rua etc são exemplos de envolvimento direto na caridade. Mas se vc não tem muito tempo disponível, pode ajudar com uma pequena contribuição em dinheiro alguma associação de caridade que vc conheça (e é bom conhecer mesmo para ver como o trabalho é desenvolvido) .

Pronto. Garanto que você vai se sentir outra pessoa e com energia renovada após um ato de caridade. Além disso, se cada um ajudasse um pouquinho que fosse, as desigualdades sociais no Brasil seriam bem menores. Mãos à obra!