Ciência, lógica, antropologia, mitos, sonhos, universos e outras dimensões
quarta-feira, 18 de abril de 2007
Uma festa pagã
No último sábado fui convidado a um casamento celebrado segundo os rituais da Umbanda. Na cerimônia não existe um formalismo espartano, como na da igreja católica, por exemplo. Conta sim com algum ritual, mas no geral reina um certo improviso. O que mais me chamou a atenção foi ver ao vivo um evento bem próximo das antigas tradições pagãs. A noiva e o noivo estavam vestidos com panos brancos e descalços (assim como os convidados). A noiva e a dama de honra com guirlanda (composta só de flores e ramagens verdadeiras) pareciam ter saído do mundo dos elfos do Senhor do Anéis. No decorrer do evento, oferendas aos quatro elementos (terra, água, ar e fogo), sal e pão para garantir a felicidade e a prosperidade do casal e muita música ao som de atabaques e palmas. Tudo bem festivo, bonito e empolgante. Interessante este resgate da importância dos elementos da natureza em nossas vidas, de toda a simbologia envolvida e da saudação há vários deuses (ou entidades). Uma pena que com a ascensão da igreja católica estes ritos foram sendo duramente banidos e considerados como heresia. Como nada se perde e tudo se transforma, ainda vemos nos casamentos católicos noivas casando de branco e tendo grinaldas em suas cabeças.
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Descriminalizar o aborto
Cresce o sentimento em algumas áreas importantes da opinião pública de que se deve descriminalizar o aborto. Já fiz algumas considerações em posts anteriores (ver) de que não devemos simplesmente ignorar os fatos e que mais de um milhão de mulheres fazem abortos no Brasil, a grande maioria em condições precárias. Na segunda-feira a Folha de S. Paulo trouxe artigo escrito por Kenarik Boujikian Felippe, juíza da 16ª Vara Criminal de SP e Secretaria do Conselho Executivo da Associação Juízes para a Democracia, e José Henrique Rodrigues Torres, juiz da Vara do Júri de Campinas. Muito bem fundamentado e absolutamente racional é um texto que merece ser lido. Separei três paragráfos que são fantásticos pela clareza e assertividade:
"A questão não pode e não deve ser reduzida ao embate maniqueísta daqueles que, diante do tema aborto, são "contra" ou "a favor". O aborto é um gravíssimo problema de saúde pública e deve ser enfrentado fora do âmbito das políticas repressivas, excludentes, fortalecedoras da violência e reprodutoras de dor e sofrimento. "
"É inegável que o aborto não é um evento desejável e que tudo deve ser feito para evitar a gravidez indesejada. Mas o enfrentamento do problema deve ser fixado exclusivamente no âmbito das políticas públicas de saúde reprodutiva"
"Precisamos implementar, imediatamente, políticas públicas de redução de danos e riscos para o abortamento, antes e depois de sua realização. Vale lembrar Ronald Dworkin ("Domínio da Vida"), que diz que, para aqueles que são contrários ao aborto, pode existir a controvérsia moral que lhes permite continuar a acreditar, com plena convicção, que o aborto é moralmente condenável, mas também acreditar com igual fervor que as mulheres grávidas devem ser livres para tomar uma decisão diferente se suas convicções assim o permitirem ou exigirem. Somente com a descriminalização é que a liberdade será um efetivo valor, "porque a liberdade é sempre a do outro".
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"A questão não pode e não deve ser reduzida ao embate maniqueísta daqueles que, diante do tema aborto, são "contra" ou "a favor". O aborto é um gravíssimo problema de saúde pública e deve ser enfrentado fora do âmbito das políticas repressivas, excludentes, fortalecedoras da violência e reprodutoras de dor e sofrimento. "
"É inegável que o aborto não é um evento desejável e que tudo deve ser feito para evitar a gravidez indesejada. Mas o enfrentamento do problema deve ser fixado exclusivamente no âmbito das políticas públicas de saúde reprodutiva"
"Precisamos implementar, imediatamente, políticas públicas de redução de danos e riscos para o abortamento, antes e depois de sua realização. Vale lembrar Ronald Dworkin ("Domínio da Vida"), que diz que, para aqueles que são contrários ao aborto, pode existir a controvérsia moral que lhes permite continuar a acreditar, com plena convicção, que o aborto é moralmente condenável, mas também acreditar com igual fervor que as mulheres grávidas devem ser livres para tomar uma decisão diferente se suas convicções assim o permitirem ou exigirem. Somente com a descriminalização é que a liberdade será um efetivo valor, "porque a liberdade é sempre a do outro".
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terça-feira, 17 de abril de 2007
Conexões ocultas
Quem acompanha este blog deve estar se perguntando: "Mas que diabos. O cara escreve sobre física quântica, espiritualidade e depois desembesta a falar sobre sustentabilidade!?" Ora, não tem nada de estranho. Ao contrário, se este escriba não abordasse todos estes temas aí sim seria suspeito. Vejam, tudo neste universo está correlacionado. Vivemos uma série de conexões ocultas (peguei emprestado o título de um livro de Fritjof Capra) que talvez no futuro conseguiremos desvendar. A religiosidade e o meio ambiente, por exemplo, sempre estiveram relacionados. Os povos mais primitivos adoravam as forças da natureza (até porque não as compreendiam), como a chuva, o calor do sol, a terra e o vento. E isso não está relegado à história. A religião sempre vai se reciclando e incorporando tradições de outros povos. Foi assim quando os deuses gregos foram cooptados pelos romanos. Ou o cristianismo quando se apropriou de algumas referências ao deus Mitra para vestir Cristo. Isso sem falar aqui no Brasil com a vinda dos escravos e o seu Candomblé. A Umbanda nada mais é do que uma variação destas tradições africanas com o jeitinho brasileiro. E vejam vcs: é uma mescla de respeito aos quatro elementos da natureza com a incorporação do espiritual. Se formos mais longe e extrapolarmos para a tese de Amit Goswami em sua Física da Alma, aí juntamos também a física quântica e a metafísica e conseguimos explicar a comunicação de espíritos com os médiuns. Viram a beleza das conexões ocultas?
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Em busca de mais energia
Nos dois últimos posts tentei fazer uma introdução sobre a questão da sustentabilidade. Um dos aspectos importantes é o da substituição das formas de energia produzidas por combustíveis fósseis, como carvão, petróleo, gás etc. A questão é polêmica. Se por um lado há uma busca por combustíveis vindos de fontes renováveis, como cana-de-açúcar, milho, mamoma, de outro há os que questionam se devemos buscar uma alternativa sem mudar nossa forma de utilizá-la. Temos que ser reeducados a reaproveitar mais, consumir menos e com mais qualidade.
Fritjof Capra no clássico O Ponto de Mutação:
"As raízes mais profundas de nossa atual crise energética situam-se nos modelos de produção e consumo perdulário que se tornaram característicos de nossa sociedade. Para resolver a crise não necessitamos de mais energia, o que apenas agravaria nossos problemas, mas de profundas mudanças em nossos valores, atitudes e estilos de vida. Entretanto, ao mesmo tempo em que perseguimos essa meta a longo prazo, também precisamos mudar nossa produção de energia dos recursos não-renováveis para os renováveis, e das tecnologias pesadas para as brandas, a fim de alcançarmos o equilíbrio ecológico"
James Lovelock vai na mesma direção da mudança de hábito, mas discorda de Capra quanto à substituição de energia por fontes renováveis, principalmente os biocombustíveis. Na entrevista para a Veja ele explica:
Veja - No Brasil, a maioria dos carros novos funciona com álcool combustível. O biocombustível é uma boa forma de reduzir a emissão de gases do efeito estufa?
Lovelock - Essa provavelmente é das coisas menos sábias a fazer. Para produzir a cana-de-açúcar para o biocombustível, é preciso ocupar o espaço dedicado à produção de alimentos ou derrubar florestas, que ajudam a regular o clima. Isso é contraprodutivo. É mais inteligente usar a energia nuclear para produzir hidrogênio como combustível para os carros. Alguns anos atrás, muitos cientistas achavam que o biocombustível era o caminho certo a seguir. Agora que sabemos quão sério é o problema do aquecimento global, percebemos que essa não é a melhor solução. Nós, cientistas, devemos pedir desculpas ao povo brasileiro.
Veja - Qual sua opinião sobre o conceito de desenvolvimento sustentado, pelo qual se explora o ambiente sem lhe provocar danos?
Lovelock - Acho uma idéia adorável. Se a tivéssemos aplicado 200 anos atrás, quando havia apenas 1 bilhão de pessoas no mundo, talvez não estivéssemos na situação em que estamos hoje. Agora é tarde demais. Não há mais espaço para nenhum tipo de desenvolvimento. A humanidade tem de regredir. Em algumas décadas, quem conseguir se mudar para regiões melhores, com temperaturas mais amenas, terá uma chance de sobreviver.
Fritjof Capra no clássico O Ponto de Mutação:
"As raízes mais profundas de nossa atual crise energética situam-se nos modelos de produção e consumo perdulário que se tornaram característicos de nossa sociedade. Para resolver a crise não necessitamos de mais energia, o que apenas agravaria nossos problemas, mas de profundas mudanças em nossos valores, atitudes e estilos de vida. Entretanto, ao mesmo tempo em que perseguimos essa meta a longo prazo, também precisamos mudar nossa produção de energia dos recursos não-renováveis para os renováveis, e das tecnologias pesadas para as brandas, a fim de alcançarmos o equilíbrio ecológico"
James Lovelock vai na mesma direção da mudança de hábito, mas discorda de Capra quanto à substituição de energia por fontes renováveis, principalmente os biocombustíveis. Na entrevista para a Veja ele explica:
Veja - No Brasil, a maioria dos carros novos funciona com álcool combustível. O biocombustível é uma boa forma de reduzir a emissão de gases do efeito estufa?
Lovelock - Essa provavelmente é das coisas menos sábias a fazer. Para produzir a cana-de-açúcar para o biocombustível, é preciso ocupar o espaço dedicado à produção de alimentos ou derrubar florestas, que ajudam a regular o clima. Isso é contraprodutivo. É mais inteligente usar a energia nuclear para produzir hidrogênio como combustível para os carros. Alguns anos atrás, muitos cientistas achavam que o biocombustível era o caminho certo a seguir. Agora que sabemos quão sério é o problema do aquecimento global, percebemos que essa não é a melhor solução. Nós, cientistas, devemos pedir desculpas ao povo brasileiro.
Veja - Qual sua opinião sobre o conceito de desenvolvimento sustentado, pelo qual se explora o ambiente sem lhe provocar danos?
Lovelock - Acho uma idéia adorável. Se a tivéssemos aplicado 200 anos atrás, quando havia apenas 1 bilhão de pessoas no mundo, talvez não estivéssemos na situação em que estamos hoje. Agora é tarde demais. Não há mais espaço para nenhum tipo de desenvolvimento. A humanidade tem de regredir. Em algumas décadas, quem conseguir se mudar para regiões melhores, com temperaturas mais amenas, terá uma chance de sobreviver.
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segunda-feira, 16 de abril de 2007
Um trecho de A Vingança de Gaia
Falei no post anterior sobre a sustentabilidade e a visão pessimista do cientista James Lovelock em seu perturbador livro a Vingança de Gaia. Para vocês terem uma idéia da força argumentativa do autor, reproduzo abaixo um significativo parágrafo:
"...as informações que chegam de observadores ao redor do mundo trazem notícias de uma mudança iminente de nosso clima para algo que poderia ser facilmente ser descrito como um inferno: tão quente, tão mortal que apenas um punhado dos bilhões de seres humanos agora vivos sobreviverá. Fizemos essa bagunça terrível no planeta quase sempre com as melhores intenções liberais. Mesmo agor a, quando o sino começou seu dobre para marcar nosso fim, continuamos falando de desenvolvimento sustentável e energia renovável como se essas oferendas fracas pudesem se aceitas porGaia como um sacrifício apropriado e acessível. Somos como um membro negligente e descuidado de uma família que acha que um bom pedido de desculpas é suficiente. Fazemos parte da família Gaia, somos valorizados como tal, mas enquanto não pararmos de agir como se o bem-estar humano fosse tudo o que importa, servindo como desculpa para a nossa má conduta, toda conversa sobre qualquer tipo de desenvolvimento adicional será inaceitável..."
Alguns links interessantes sobre James Lovelock:
Artigo escrito pelo autor sobre o livro (em português).
Entrevista para a revista Veja e reproduzida no site Vale Verde.
Contraponto com outros cientistas. No site da BBC (em português).
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"...as informações que chegam de observadores ao redor do mundo trazem notícias de uma mudança iminente de nosso clima para algo que poderia ser facilmente ser descrito como um inferno: tão quente, tão mortal que apenas um punhado dos bilhões de seres humanos agora vivos sobreviverá. Fizemos essa bagunça terrível no planeta quase sempre com as melhores intenções liberais. Mesmo agor a, quando o sino começou seu dobre para marcar nosso fim, continuamos falando de desenvolvimento sustentável e energia renovável como se essas oferendas fracas pudesem se aceitas porGaia como um sacrifício apropriado e acessível. Somos como um membro negligente e descuidado de uma família que acha que um bom pedido de desculpas é suficiente. Fazemos parte da família Gaia, somos valorizados como tal, mas enquanto não pararmos de agir como se o bem-estar humano fosse tudo o que importa, servindo como desculpa para a nossa má conduta, toda conversa sobre qualquer tipo de desenvolvimento adicional será inaceitável..."
Alguns links interessantes sobre James Lovelock:
Artigo escrito pelo autor sobre o livro (em português).
Entrevista para a revista Veja e reproduzida no site Vale Verde.
Contraponto com outros cientistas. No site da BBC (em português).
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A tal da sustentabilidade
Ao ser apresentado a Fritjof Capra (ver post) entendi bem antes desta recém-descoberta da sustentabilidade como nós estávamos brincando com o perigo ao poluir e destruir nossos limitados recursos naturais. Em seus livros, como Ponto de Mutação, Teia da Vida e Conexões Ocultas, é abundante a quantidade de informações sobre como agimos no meio ambiente e o que isso provoca no entorno, mesmo sem que percebamos. Ou seja, tudo o que fazemos traz uma conseqüência. Quando aumentamos a emissão de gás carbônico, provocamos o efeito estufa. Quando destruímos uma floresta, podemos causar erosão, expulsamos insetos e animais e desequilibramos todo o ecossistema. Apesar dos alertas e dos casos mostrados, Capra passa a impressão de que podemos reverter o dia do juízo final. Pensamento diferente tem o cientista James Lovelock, autor do conceito de Gaia. Em seu livro A vingança de Gaia ele alerta que já perdemos a batalha e que agora temos que pelo menos tentar minimizar os impactos negativos. Ele não acredita nesta história de sustentabilidade. Para ele, o único jeito de melhorar a situação é diminuir drasticamente o consumo e o crescimento da população e encontrar formas de energia limpa (ele defende a energia nuclear) . Lendo um post do jornalista Luis Nassif (ler aqui), revi todos os temas que são recorentes em Capra e Lovelock. Ele cita o economista-ecologista chileno Manfred Max-Neef, 70 anos, vencedor do Right Livelihood Award, conhecido como Prêmio Nobel alternativo:
"Um dos pontos centrais de sua crítica é que, quando se incluem as externalidades na avaliação do processo produtivo, o que era eficiente pode se tornar perdulário. Hoje em dia, é visto como maravilha que o leite saia da Áustria, vá para a Itália onde será convertido em yougurte, com embalagem produzida na Alemanha e a fita em outro país (estou dando o exemplo de memória). Quando se calcula o consumo de combustíveis, a geração de carbono, o modelo torna-se totalmente anacrônico e perdulário."
Prossegue Nassif mencionando Manfred:
"Uma das posições mais provocativas de Manfred é em relação ao desenvolvimento. A partir de um certo nível de desenvolvimento, o crescimento passa a ser improdutivo para o que deveria ser o objetivo final da economia: a busca do bem estar dos cidadãos. Há uma saturação da infra-estrutura, obrigando a novos investimentos, uma busca incessante de eficiência, gerando desemprego. Mas a crítica é apenas para países desenvolvidos.Outra, é em relação à incapacidade do planeta de manter o ritmo atual de crescimento, em cima de um modelo baseado no supérfluo."
Portanto, companheiros de blog, a situação está feia e a solução passa por medidas muito mais radicais do que soluções cosméticas e, muitas vezes, marqueteiras como sustentabilidade, mercado de carbono, neutralização de emissão de carbono etc.
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"Um dos pontos centrais de sua crítica é que, quando se incluem as externalidades na avaliação do processo produtivo, o que era eficiente pode se tornar perdulário. Hoje em dia, é visto como maravilha que o leite saia da Áustria, vá para a Itália onde será convertido em yougurte, com embalagem produzida na Alemanha e a fita em outro país (estou dando o exemplo de memória). Quando se calcula o consumo de combustíveis, a geração de carbono, o modelo torna-se totalmente anacrônico e perdulário."
Prossegue Nassif mencionando Manfred:
"Uma das posições mais provocativas de Manfred é em relação ao desenvolvimento. A partir de um certo nível de desenvolvimento, o crescimento passa a ser improdutivo para o que deveria ser o objetivo final da economia: a busca do bem estar dos cidadãos. Há uma saturação da infra-estrutura, obrigando a novos investimentos, uma busca incessante de eficiência, gerando desemprego. Mas a crítica é apenas para países desenvolvidos.Outra, é em relação à incapacidade do planeta de manter o ritmo atual de crescimento, em cima de um modelo baseado no supérfluo."
Portanto, companheiros de blog, a situação está feia e a solução passa por medidas muito mais radicais do que soluções cosméticas e, muitas vezes, marqueteiras como sustentabilidade, mercado de carbono, neutralização de emissão de carbono etc.
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domingo, 15 de abril de 2007
O que é a verdade?
O físico Marcelo Gleiser toca em seu artigo de hoje na Folha de S. Paulo em um ponto importante: além de toda a subjetividade humana, o que é real ou não? Fiquei fascinado com o texto porque é uma perspectiva que venho analisando faz tempo e até já mencionei em um dos primeiros posts deste blog. Aliás, o tema desta página pessoal, Só sei que nada sei, está totalmente focado neste conceito. Por isso, reproduzo abaixo e com toda a reverência possível um trecho do texto de Gleiser:
"A coisa fica complicada quando se discute, por exemplo, a realidade física. O Universo, ou melhor, nossa concepção dele, mudou muito nos últimos 500 anos. Para uma pessoa da Renascença, antes de Nicolau Copérnico (1473-1543), o cosmo era finito, com a Terra imóvel no centro. O céu, a morada de Deus, ficava além da esfera das estrelas fixas. Era ela que marcava o fim do espaço. Após Copérnico e, principalmente, após Johannes Kepler (1571-1630) e Galileu Galilei (1564-1642) nas primeiras décadas do século 17, o Sol passou a ser o centro do cosmo e a Terra um mero planeta. O que era "verdade" para alguém de 1520 não era para alguém de 1650. E o universo em que vivemos hoje, gigantesco, com centenas de bilhões de galáxias se afastando uma das outras, é completamente diferente do de uma pessoa de 1650. Qual dessas várias cosmologias é verdadeira? Todas e nenhuma delas. Se definimos como verdade o que construímos com o conhecimento científico que detemos num determinado momento, todas essas versões são verdadeiras. Mas nenhuma delas é a verdade. Dado que jamais poderemos medir com absoluta precisão todas as facetas do cosmo e da Natureza, é essencialmente impossível obter uma versão absoluta do que seja a realidade física. Consequentemente, a ciência jamais poderá encontrar a verdade. O que podemos fazer - e o fazemos maravilhosamente bem - é usar nossa razão e nossos instrumentos para nos aproximar cada vez mais dessa verdade intangível. É essa limitação que enobrece a ciência, dando-lhe sua dimensão humana."
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"A coisa fica complicada quando se discute, por exemplo, a realidade física. O Universo, ou melhor, nossa concepção dele, mudou muito nos últimos 500 anos. Para uma pessoa da Renascença, antes de Nicolau Copérnico (1473-1543), o cosmo era finito, com a Terra imóvel no centro. O céu, a morada de Deus, ficava além da esfera das estrelas fixas. Era ela que marcava o fim do espaço. Após Copérnico e, principalmente, após Johannes Kepler (1571-1630) e Galileu Galilei (1564-1642) nas primeiras décadas do século 17, o Sol passou a ser o centro do cosmo e a Terra um mero planeta. O que era "verdade" para alguém de 1520 não era para alguém de 1650. E o universo em que vivemos hoje, gigantesco, com centenas de bilhões de galáxias se afastando uma das outras, é completamente diferente do de uma pessoa de 1650. Qual dessas várias cosmologias é verdadeira? Todas e nenhuma delas. Se definimos como verdade o que construímos com o conhecimento científico que detemos num determinado momento, todas essas versões são verdadeiras. Mas nenhuma delas é a verdade. Dado que jamais poderemos medir com absoluta precisão todas as facetas do cosmo e da Natureza, é essencialmente impossível obter uma versão absoluta do que seja a realidade física. Consequentemente, a ciência jamais poderá encontrar a verdade. O que podemos fazer - e o fazemos maravilhosamente bem - é usar nossa razão e nossos instrumentos para nos aproximar cada vez mais dessa verdade intangível. É essa limitação que enobrece a ciência, dando-lhe sua dimensão humana."
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Aborto em plebiscito
O editorial da Folha deste domingo vai de encontro ao que defendi em um post anterior. Louve-se a postura do jornal. Temos que melhorar a qualidade do debate, deixar a população decidir e não fechar os olhos aos mais de 1 milhão de abortos no país. Um trecho da opinião do jornal que leva o título Aborto em plebiscito:
"... Discussões sobre o aborto são sempre difíceis, porque esse é um tema que mobiliza profundas convicções religiosas e humanitárias. Quem as tem -para um lado ou para o outro- raramente se deixa convencer pelos argumentos da parte adversária.É importante, entretanto, que se tragam para o debate novos elementos que transcendam à questão dos princípios. É aí que devem entrar as considerações de saúde pública..."
"... O problema das discussões principistas é que elas gravitam em torno de polêmicas insolúveis acerca de quando a vida tem início e deixam de levar em conta a realidade sanitária, que não é alterada por boas intenções ou palavras de ordem.Nem a ciência nem a religião podem dar uma resposta satisfatória e universal sobre quando começa a vida -se na concepção, ao longo do desenvolvimento fetal ou no nascimento. A única alternativa é deixar que o direito estabeleça o ponto, que será necessariamente arbitrário. O conjunto dos cidadãos e cidadãs tem toda a legitimidade para fazê-lo."
"... Discussões sobre o aborto são sempre difíceis, porque esse é um tema que mobiliza profundas convicções religiosas e humanitárias. Quem as tem -para um lado ou para o outro- raramente se deixa convencer pelos argumentos da parte adversária.É importante, entretanto, que se tragam para o debate novos elementos que transcendam à questão dos princípios. É aí que devem entrar as considerações de saúde pública..."
"... O problema das discussões principistas é que elas gravitam em torno de polêmicas insolúveis acerca de quando a vida tem início e deixam de levar em conta a realidade sanitária, que não é alterada por boas intenções ou palavras de ordem.Nem a ciência nem a religião podem dar uma resposta satisfatória e universal sobre quando começa a vida -se na concepção, ao longo do desenvolvimento fetal ou no nascimento. A única alternativa é deixar que o direito estabeleça o ponto, que será necessariamente arbitrário. O conjunto dos cidadãos e cidadãs tem toda a legitimidade para fazê-lo."
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sábado, 14 de abril de 2007
Tal qual avestruzes
Acabei de escrever o post abaixo e vi o artigo do médico Drauzio Varela na Folha de hoje (14/04) que vai de encontro com o que acredito. Tal qual avestruzes (só para assinantes) foca principalmente no planejamento familiar. "Se persistirem as taxas de natalidade atuais, nascerão 2,6 bilhões de crianças nos próximos 45 anos, número idêntico ao total de habitantes da Terra em 1950". Diante disso, investir em planejamento familiar não é mais uma opção é uma necessidade. Drauzio lista algumas medidas que precisam ser efetivadas, como "...dar mais poder às mulheres.O direito de escolher quando engravidar é crucial para a autonomia feminina. Meninas de escolaridade baixa tendem a casar mais cedo e a ter mais filhos, criando um ciclo perverso de fertilidade alta e desigualdade sexual. Reduzir a mortalidade infantil.Uma criança nascida menos de 18 meses depois de um irmão tem índice de mortalidade de duas a quatro vezes mais alto do que outra nascida com pelo menos 36 meses de diferença. Se as gestações ocorressem com pelo menos dois anos de intervalo, estima-se que seriam prevenidas anualmente pelo menos um milhão de mortes infantis. Promover a saúde materna. A expansão dos serviços de saúde não consegue acompanhar o crescimento populacional.O acesso à contracepção reduz a mortalidade materna, porque reduz o número de gestações e de abortamentos realizados em condições precárias." (grifo meu) . Mas quem disse que é possível fazer política pública séria de planejamento familiar neste país com igrejas, conservadores, mídia e elite branca brincando de falso moralismo? Bando de avestruzes!
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Uma discussão interrompida
Tem certas coisas neste país que me deixam furioso. Uma delas é quando o debate de alguns assuntos no país vira Fla-Flu ou quando os meios de comunicação impedem um debate sério por ir contra determinados interesses. Um desses temas é o aborto. O ministro da saúde José Gomes Temporão fez uma declaração corajosa ao dizer que não podemos fechar os olhos para os milhões de abortos clandestinos que ocorrem no país. Sugeriu até que a descriminalização e a liberação fossem definidos democraticamente a partir de um plebiscito. Foi o que bastou para uma tropa de choque no estilo "torquemadas" fizesse manifestações e até, com alguma violência, tentasse impedir um ato público em que estava presente o ministro. O que o país ganha com este tipo de censura? Qual é o problema de se debater a fundo a questão? Ou a elite branca deste país, nas palavras do pefelista Cláudio Lembo, prefere fingir que mais de um milhão de abortos clandestinos não ocorrem por aqui? Que a interrupção da gravidez constitui a quinta maior causa de internações na rede pública de saúde? Que o aborto é a terceira causa de morte materna no país (IBGE - 2001). Que só em 2004, 243.988 mulheres foram internadas para fazer curetagem pós-aborto na rede do SUS? Particularmente, não vejo com bons olhos o aborto, mas respeito quem não veja problema religioso algum e/ou não quer manter uma gravidez indesejada. É uma questão de foro íntimo. Não podemos obrigar ninguém a pensar e agir como queremos. Isso é um fascismo disfarçado. E toda a discussão fica no debate esotérico se interromper a gravidez é um direito à vida ou não. Ou seja, conversa para boi dormir. Enquanto ficamos enxugando convenientemente o gelo, mais de um milhão de abortos clandestinos são feitos neste país. A elite branca que é contrária, quando precisa paga mais de R$ 5 mil por uma boa "parteira". Já as pessoas humildes têm que se virar com ervas, pessoas desqualificadas que acabam fazendo a curetagem com arame e outros utensílios inimagináveis. Mas isso não é problema da elite branca. O importante é manter a aparência. Ser hipócrita.
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