quarta-feira, 23 de março de 2011

A histeria em torno da energia nuclear

Artigo muito interessante publicado na Folha de hoje. Jornalista do The Guardian analisa a questão do uso da energia nuclear fora da histeria coletiva que tomou conta do mundo após o problema nos reatores de Fukushima.

Fukushima fez de mim um partidário das usinas nucleares

GEORGE MONBIOT
DO "GUARDIAN"

Você não se surpreenderá ao ouvir que os acontecimentos no Japão me fizeram mudar de opinião sobre a energia nuclear. Mas pode se surpreender com a direção da mudança. Como resultado do desastre em Fukushima, abandonei a neutralidade quanto à energia nuclear, e agora apoio seu uso.
Uma usina velha e dotada de recursos de segurança insuficientes foi atingida por um monstruoso terremoto.
As redes de energia falharam, derrubando o sistema de refrigeração. Os reatores começaram a explodir.
O desastre expôs um legado conhecido, de projetos deficientes e o uso de gambiarras para reduzir custos. Mas, pelo menos até onde sabemos, ninguém recebeu uma dose letal de radiação.
Não estou propondo que sejamos complacentes. Mas é preciso perspectiva.
Como a maioria dos ecologistas, defendo uma grande expansão no uso de fontes de energia renováveis.
Também simpatizo com as queixas dos oponentes disso. Não são apenas as instalações de energia eólica próximas à costa que incomodam, mas as novas conexões de rede elétrica (fios, postes).
Os impactos e custos das fontes renováveis crescem em proporção ao volume de energia que elas fornecem.
Sempre apelei pelo uso de fontes de energia renovável como substitutas do combustível fóssil.
Deveríamos exigir que elas também substituíssem a atual capacidade de geração nuclear? Quanto mais esperarmos das fontes renováveis de energia, mais difícil será a tarefa de persuadir o público quanto ao seu uso.
Mas a fonte de energia a que a maioria das economias recorreriam caso fechassem suas usinas nucleares não é madeira, água, vento ou luz solar, e sim o combustível fóssil. O carvão é 100 vezes pior que a energia nuclear.
Sim, continuo a desprezar os mentirosos que comandam a indústria da energia nuclear. Sim, eu preferiria que o setor fosse fechado, caso existissem alternativas.
Mas não há solução ideal. Toda tecnologia de energia tem seu custo, e a ausência dessas tecnologias também teria. A energia nuclear foi submetida a um dos mais severos testes possíveis, e o impacto sobre o planeta foi pequeno. A crise em Fukushima fez de mim um defensor da energia nuclear.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Análises apressadas

O falecido jornalista Aloysio Biondi tinha uma frase lapidar sobre algumas notícias e análises publicadas pela imprensa. Dizia ele que essas "informações" serviam para deformar a opinião pública e não informar ou formar. As primeiras análises sobre o resultado das eleições partia deste mesmo pressuposto. Vamos deformar a opinião pública fazendo-a acreditar que metade do Brasil, aquele dito rico e poderoso, votou no PSDB e o "resto", no PT. Na análise correta de Marcos Coimbra, diretor do instituto Vox Populi, as coisas não são bem assim. Vale a pena ler este texto publicado na edição desta semana da sempre ótima Carta Capital.


Os tons do azul
Marcos Coimbra


Quase toda a imprensa usou mapas coloridos nas representações dos resultados da eleição presidencial. E, por razões evidentes, foi consenso pintar de vermelho os estados onde Dilma Rousseff ganhou e de azul aqueles em que José Serra se saiu melhor.


É um procedimento que ajuda a visualizar o que aconteceu, mas que leva a diversos equívocos. O mais grave é dar a impressão de que fomos “dois Brasis” na eleição: na metade- de baixo (Sul, Sudeste e Centro-Oeste), predominando o azul e, na de cima (Nordeste e Norte), o vermelho.

Como todo mundo sabe que a parte azul é mais rica e moderna e a vermelha mais pobre e atrasada, a impressão provocada por mapas desse tipo é de que o Brasil desenvolvido foi derrotado pelo subdesenvolvido. Se dependesse do primeiro, Serra seria o presidente. Inversamente, dos mapas emerge a conclusão de que Dilma venceu à custa da pobreza.

Mas é possível ir adiante nessa cartografia, buscando os matizes de cada cor. Por meio deles podemos identificar os nichos mais típicos de cada candidato, os lugares onde o azul é mais azul e o vermelho mais vermelho. É neles que o serrismo e o dilmismo atingiram seu auge e sua essência ficou mais clara.

Os da presidente eleita são fáceis de antecipar: Dilma alcançou seu máximo nos bolsões de extrema pobreza do interior do Nordeste. Lá, onde o Bolsa Família cobre quase toda a população, ela ultrapassou 90% dos votos, esmagando o adversário.

Que bela e convincente maneira de demonstrar que, quanto maior a pobreza, maior a derrota de Serra, maior a vitória do “paternalismo” sobre a “modernidade”, do analfabeto sobre o educado. O que deixa o quadro menos arrumado e complica a versão fácil que empolga os setores conservadores é que o serrismo tem uma geografia que desafia essa explicação. Pois, se o vermelho se acentua de forma previsível, o azul fica mais carregado em lugares inesperados. Em outras palavras, o voto Serra chegou ao ápice em municípios e regiões que de modernos e educados não têm nada.

São várias as explicações para o fato de o Acre ter sido o paraíso do serrismo. Não foi em São Paulo, onde ninguém estranharia que vencesse por larga margem, nem nas partes mais tradicionais do País que ele teve sua melhor performance. Foi lá, longe do “Sul Maravilha”, que Serra obteve mais que o dobro dos votos da petista, venceu em todos os municípios (salvo em Feijó) e está o município mais serrista do Brasil, Porto Acre, cidade miserável e de baixos níveis de escolaridade, onde suplantou Dilma por uma vantagem amazônica.

A versão mais corrente é que o petismo acriano seria responsável pela catástrofe. Depois de 12 anos no poder, o eleitorado teria mostrado, pelo voto em Serra, sua insatisfação com os irmãos Viana e seu grupo. Hipotéticas evidências são arroladas para sustentar a tese, desde desgastes com o funcionalismo público estadual a críticas ao modo como dialogam com a mídia.

O problema desse raciocínio é que tanto Tião Viana se elegeu governador quanto Jorge Viana senador. Ou seja, os acrianos teriam se comportado de maneira totalmente esdrúxula: para protestar contra os dois, os elegeram, mas derrotaram a candidata a presidente que apoiavam. Não seria muito mais lógico impedir que continuassem a administrar o estado?

Para complicar o “mistério acriano” e colocar sob suspeita as explicações localistas, Marina Silva também perdeu para Serra, apesar de “filha da terra”. E, em outros estados do “corredor do agronegócio”, houve vários resultados que sugerem que a avaliação de quem apoiava Dilma não teve efeito no voto que ela recebeu. Blairo Maggi, por exemplo, foi um dos campeões de voto para o Senado, elegeu seu candidato ao governo do Mato Grosso, mas viu Dilma perder.

Não foram fatos locais que explicaram o que aconteceu no Acre e nos demais estados vencidos pelo tucano. Também não foi uma oposição “Brasil moderno” vs. “Brasil arcaico”, como ilustram amplamente os casos do Acre e de Porto Acre. Não foi a educação que deu votos a Serra e a ignorância a Dilma.

Serra venceu onde venceu por fatores ideológicos (exceção de São Paulo, onde o bairrismo teve influência). Não foi um voto explicado pela sociologia (ou a geografia), mas pela política.

No Brasil inteiro, foi basicamente o eleitor antipetista, em mui-tos casos anticonservacionista, anti-indigenista e “antimovimentos sociais”, a favor da “agenda moral” e dos “valores tradicionais” que votou em Serra. Foi o eleitor de direita. No Sul e no Centro-Oeste, chegando ao Acre e a Roraima, ele era maioria, ainda que pequena. Por isso, Serra venceu nessas regiões. E perdeu no País, onde esse voto é minoria.

O predomínio do voto de direita no Acre é algo que merece estudo. Mas o certo é que Tião e Jorge Viana estão de parabéns pela vitória que tiveram em um estado que se inclinou tanto nessa direção. Sua votação mostra que, apesar disso, o eleitorado do Acre reconhece o trabalho que fizeram em benefício do estado.


Marcos Coimbra é sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Aceitar a derrota

Este post faz uma ligação com o de ontem. Não se trata da imprensa, mas de outro personagem da eleição: a oposição. Os tucanos que antes se apresentavam como social democratas neste ano soltaram a franga e deram uma guinada à direita radical. Com isso, acabou açulando o que há de mais conservador e reacionário em parte de nossa pacata sociedade. Os sinais da abertura da caixa de pandora estão por aí cada vez mais escancarados na versão de preconceito e de intolerância. O escritor e jornalista Zuenir Ventura escreveu um artigo muito lúcido sobre este tema na edição de sábado de O Globo que vale a pena ser lido.



ZUENIR VENTURA - O exemplo de Obama
O Globo
06/11/2010
Ao contrário do presidente Barack Obama, que com invejável franqueza aceitou a derrota, confessou-se humilhado e assumiu a responsabilidade pela "surra", reconhecendo sua culpa, os perdedores daqui estão tendo grande dificuldade de admitir a derrota nas últimas eleições. O chororô comporta todo tipo de alegações para desqualificar a vitória de Dilma Rousseff — algumas até fazem sentido, mas outras são justificativas ridículas, desculpas esfarrapadas.
O candidato José Serra chegou a transformar sua frustração em "vitória estratégica", mas pelo menos não tentou diminuir o mérito da adversária.
Em compensação, foi estranha a reação de certos dirigentes da oposição e de torcedores inconformados. Houve quem alegasse que "Dilma não se elegeu, foi eleita por Lula", como se essa simplificação explicasse tudo. E houve quem afirmasse que a candidata do PT ganhou porque os seus 55 milhões de eleitores têm desprezo pelos valores éticos ou, mais precisamente, por terem "assassinado a ética".
A disputa teria sido um jogo maniqueísta entre um lado onde só houvesse o bem e outro onde só existisse o mal, com derrota do bem, claro.
Malabarismo maior fez outro observador, ao concluir que a expressiva votação de Serra, somada aos votos brancos, nulos e ao alto nível de abstenção, "deixa clara a insatisfação da maioria do povo não só com ela, mas também com o próprio Lula". Por esse raciocínio, que considera todos esses votos serristas, Serra teria sido o verdadeiro vencedor das eleições, não sua adversária. É o time daqueles que, por não gostarem de Lula, acham um absurdo 80% gostarem. Como pode ser tão popular se eu não o apoio?
A derrota às vezes não só obscurece a razão como mobiliza baixos instintos, como os dessa tal estudante de Direito Mayara Petruso, de SP, que postou no seu twitter a mensagem racista contra o Nordeste: "Nordestino não é gente, faça um favor a SP, mate um nordestino afogado."
Os ataques de xenofobia da futura advogada — advogada, imagine! — provocaram polêmica nas redes sociais e o repúdio da OAB. E a reação bem-humorada de um pernambucano em meio à indignação: "Eles elegem o Tiririca e vêm nos chamar de atrasados!"
Em vez de tentar tapar o sol com a peneira, seria mais honesto e realista responder como fez o brasilianista Timothy Power, quando lhe pediram para explicar a vitória de Dilma: "O padrão de vida de muitos brasileiros melhorou nestes últimos oito anos de governo, e as pessoas quiseram uma continuação."
Ou então se render ao óbvio, como fez Obama, adotando um mea culpa: perdemos porque não soubemos vencer. Simples assim.

domingo, 7 de novembro de 2010

Quem controla a imprensa?

Com certeza este será um tema que irá dominar as discussões nos próximos meses aqui no Brasil. A maneira como parte da imprensa se comportou nestas eleições, em especial Veja, Globo, Folha e Estado, foi a gota d'água para que a sociedade brasileira começasse a se mexer em direção a pedir algum tipo de controle para evitar abusos nocivos à democracia por parte dos órgãos de imprensa. Particularmente acredito que só a abertura para que o capital estrangeiro possa ter o controle majoritário de uma empresa de comunicação em nosso País colocará fim nos desmandos deste que é, sem dúvida, o último bastião do atraso e do corporativismo no Brasil. Precisamos ter mais empresas de comunicação relevantes por aqui e acabar com este feudalismo midíático representado pelos Civita, Frias, Marinhos e Mesquitas. Bom, abaixo artigo muito interessante e bem escrito do jornalista Paulo Nogueira sobre este assunto publicado no site http://www.diariodocentrodomundo.com.br/.

QUEM FISCALIZA O FISCAL?

Paulo Nogueira

Há, na Inglaterra, uma guerra fria entre os políticos e os jornalistas que cobrem política. Os políticos entendem que os jornalistas não receberam mandato da sociedade – votos, em suma – que lhes dê legimitidade nos comentários ou nos debates.

Em seu bom livro sobre jornalismo, My Trade, ou Meu Ofício, Andrew Marr, editor de política da BBC, detém-se longamente nesta discussão. Há alguma coisa nela, feitas as devidas adaptações, que vale para o Brasil.

Quais os limites do jornalismo e dos jornalistas?

Vejamos a Folha de S. Paulo, por exemplo. Ela procura se colocar, em editoriais e em publicidade, como uma espécie de fiscal sagrado dos governos. Tudo bem. Mas é preciso não perder de vista que ela não recebeu essa incumbência da sociedade.

o foi votada. Não foi eleita.

Fora isso, existe fiscal que não é fiscalizado?

Jornalismo é, como todos os outros, um negócio. Em geral, quem investe em jornalismo não está atrás de dinheiro. Os lucros não costumam ser grandes. O que o jornalismo dá é prestígio, influência. Empresários interessados em recompensas mais palpáveis fazem suas apostas em outras áreas. No começo da década de 2000, quando a internet já desaconselhava investimentos em papel no Reino Unido, um empresário russo comprou o jornal inglês The Evening Standard, em grave crise financeira, examente por isso: para ganhar respeitabilidade.

É um jogo antigo.

Na biografia semioficial de Octavio Frias de Oliveira, está publicado um episódio revelador. Nabantino, o antigo dono da Folha, estava desencantado porque se julgara traído pelos jornalistas que fizeram a greve de 1961. (Meu pai era um deles.) Decidiu vender o jornal. Um amigo comum de Nabantino e Frias sugeriu que ele comprasse. “Dinheiro você já tem da granja”, ele disse. “O jornal vai dar prestígio a você.” Na biografia, a coleção de fotos de Frias ao lado de personalidades mostra que o objetivo foi completamente alcançado. Um granjeiro não estaria em nenhuma daquelas fotos.

Sendo um negócio, o jornalismo não está acima do bem e do mal. É natural que prevaleçam, nele, as razões de empresa. Essas razões podem coincidir com as razões nacionais – ou não. Observe o mais carismático – não necessariamente o melhor ou mais escrupuloso – empresário de jornalismo da história do Brasil, Roberto Marinho, da Globo. Quem garante que o que era melhor para ele era o melhor para o país? Roberto Marinho era tão magnânimo a ponto de pôr os interesses nacionais à frente dos pessoais?

Como a sociedade não elegeu empresas jornalísticas, seus donos não têm que dar satisfação a ninguém sobre coisas como o uso dão ao dinheiro que retiram. Se decidem vender o negócio, nada os impede. Essa é a parte boa de você não ter um vínculo ou uma delegação direta da sociedade. Não existem amarras burocráticas para seus movimentos. Mas você não pode ficar com a parte boa e dispensar a outra – a que não lhe garante tratamento privilegiado apenas por ser da imprensa. Liberdade de expressão não é um conceito que tenha valor em si e sim dentro de um contexto. Na Inglaterra, você não pode publicar um artigo que exalte o terror islâmico, por exemplo. Mesmo no célebre Speaker’s Corner – o canto no Hyde Park tradicional por abrigar qualquer tipo de manifestação de gente que suba num caixote ou numa escada – se você louvar Bin Laden é preso assim que pisar no chão.

No Reino Unido, a mídia é acompanhada, como toda indústria. Há, por exemplo, um órgão regulador independente para a tevê e para o rádio, o Ofcom. A independência é vital. Se o Ofcom fosse manipulado por interesses políticos, seria um problema e não uma solução. Também não prestaria para nada se fosse controlado pelas próprias emissoras. Em poucas atividades há tanta autocomplacência como na auto-regulamentação. Outro fator relevante no acompanhamento da mídia entre os britânicos é a existência de grupos de pressão como o Mediawatcher, uma associação de espectadores que esperneia sempre que acha oportuno.

É curioso que não haja nada desse tipo no Brasil. As pressões do público são desogarnizadas, como vimos, por exemplo, no movimento que sugeriu a Galvão Bueno calar a boca.

Jornalismo é um negócio como todo outro. Apenas, em vez de vender sabão, você vende notícias e análises. Isso dá prestígio – mas não pode dar imunidade. Um modelo de acompanhamento semelhante ao britânico – em que não exista manipulação política do governo, como acontece em ditaduras – seria um avanço para o Brasil. Não se pode confundir acompanhamento com censura: os brasileiros ainda têm clara na memória a agressão ao noticiário sofrida na ditadura militar, e sabem o que aconteceu em países como a Rússia. Mas nada disso pode servir de impedimento para uma discussão adulta que eventualmente conduza da auto-regulamentação para uma regulamentação independente nos moldes da britânica.

Há dois grandes desafios aí. Um é vencer a resistência da mídia em sair da área de conforto da auto-regulamentação. Devem prevalecer aí não os interesses particulares e sim os do país. O outro é neutralizar a tentação dos governo de tomar a si um acompanhamento que só faz sentido se for genuinamente independente.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Erundina

Leio perplexo que a deputada federal e ex-prefeita de São Paulo, Luiza Erundina, foi condenada em última instância a devolver R$ 350 mil por um anúncio publicado na Folha de São Paulo sobre uma greve que ocorreu em seu mandato. Diante do resultado do julgamento, ela teve seu apartamento e dois veículos penhorados, que juntos, não chegaram perto de pagar a dívida. Amigos estão levatando recursos por meio de jantares e em depósito em conta corrente (leia o relato aqui).

A minha perplexidade é que algumas coisas neste país não fazem muito sentido. Como pode a Erundina, uma política honesta, ser condenada por algo tão prosaico enquanto pessoas que quebraram bancos para eleger sucessores ou construíram túneis mais caros do que o do Canal da Mancha continuam livres, soltos e fagueiros?

Talvez o preconceito e a má vontade com certas pessoas explique um pouco isso. No dia da eleição da Erundina eu trabalhava em uma rádio de notícias aqui em São Paulo e atendi na recepção um jovem que se dizia promotor e que estava estarrecido com a vitória dela, que isso não era possível e que São Paulo iria virar um caos. Aquele momento foi emblemático para mim de como se comportam alguns setores da elite, principalmente de São Paulo.

O resultado é que nunca vi administração mais perseguida do que a da Erundina nos anos seguintes. Sua administração foi cercada por todos os lados. Era pau diário na imprensa. Ela tinha menos de 15 dias no cargo e houve uma daquelas inundações de verão braba. Resultado: críticas de todos os lados...Má fé e má vontade caminhando juntas.

Vereadores, que anos depois alguns deles foram presos ou se envolveram em casos de corrupão na adminsração Maluf/Pitta, se viram no direito de até pedir o impechment de Erundina. E quase conseguiram. Foi por pouco.

Mas a ferida de morte na administração ocorreu quando o Tribunal de Justiça suspendeu a cobrança do IPTU de forma proporcional ao bairro. Quem mora em bairro bom paga mais do que aquele que mora em um bairro distante e mais pobre. Com a queda da aplicação de alíquotas diferenciadas, a prefeitua foi obrigada a cobrar pela alíquota menor. Ou seja, muito menos dinheiro do que o orçamento previa.

Pouco tempo depois o presidente do Tribunal que concedeu a liminar foi ser secretário de segurança do tal governador que foi eleito graças à quebra de um banco. Anos mais tarde a justiça reconhecia como correta a cobrança do IPTU e hoje já é prática adotada em muitos municípios brasileiros.

Como se vê, é quase um milagre nesta nossa sociedade que surjam pessoas que sejam honestas ou que procurem mudar as (más) práticas habituais de se fazer política neste país. Minha total solidariedade à Erundina.

O caso Uniban do ponto de vista da comunicação

Sim, sei que o assunto sobre a aluna com vestido curto na Uniban está velho, mas quero apenas registrar o caso do ponto de vista de comunicação. Existe em agências de comunicação e de relações públicas um item em seu portfólio denominado Gerência de Crise. São situações graves em que se metem (ou são metidos) alguns clientes dessas empresas. A ideia é pegar aquele episódio negativo e trabalhá-lo para que seu efeito não seja tão devastador perante a opinião pública.


Dependendo do caso, esses especialistas apresentam para jornalistas aspectos positivos do caso, procuraram não deixar sem (uma boa) resposta nenhuma questão colocada, fazem media traning com porta vozes eventuais da empresa, centralizam a comunicação, acompanham não só a imprensa mas também as redes sociais para ver o impacto das notícias etc.

Pois bem. Todos com algum nível de conhecimento sabem disso. O que me espanta é que um lugar em que deveria ser um difusor de informação não tenha se preocupado minimamente com um cuidado maior com a comunicação. Que não tenha se preparado de forma eficiente para suportar as críticas feitas no episódio. Pior, quando o assunto já parecia ter sumido da imprensa, os gênios resolvem expulsar a aluna...Para, no dia seguinte à desastrosa repercussão, terem que voltar atrás.

Comunicação é um assunto muito sério para ser tratado levianamente. E quem desdenha disso vai ser dar mal. Como aprenderam da pior maneira os administradores da Uniban.

A falta de energia virou cabo eleitoral

Nesta questão em torno do blackout de terça-feira o que mais me chamou a atenção desde o primeiro momento ao ouvir alguns entrevistados na rádios aqui de São Paulo era o evidente prazer em aproveitar a situação anormal para bater pesado no governo. Não que o governo não tenha que ser criticado, mas reparo sempre que há uma inegável dose de rancor quando alguns entrevistados resolvem soltar a voz para falar mal dos atuais ocupantes do poder executivo. Até mercadores esportivos - aqueles que falam mais de propaganda em seus programas do que de esporte - se aventuram a criticar a falta de energia com a profundidade de um pires.


E aí você percebe como setores da mídia, TV Globo e jornais Folha, Estado e Globo, passam longe de uma cobertura crítica e isenta e fazem desse caso motivo para escândalo. Hoje o editorial da Folha diz que o governo demorou para restabelecer a energia, informação desmentida em suas próprias páginas mais adiante. Em 99 foram 10 estados atingidos, 70% da carga cortada e 4h15 para restabelecer a energia. Em 2002 (reparem que os dois períodos no governo FHC) foram 10 estados atingidos, 56,7% da carga cortada e 4h26 ara voltar a energia. No episódio de terça foram 18 estados atingidos,51,5% da carga cortada e 3 horas de falta de energia.

Diante disso, se você gosta de exercitar o espírito crítico, cuidado com o que lê, vê e ouve em nossa mídia, que está jogando pesado, novamente, para ver se consegue prejudicar o atual governo. Para finalizar, um trecho do artigo de hoje do jornalista Janio de Freitas publicado na Folha que mostra com muita acuidade o jogo que está seno montado por parte da imprensa neste lamentável caso.



Mais apagão


O apagão deu a amostra do que virá dos meios de comunicação na campanha eleitoral. Já durante a escuridão, um comentário radiofônico explicava à população ansiosa que a redução do IPI de geladeiras, fogões, televisões, e demais produtos da chamada linha branca, levara a muitas compras, que provocaram excesso o consumo de energia. Logo, também o apagão.


Na manhã de ontem, desta vez pela TV, um outro dava o seu bom dia com a sugestão de que o apagão poderia dever-se a ato do MST ou de índios. Horas depois, outra vez pelo rádio, uma intervenção chamada de comentário político já começava com tudo: "Dilma não fica imune nesse apagão". Com o esclarecimento geométrico: "No centro da questão fica a capacidade de gestão da ministra".


Causa explicada, fontes do ato causador indicadas, responsabilidade pessoal apontada -para que tanta procura da origem do apagão pelos técnicos? E, sobretudo, para que tanta determinação, nas áreas oficiais, de não citar a Cesp entre os prováveis motivadores do apagão, o que seria dado como propósito de chutar a responsabilidade para o governo José Serra?


O apagão não foi só de luz

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Vivo - sinal de qualidade?

Não sei quanto a vocês, mas tenho reparado que os serviços de atendimento estão se voltando contra o consumidor. Os atendentes, se podemos chamá-los assim, com raras em honrosas exceções, praticamente chutam a nossa cara ao telefone. Desdenham de nossos problemas. Fazem pouco caso da nossa situação. Como se escondem covardemente atrás de um telefone e de nomes fictícios e sabem que são acobertados pelos superiores, não estão nem aí para os chatos que se aventuram a pedir uma ajuda. E nós, consumidores, ficamos reféns deste cinismo corporativo. A empresa cria um serviço que teoricamente seria para auxiliar o consumidor desamparado e, na verdade, monta uma trincheira para estressar de tal modo o cliente para que ele nunca mais na vida pense em reclamar novamente.

Cansado dessa situação, vou criar um marcador chamado consumidor. Caso você tenha um caso para compartilhar com a comunidade deste blog, por favor, envie sua história. Vamos criar aqui nosso muro das lamentações. Assim, quando alguém for pesquisar no Google uma empresa qualquer vai esbarrar em nossas histórias e, com certeza, pensará duas vezes antes de comprar o serviço.

O meu mais recente episódio foi com a Vivo. E notem que sou um os primeiros clientes da operadora, nunca migrei para outra empresa e ainda tenho débito automático. Ou seja, sou um bom cliente. Meu erro, talvez, tenha sido o de mimar muito esta companhia. Nunca ameacei sair, nunca briguei ou criei caso. Enfim sou aquele usuário doce e amável e que deixa a empresa em uma posição confortável e acomodada.

Talvez pela minha boa ficha corrida, um belo dia recebo uma ligação do telemarketing da Vivo. A moça muito simpática e articulada disse que estava me oferecendo uma promoção: modem de graça e conexão de 250 mb por R$24 durante seis meses. Um produto que eu estava precisando e uma promoção interessante. Por que não aceitar? Topei, confirmei os dados e ela me disse que o modem seria entregue em cinco dias úteis.

Claro que os tais cinco dias úteis passaram, 10 dias e nada. Aí liguei para a Vivo. Para minha surpresa, o atendente me disse que não havia nada registrado e que ele, por limitação no sistema, não poderia fazer nada, mas me orientou a enviar uma mensagem no fale conosco. Resignado e chateado com a situação fiz isso. Recebi a mensagem automática que em cinco dias úteis receberia a resposta.

Este prazo foi cumprido e no último dia estabelecido recebi um simpático e-mail assinado por Patrícia Rodrigues que dizia assim: " Bom dia ! Em atenção ao seu e-mail, informamos que a sua linha possui 31684 pontos onde (sic) poderá efetuar o resgate do modem gratuito (sic)" . Depois apresentava uma tabela de tarifas, com preços superiores ao oferecido na primeira oferta e nenhuma palavra sobre o meu caso.

Respondi que não iria usar os meus pontos para comprar modem algum e que eu queria uma resposta sobre o motivo de a Vivo ter me oferecido uma promoção e depois não ter cumprido com a entrega. Resposta? Só daqui a cinco dias úteis...Manterei vocês informados.

Voltei!

Como diriam os antigos, depois de um longo e tenebroso inverno, voltei. Cansei de ser bagaço de laranja e parti para um período sabático. Vou seguir o mestre Joseph Campbell e encontrar a minha bem-aventurança. Agora, entre os afazeres de um projeto pessoal, posso me dedicar mais a este blog que me dava tantas alegrias. Espero recuperar com o tempo a audiência deste sítio, ainda que modesta. E vamos que vamos. Bem-vindos a bordo novamente!

sábado, 8 de setembro de 2007

Pitbulls e a deformação da opinião pública

Tenho uma cadela da raça pitbull. Seu nome é Mel e está com quase 8 meses e 18 quilos. Rápida e brincalhona, o animal é companhia constante nas minhas caminhadas pelas ruas do bairro. Seriam até passeios diários se o dia-a-dia no trabalho não fosse tão massacrante. O engraçado é que nunca dei muita bola para cachorros em geral. Um dia, como a patroa implorava por ter um, fomos até um desses mega-petshops. Lá minha esposa se encantou justamente com um filhotinho de pitbull. A raça ela só foi saber depois. Pensava que fosse um vira-lata ou um labrador.

A Mel realmente engana porque não é pitbull do tipo red noise, aquele mais comum que vemos em fotos. Tem o focinho comprido e pelo curto da cor creme sem manchas brancas, outras características que não combinam com um pitbull do nosso imaginário. Como decidimos não cortar as orelhas e o rabo (providência largamente utilizada pelos donos destes cães), muitas pessoas não reconhecem de imediato a nossa cachorra como um pitbull. Brincam, passam a mão no pelo, fazem mil agrados e depois perguntam: que raça é? Quando dizemos que é pitbull, as reações são fantásticas. Alguns pulam de lado, outros mudam rapidamente a feição e se afastam só uns poucos, os que conhecem realmente cachorro, é que não se importam e continuam a brincar com a cadela.

E essas reações negativas se baseiam principalmente na lavagem cerebral que parte da imprensa faz a partir dos tais ataques de pitbulls a crianças e idosos, por exemplo. Não se discute aqui se o fato ocorreu ou não. Claro que existiu. Pessoas se machucaram ou morreram por causa de algum ataque destes animais. Mas o que me incomoda é que se faz um jornalismo preguiçoso, alarmista, de manchete fácil. É muito melhor tratar o assunto como um drama do que investigar o que levou o pitbull a ter aquele comportamento. Porém, fazer essa investigação dá trabalho, exige tempo e recursos. E assim ficamos na epiderme do assunto e a deformação da opinião pública vai se perpetrando. Daí para aparecer algum político oportunista propondo uma lei absurda do tipo extermínio da raça de pitbull, será um passo.

Aí com um projeto desses na pauta e a mídia bombando desinformação é claro que haverá quase um clamor popular para ocorrer alguma bobagem dessas. Não terá governante com coragem suficiente para comprar uma briga dessas. É quase um prato-feito. Ninguém que dependa de votos vai se opor a uma medida que contrarie os "mais nobres anseios da população". Afinal, logo logo tem eleição...

Para mim, a discussão sobre o pitbull deve antes passar por uma investigação mais criteriosa das causas que levaram esses animais a ter um comportamento agressivo. E isso não se vê nas reportagens. Só a seguinte estrutura é mostrada: cão ataca e pessoa morre - família indignada - vizinhos temerosos - cão é morto no centro de zoonoses. Certo, mas o que levou o cão a fazer isso? Que treinadores respeitados de animais foram ouvidos para explicar como se desperta o lado agressivo de um cachorro? Claro, que nada disso foi questionado e optou-se pelo caminho mais fácil e demagógico.

Não sou o maior especialista vivo em cachorros. Estou aprendendo a cuidar de um, mas já li livros e conversei com vários treinadores. Todas as fontes são unânimes em dizer que o pitbull não é um cachorro agressivo. Ele só se torna agressivo se o dono cometer vários erros, como treiná-lo para atacar, bater e maltratá-lo, deixá-lo confinado diariamente em um curto pedaço de terreno, mantê-lo preso o tempo todo em uma corrente, não fazer nenhum tipo de atividade rotineira com o cão etc etc. Um coisa dessas feitas regularmente prejudica o comportamento de qualquer cachorro e não só de pitbull. É uma fórmula infalível para transformar cães normais em maníacos de quatro patas.

Portanto, a lei tem que existir é para o dono do cachorro. É ele quem precisa cuidar corretamente do cão para que o animal não vire um delinquente canino. Ou seja, a pessoa tem que ter responsabilidade e não achar que pode tratar de qualquer jeito um cachorro. Eu sou um dono responsável e minha pitbull Mel é brincalhona e adora carinho, principalmente de crianças. Como eu outras pessoas têm cachorros desta raça com o mesmo comportamento pacífico. Será uma injustiça que todos sejam prejudicados por causa de meia dúzia de celerados que não trataram corretamente o seu cão.